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Internet lore transforma lendas da web em filmes

Histórias criadas em fóruns, redes sociais e comunidades digitais deixaram de circular apenas na internet e passaram a inspirar produções de terror, suspense e ficção.

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Internet lore
Internet lore transforma lendas da web em filmes • Ia

Slender Man nunca existiu fora da internet. Ainda assim, o personagem criado em um fórum online virou protagonista de filme, inspirou documentários e ajudou a popularizar um fenômeno que hoje desperta o interesse da indústria cinematográfica. Ao lado de outras histórias nascidas em comunidades digitais, ele faz parte da chamada internet lore, conjunto de narrativas colaborativas que transformou a web em uma das mais novas fontes de inspiração para o cinema.

A tendência foi destacada pela revista Dazed ao reunir produções que exploram esse universo. Em vez de adaptar livros ou lendas tradicionais, esses filmes buscam inspiração em creepypastas, fóruns, jogos de realidade alternativa (ARGs) e personagens criados coletivamente por usuários da internet. O resultado é um tipo de narrativa que mistura cultura digital, terror psicológico e comportamento online, aproximando a ficção da forma como milhões de pessoas consomem e compartilham histórias atualmente.

Como nasceu a internet lore

Embora o nome seja recente, o conceito lembra o funcionamento do folclore tradicional. A diferença é que, em vez de histórias passadas de geração em geração pela oralidade, os novos mitos surgem em plataformas digitais e evoluem a partir da colaboração de milhares de usuários. Um relato anônimo pode receber novos capítulos, imagens, vídeos e interpretações até se transformar em um universo compartilhado por pessoas de diferentes países.

Foi assim que nasceram as chamadas creepypastas, narrativas de terror publicadas na internet que simulam acontecimentos reais para provocar curiosidade e desconforto. Slender Man talvez seja o caso mais famoso, mas está longe de ser o único. A SCP Foundation, criada de forma colaborativa, reúne centenas de relatos fictícios sobre criaturas e objetos sobrenaturais apresentados como documentos confidenciais de uma organização secreta. Já os Alternate Reality Games (ARGs) misturam pistas espalhadas por sites, redes sociais e vídeos para fazer o público participar ativamente da construção da história.

Esse formato colaborativo despertou o interesse de roteiristas e diretores porque oferece algo raro: narrativas que já chegam ao cinema acompanhadas por comunidades engajadas e por um universo rico em personagens, teorias e interpretações.

Os filmes que levaram as lendas digitais para o cinema

Entre as produções mais representativas está We're All Going to the World's Fair (2021). O filme acompanha uma adolescente que participa de um desafio viral encontrado na internet e, aos poucos, passa a confundir realidade e ficção. Em vez de apostar em sustos tradicionais, a diretora Jane Schoenbrun constrói a tensão utilizando vídeos caseiros, transmissões online e a sensação de isolamento típica da vida conectada.

Outro exemplo é Host (2020), que transformou uma reunião por videoconferência em um dos filmes de terror mais comentados dos últimos anos. Toda a narrativa acontece na tela do computador, explorando recursos familiares para milhões de pessoas e mostrando como o ambiente digital também pode servir de cenário para o medo.

Slender Man (2018) levou para o cinema um personagem criado em um concurso de edição de imagens realizado em um fórum da internet em 2009. Apesar das críticas divididas, a adaptação confirmou que figuras surgidas exclusivamente no ambiente online podem alcançar o circuito comercial e influenciar outras produções.

Filmes como Searching (2018), Unfriended (2014) e Skinamarink (2022) também refletem essa transformação ao utilizar telas, registros digitais e a linguagem da internet como elementos centrais da narrativa, aproximando o espectador de uma experiência que faz parte da rotina contemporânea.

Por que a internet virou uma fábrica de histórias para o cinema

O interesse crescente por esse tipo de narrativa acompanha uma mudança na forma como as pessoas consomem entretenimento. Plataformas digitais deixaram de funcionar apenas como espaços de distribuição e passaram a produzir personagens, universos ficcionais e comunidades capazes de manter uma história viva durante anos. O público não apenas acompanha essas narrativas, mas participa delas, cria teorias, amplia acontecimentos e influencia seus desdobramentos.

Pesquisadores dedicados ao estudo do folclore digital observam que a internet reproduz mecanismos semelhantes aos das antigas lendas populares, mas em velocidade muito maior. Uma publicação feita por um usuário pode alcançar milhões de pessoas em poucas horas, receber contribuições de diferentes culturas e ganhar novas versões antes mesmo de ser adaptada para o cinema.

Ao incorporar esse universo, diretores encontram histórias que já chegam cercadas de curiosidade e envolvimento do público. A tendência indica que a internet lore continuará fornecendo personagens, cenários e narrativas para o cinema, mostrando que as grandes lendas do século XXI podem nascer muito antes da primeira cena, diretamente na tela de um computador.

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.

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