Capim vira canudo em iniciativa que combate o uso de plástico
Empresa vietnamita transforma uma gramínea de crescimento natural em canudos biodegradáveis e gera renda para artesãs locais

Um simples canudo pode parecer um item pequeno diante do tamanho do problema causado pelo plástico, mas produtos descartáveis fazem parte de uma discussão ambiental que ganhou proporções globais. Garrafas, embalagens, talheres e canudos estão entre os materiais de uso rápido que permanecem por muito mais tempo no ambiente.
No Vietnã, uma iniciativa encontrou na própria vegetação local uma alternativa para substituir os tradicionais canudos de plástico. A empresa Ông Hút Co, conhecida também como Grass Straws Vietnam, produz canudos utilizando capim que cresce naturalmente na região do Delta do Mekong.
A proposta combina reaproveitamento de um recurso disponível na natureza, produção artesanal e geração de renda para mulheres da província de Long An. O resultado é um produto que mantém o formato necessário para o consumo de bebidas, mas utiliza uma matéria-prima de origem vegetal.
Canudos de capim são feitos de forma artesanal
A produção começa com a coleta do capim, que possui uma característica especialmente interessante para essa finalidade: o caule apresenta formato tubular e pode ser transformado em um canudo sem a necessidade de fabricar uma estrutura artificial.
De acordo com as informações disponibilizadas pela própria Ông Hút Co, os canudos são produzidos artesanalmente por um grupo de mulheres que vive em Đức Huệ, na província de Long An. O material utilizado é uma espécie de capim de crescimento natural, com plantas de um a dois anos de idade.
Depois da colheita, os caules passam por etapas de limpeza e preparação. Eles são cortados no tamanho adequado, enquanto a parte interna é higienizada para permitir a passagem da bebida.
A empresa comercializa duas versões principais: o canudo de capim fresco e o canudo de capim seco. O primeiro precisa ser armazenado sob refrigeração e possui vida útil menor. Já o modelo seco pode ser mantido em temperatura ambiente por vários meses, segundo as especificações divulgadas pela fabricante.
A diferença também muda a experiência de utilização. Enquanto o produto fresco mantém características do vegetal recém-colhido, o seco apresenta maior praticidade para estabelecimentos que precisam armazenar o material por períodos mais longos.
Alternativa ao plástico de uso único
A iniciativa vietnamita surge em um contexto no qual o consumo de plástico descartável continua sendo um dos grandes desafios ambientais.
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a humanidade gerou cerca de 400 milhões de toneladas de resíduos plásticos em 2024. O órgão destaca que produtos de uso único estão entre as principais fontes do problema, justamente porque são utilizados por pouco tempo e rapidamente transformados em resíduos.
Os canudos fazem parte dessa categoria. Embora representem uma parcela pequena do volume total de resíduos plásticos encontrados no ambiente, chamam atenção por serem produtos de curta utilização e por terem alternativas disponíveis.
Em uma publicação sobre a poluição provocada por canudos, o PNUMA destacou que esses objetos estão entre os dez itens plásticos mais encontrados no lixo de oceanos e áreas costeiras. A organização também cita alternativas produzidas com materiais como papel, vidro, metal, bambu e resíduos ou partes de plantas.
O caso do Vietnã mostra justamente uma dessas possibilidades: substituir uma matéria-prima sintética por um recurso vegetal disponível localmente.
Produção também gera renda para mulheres
Além da questão ambiental, a produção dos canudos de capim apresenta um aspecto social. A fabricação é realizada de forma artesanal por um grupo de mulheres da região de Đức Huệ. Dessa maneira, uma atividade relacionada à busca por alternativas ao plástico também se transforma em oportunidade de geração de renda para a comunidade.
Esse modelo chama atenção porque não depende apenas da criação de um novo material industrial. A proposta utiliza uma planta que já cresce naturalmente na região e associa o processamento manual a uma cadeia produtiva de pequena escala.
O produto também demonstra como soluções sustentáveis podem estar relacionadas às características de cada território. Em vez de buscar uma única alternativa para substituir todos os produtos descartáveis, diferentes regiões podem encontrar materiais disponíveis localmente para desenvolver soluções adequadas às suas necessidades.
Do capim ao restaurante
Depois de preparados, os canudos podem ser utilizados em restaurantes, cafés e outros estabelecimentos que oferecem bebidas.
A versão fresca possui cerca de 18 centímetros de comprimento e pode ser armazenada sob refrigeração por um período limitado. Já o modelo seco apresenta maior durabilidade e pode ser mantido em temperatura ambiente por até seis meses, segundo a fabricante.
Essa característica pode ser especialmente interessante para restaurantes e bares, que precisam equilibrar sustentabilidade, praticidade e custos na escolha dos materiais utilizados no serviço.
Após o uso, a proposta da empresa é que os canudos sejam destinados à compostagem, em vez de seguirem para o descarte convencional. A fabricante informa ainda que o produto não utiliza produtos químicos no processamento e na conservação.
É importante, porém, não tratar uma alternativa individual como solução definitiva para a crise do plástico. O próprio PNUMA ressalta que simplesmente substituir um produto descartável por outro material não resolve, sozinho, o problema ambiental. A redução do consumo e a preferência por produtos reutilizáveis também fazem parte de uma estratégia mais ampla.
Ainda assim, experiências como a dos canudos de capim mostram que inovação e sustentabilidade podem caminhar juntas. Ao transformar uma planta abundante em um produto utilizado no cotidiano, a iniciativa vietnamita cria uma alternativa ao plástico e, ao mesmo tempo, movimenta uma cadeia produtiva local.
Para bares, restaurantes e consumidores, a discussão vai além da escolha de um canudo. Ela envolve repensar quais materiais são utilizados diariamente, quanto tempo permanecem em uso e qual será o destino deles depois do consumo.
No caso vietnamita, um simples pedaço de capim ganha uma nova função antes de voltar ao ambiente. É uma solução localizada para um problema global — e um exemplo de como materiais naturais podem inspirar novas formas de consumo.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.



