Dormir com fone virou hábito e especialistas começam a alertar
Uso prolongado durante o sono levanta dúvidas sobre saúde auditiva

Dormir ouvindo música, ruído branco, podcasts ou ASMR deixou de ser um hábito isolado para se transformar em comportamento cada vez mais comum entre jovens e adultos. Nas redes sociais, vídeos com dicas para “dormir melhor” ajudaram a impulsionar o uso contínuo de fones durante a madrugada, principalmente entre pessoas que convivem com ansiedade, insônia ou dificuldade para desacelerar antes de dormir.
O crescimento desse hábito acompanha outra tendência que ganhou força recentemente: o chamado “sleepmaxxing”, expressão usada para definir práticas voltadas à otimização máxima do sono. Máscaras, iluminação controlada, aplicativos de relaxamento, sons ambientes e dispositivos auditivos passaram a fazer parte da rotina noturna de muita gente.
O problema é que especialistas começaram a levantar preocupações sobre o uso prolongado de fones durante o sono. Médicos e pesquisadores da área auditiva apontam que dormir diariamente com dispositivos dentro do ouvido pode aumentar riscos de irritação no canal auditivo, acúmulo de umidade, excesso de cera e até pequenas infecções em alguns casos.
A discussão ganhou força principalmente por causa da popularização do ASMR e dos áudios de ruído branco. Milhões de pessoas passaram a utilizar sons contínuos para bloquear barulhos externos e tentar induzir relaxamento mais rápido. Em plataformas como TikTok e YouTube, conteúdos ligados a sono acumulam bilhões de visualizações.
O sono virou parte da cultura wellness
O comportamento atual mostra que dormir deixou de ser apenas necessidade fisiológica. O sono passou a integrar o universo wellness da mesma maneira que alimentação saudável, academia e autocuidado. Isso ajuda a explicar por que tantas pessoas começaram a investir em rotinas noturnas altamente estruturadas.
A geração Z impulsionou parte desse movimento ao transformar hábitos de descanso em conteúdo digital. Vídeos de preparação para dormir, sons relaxantes e rotinas noturnas ganharam enorme espaço online. O problema é que muitas tendências acabam sendo reproduzidas sem orientação médica ou acompanhamento profissional.
Especialistas explicam que o principal cuidado envolve volume elevado e uso contínuo por muitas horas. Mesmo sons considerados relaxantes podem provocar desconforto auditivo quando utilizados de maneira excessiva ou inadequada. Outro ponto observado é o uso de fones muito rígidos durante o sono, capazes de gerar pressão prolongada no ouvido.
Ansiedade digital impulsionou o hábito
O aumento da hiperconexão também ajuda a explicar esse cenário. Muitas pessoas relatam dificuldade para dormir em silêncio depois de anos consumindo estímulos constantes ao longo do dia. Sons ambientes passaram a funcionar quase como mecanismo de desaceleração mental.
Aplicativos de meditação, playlists para dormir e ruídos naturais cresceram justamente nesse contexto. Chuva, ventilador, oceano, sons binaurais e ASMR se transformaram em ferramentas populares de relaxamento.
Mesmo sem consenso absoluto sobre os impactos do hábito a longo prazo, especialistas recomendam atenção ao volume, ao tempo de uso e à higiene dos dispositivos. O objetivo não é transformar o fone em vilão, mas evitar que um recurso pensado para relaxar acabe criando novos problemas de saúde.
O crescimento desse comportamento ajuda a mostrar como tecnologia, ansiedade e bem-estar passaram a ocupar o mesmo espaço dentro da rotina moderna. Hoje, até o silêncio virou algo difícil de encontrar.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.


