Sorveteria São Domingos e Fernando Pessoa

Entre domingos quentes, infância e cidade, um sorvete também conta história

Sorveteria São Domingos e Fernando Pessoa

Domingo em Belo Horizonte tem um ritmo próprio

Belo Horizonte desacelera aos domingos. O trânsito fica mais leve, as calçadas ganham outro tempo e as famílias ocupam a cidade sem pressa. É nesse ritmo que muitos acabam parando diante da Sorveteria São Domingos, um daqueles lugares onde o calor encontra solução rápida e a memória da cidade parece ficar guardada entre balcão e banco de madeira.

Quem observa a cena vê algo simples: uma criança concentrada no sorvete, tentando evitar que ele escorra rápido demais. Mas há algo ali que atravessa gerações. Não é só o sabor. É o ritual.

Um poema de Lisboa que faz sentido em BH

Sempre que vejo essa cena, lembro de um verso de Fernando Pessoa em Tabacaria: “Come chocolates, pequena: come chocolates”. O poeta escrevia sobre uma criança em Lisboa, mas a imagem funciona perfeitamente aqui.

Pessoa falava de verdade, de simplicidade, dessa capacidade que só a infância tem de viver o momento sem cálculo. A criança não pensa no tempo, não pensa na fila, não pensa na pressa. Ela apenas vive aquele instante.

É difícil não reconhecer essa mesma verdade em uma tarde quente diante da São Domingos.

A sorveteria nasceu quando o poeta ainda estava vivo

A São Domingos abriu as portas em 1934. Naquele momento, Fernando Pessoa ainda estava vivo e morreria no ano seguinte. A coincidência temporal cria uma espécie de ponte invisível: o mundo físico do poeta era o mesmo mundo daquela jovem Belo Horizonte que ainda se construía como capital moderna.

As cidades mudam, as vitrines mudam, os costumes mudam. Mas certas imagens permanecem. Uma criança diante de um doce continua sendo universal.

O domingo e o calor ajudam a explicar a tradição

Em Belo Horizonte, o calor sempre teve papel importante na rotina da cidade. Nos dias mais quentes, sair para tomar sorvete virou quase um hábito urbano. Não precisa ser data especial, não precisa ser comemoração. Basta o domingo, o sol forte e algum tempo livre.

A São Domingos acabou se tornando um desses pontos onde a cidade se encontra. Não apenas por tradição, mas porque representa algo cotidiano. Ali não se vai só para consumir. Vai-se para repetir um gesto que muita gente já fez antes.

A infância transforma o gesto em memória

Talvez seja por isso que essas cenas ficam na cabeça. O adulto pode esquecer o sabor exato do sorvete, mas lembra da sensação. Lembra do banco, do movimento da rua, da conversa, da luz da tarde.

Pessoa dizia que gostaria de viver a verdade das coisas com a mesma intensidade que uma criança vive um chocolate. Em Belo Horizonte, talvez essa verdade apareça diante de um sorvete, em um domingo qualquer.

A cidade muda, mas certos rituais ficam

A São Domingos atravessou décadas vendo Belo Horizonte crescer ao redor. Mudaram carros, prédios, hábitos e gerações. Mas a cena essencial continua parecida: gente saindo para caminhar, famílias conversando, crianças tentando terminar o sorvete antes que ele derreta.

Talvez seja isso que faz alguns lugares resistirem ao tempo. Eles não dependem de moda nem de novidade. Dependem de memória.

E memória, diferente do sorvete, não derrete.

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.

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