Um balcão onde a história de Cuba ainda é servida
Em Havana existe um bar onde a história da ilha ainda passa pelo balcão. Não é metáfora. O Bodeguita del Medio, fundado em 26 de abril de 1942, deixou de ser apenas um bar há muito tempo. Virou um pedaço vivo da memória cubana, um lugar onde política, literatura e cotidiano se misturam sem cerimônia.
Quem entra ali não encontra só um mojito ou paredes antigas. Encontra um espaço que atravessou revolução, crise econômica, turismo internacional e mudanças diplomáticas sem perder o papel simbólico que ganhou dentro da ilha.
Bodeguita del Medio por que o bar mais famoso de Cuba
A revolução mudou o país e também o bar
Quando a Revolução Cubana venceu em 1º de janeiro de 1959, praticamente toda a estrutura econômica do país foi transformada. Empresas privadas passaram ao controle do Estado, e o Bodeguita del Medio entrou nesse processo como tantos outros negócios cubanos.
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Em dezembro de 1961, Fidel Castro anunciou oficialmente a adesão ao marxismo, consolidando o novo regime. Em fevereiro do ano seguinte, os Estados Unidos iniciaram o bloqueio econômico que marcaria a vida cubana por décadas. A economia entrou em um ciclo difícil, e a rotina da população mudou drasticamente.
O curioso é que, mesmo nesse cenário, o Bodeguita não desapareceu. Continuou funcionando. Sobreviveu ao isolamento econômico, às crises internas e às mudanças de governo, tornando-se cada vez mais conhecido fora de Cuba.
Hemingway ajudou a transformar o bar em mito
Se a política moldou o contexto do Bodeguita, a literatura ajudou a transformar o lugar em símbolo mundial. O escritor Ernest Hemingway passou longas temporadas em Cuba entre 1938 e 1961 e frequentava o bar com regularidade.
Autor de O velho e o mar, obra profundamente ligada à paisagem cubana, Hemingway ajudou a projetar o bar internacionalmente. O Bodeguita passou a figurar em roteiros turísticos não apenas como um bar tradicional, mas como um espaço associado à presença do escritor na ilha e mudar o
Até hoje, muitos visitantes entram no local movidos por essa ligação literária. As paredes cobertas de assinaturas, fotos e lembranças ajudam a manter essa memória viva.
O mojito virou experiência cultural
No Bodeguita, beber um mojito não é apenas pedir um coquetel. Virou uma espécie de ritual turístico. A mistura de rum, açúcar, hortelã, água gasosa e gelo passou a ser associada ao bar e à imagem de Hemingway.
Esse detalhe aparentemente simples ajuda a explicar por que o local deixou de ser apenas um estabelecimento comercial. Ele funciona como espaço de experiência simbólica. Quem entra ali quer participar de uma narrativa, não apenas consumir uma bebida.
O contraste entre fama mundial e vida cotidiana cubana
O Bodeguita del Medio também revela uma contradição que define Cuba até hoje. Embora seja símbolo nacional, o bar é frequentado majoritariamente por turistas estrangeiros. Visitantes de diferentes países passam pelo local todos os dias, atraídos pela fama histórica e cultural.
Esse fluxo internacional transformou o bar em vitrine da ilha, mas ao mesmo tempo mostra a distância entre o turismo global e o cotidiano econômico da população cubana. O Bodeguita virou ponto onde duas realidades convivem no mesmo espaço.
A reaproximação internacional reacendeu expectativas
Décadas após a revolução, Cuba começou a viver sinais de abertura diplomática. Em 2008, Raúl Castro assumiu o governo após a saída do irmão Fidel. Anos depois, negociações mediadas pelo papa Francisco aproximaram a ilha dos Estados Unidos durante o governo Barack Obama.
Esse movimento levantou expectativas sobre reformas econômicas e maior abertura da sociedade cubana. Com isso, lugares históricos como o Bodeguita passaram a ser vistos não apenas como símbolos culturais, mas como espaços que poderiam refletir uma nova fase do país.
Um bar que virou arquivo vivo da ilha
O Bodeguita del Medio não é apenas o bar mais famoso de Cuba. Ele virou um ponto onde a história do país permanece visível no cotidiano. Ali convivem literatura, política, turismo e memória.
Quem entra pela porta estreita do bar não visita só um estabelecimento antigo. Entra em um espaço onde a narrativa cubana continua acontecendo, entre um copo de rum, uma conversa em espanhol e o som constante da cidade lá fora.