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Drogas sintéticas caseiras agravam crise de saúde nos EUA

Reportagem da BBC investiga a expansão de substâncias produzidas em laboratórios clandestinos e misturadas a drogas conhecidas, como fentanil e crack. A combinação de opioides com tranquilizantes e outros compostos torna o mercado ilegal mais imprevisível, aumenta os riscos de intoxicação e desafia os serviços de saúde.

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A mistura de fentanil com outras substâncias sintéticas aumenta a imprevisibilidade dos produtos que circulam nos Estados Unidos.
A mistura de fentanil com outras substâncias sintéticas aumenta a imprevisibilidade dos produtos que circulam nos Estados Unidos. • Divulgação/PMES

A crise de overdoses nos Estados Unidos enfrenta uma nova ameaça. Além da circulação de opioides sintéticos, como o fentanil, substâncias produzidas em laboratórios clandestinos e combinações de diferentes compostos químicos estão transformando o mercado ilegal de drogas. Em muitos casos, os consumidores não sabem exatamente o que estão usando, o que aumenta o risco de intoxicações graves e dificulta o atendimento médico.

Uma reportagem publicada pela BBC em outubro de 2026 mostra como essa mudança vem sendo observada em cidades como Columbus, no estado de Ohio, e Chicago, em Illinois. A investigação acompanha usuários, profissionais de recuperação e agentes penitenciários para retratar a expansão de substâncias sintéticas e o impacto de misturas que podem incluir opioides, estimulantes e tranquilizantes de uso veterinário.

O cenário também evidencia uma característica das drogas sintéticas: diferentemente de substâncias obtidas diretamente de plantas, muitos desses compostos podem ser produzidos por processos químicos clandestinos. Isso permite alterar fórmulas e combinações, dificultando o monitoramento e a identificação do que circula nas ruas.

Misturas químicas tornam o consumo mais imprevisível

Entre as substâncias mencionadas na reportagem está o fentanil, um opioide sintético associado a milhares de mortes por overdose nos Estados Unidos. O problema é que ele pode aparecer misturado a outras drogas, inclusive em produtos vendidos como crack ou estimulantes. Assim, pessoas que acreditam estar consumindo uma determinada substância podem ser expostas a opioides sem saber.

A BBC relata casos de usuários de crack que morreram após consumir produtos contaminados com fentanil. Em Franklin County, região de Columbus, Scott Sanders, responsável pela organização comunitária Hope Dealers, afirma que 78% das mortes por overdose registradas nos 12 meses anteriores à reportagem envolveram estimulantes. O dado, apresentado por Sanders, ajuda a ilustrar a complexidade do cenário local, mas não representa uma estatística nacional.

Outra preocupação é a presença de tranquilizantes sintéticos, como a xilazina e a medetomidina. As duas substâncias são sedativos utilizados na medicina veterinária e podem ser misturadas ilegalmente a opioides para prolongar ou modificar seus efeitos.

A xilazina pode provocar sedação intensa, reduzir a frequência respiratória e está associada ao aparecimento de feridas graves na pele, que podem evoluir para lesões profundas e de difícil tratamento. Já a medetomidina pode causar diminuição acentuada dos batimentos cardíacos e da pressão arterial, além de provocar sintomas graves de abstinência em pessoas expostas regularmente.

Um alerta divulgado pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), em abril de 2026, aponta o aumento da presença de medetomidina no mercado ilegal, principalmente em misturas com fentanil. Segundo a agência, os registros da substância no sistema nacional de laboratórios forenses passaram de 247, em 2023, para 8.233, em 2025. O crescimento indica uma expansão significativa das detecções, embora esses registros não correspondam diretamente ao número de consumidores ou de casos de intoxicação.

Por que a naloxona nem sempre é suficiente

A presença de diferentes substâncias em uma mesma droga também complica o atendimento de emergências. A naloxona, medicamento conhecido comercialmente como Narcan, é utilizada para reverter overdoses provocadas por opioides, como o fentanil. Sua ação pode restabelecer a respiração em pessoas intoxicadas por essas substâncias.

Entretanto, a naloxona não reverte os efeitos de sedativos como a xilazina e a medetomidina. Quando uma overdose envolve uma combinação de opioides e tranquilizantes, o medicamento pode ajudar a combater o componente opioide, mas a sedação e outros efeitos continuam exigindo atendimento médico.

O CDC recomenda que a naloxona seja administrada em casos de suspeita de overdose por opioides, mesmo quando há possibilidade de presença de medetomidina. A agência ressalta que a pessoa precisa receber assistência de emergência, pois pode continuar apresentando alterações importantes de consciência, respiração e circulação.

A situação foi observada em Chicago em maio de 2024, quando autoridades identificaram um agrupamento de intoxicações envolvendo medetomidina misturada a opioides. Um estudo publicado pelo CDC em 2025 registrou 12 casos confirmados e 26 prováveis. Os pacientes apresentaram, entre outros sintomas, redução dos batimentos cardíacos e resposta insuficiente à naloxona em razão da presença do sedativo.

Drogas sintéticas chegam até dentro das prisões

A expansão dessas substâncias também desafia os sistemas de segurança. Na Cadeia do Condado de Cook, em Chicago, a administração identificou uma nova forma de entrada e consumo de drogas: papéis e correspondências impregnados com substâncias sintéticas.

De acordo com a reportagem da BBC, o problema se intensificou em 2023, quando a unidade registrou aumento de mortes por overdose e encontrou papéis queimados nas celas. Os materiais eram aquecidos para que os presos inalassem os compostos presentes nas folhas.

Entre as substâncias identificadas estavam canabinoides sintéticos, conhecidos em alguns contextos como K2. Diferentemente da cannabis natural, esses compostos são produzidos quimicamente e podem ter efeitos imprevisíveis, incluindo intoxicações graves e convulsões.

A investigação relata que, após a identificação do problema, a administração passou a verificar a presença de umidade em correspondências e pacotes recebidos pelos presos. Entre um quinto e um quarto dos materiais analisados apresentavam sinais que levavam à rejeição das entregas.

O episódio mostra como a variedade de substâncias e as diferentes formas de circulação dificultam o controle do mercado ilegal, inclusive em ambientes com protocolos rigorosos de segurança.

Mortes por overdose diminuem, mas a crise continua

Apesar da expansão de novas combinações químicas, os dados nacionais dos Estados Unidos apontam uma redução recente nas mortes por overdose. Estimativas provisórias do CDC indicam que 69.973 pessoas morreram por essa causa em 2025, uma queda de quase 14% em relação às 81.313 mortes estimadas em 2024.

A diminuição foi a terceira consecutiva desde o pico registrado em 2022, quando o país contabilizou aproximadamente 110 mil mortes por overdose. A ampliação do acesso à naloxona, iniciativas de prevenção e programas de tratamento são alguns dos fatores considerados importantes nesse cenário.

A redução dos números, no entanto, não significa que o problema esteja resolvido. A reportagem da BBC mostra que o mercado de drogas continua mudando, com a introdução de novas substâncias e misturas que podem escapar dos mecanismos tradicionais de monitoramento.

Para o xerife do Condado de Cook, Tom Dart, combater apenas a oferta não é suficiente. A investigação destaca a necessidade de ampliar o acesso ao tratamento para dependência química e aos programas de recuperação.

O cenário reforça que a crise das drogas envolve questões de saúde pública que vão além da fiscalização. Prevenção, atendimento médico, redução de danos e acesso ao tratamento são partes importantes da resposta a um mercado cada vez mais complexo e imprevisível.

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.

 

 

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