MPF pede abertura de inquérito para investigar falso frei que recebeu R$ 2 mi da Renova
Phillip Neves Machado foi nomeado como perito judicial do caso Samarco
O Ministério Público Federal (MPF) requereu à Polícia Federal a instauração de um inquérito policial para investigar a atuação do falso frei Phillip Neves Machado como perito judicial no caso do rompimento da barragem de Mariana, da Samarco, que tramita na Justiça Federal. O ofício foi feito nesta
De acordo com o procurador da República Carlos Bruno Ferreira da Silva, chefe da força-tarefa do caso Samarco, "trata-se de possível ocorrência dos delitos de falsificação de documento público e de documento particular e falsidade ideológica".
No ofício feito pelo MPF à superintendente da PF em Minas, delegada Tatiana Alves, o chefe da força-tarefa aponta que a reportagem da Itatiaia, na semana passada, indicou que Phillip Neves Machado "teria fraudado o seu currículo (e, aparentemente, até mesmo a condição de frei) para ser nomeado como perito judicial na Ação Civil Pública nº 1024354-89.2019.4.01.3800, em trâmite perante a 4ª Vara Federal de Belo Horizonte".
Nesta terça-feira, Phillip Machado assumiu ter mentido sobre tudo. Em gravação de voz enviada a pessoas que atuam junto aos atingidos pelo rompimento da barragem de Mariana, Phillip Machado pede perdão e que, no tempo certo, irá "revelar toda a verdade".
"Caros amigos, quero com grande pesar assumir minhas culpas e pedir implorar o perdão de todos vocês. Menti muitas vezes. Poderei depois, aos que quiserem e me derem as oportunidade explicar passo a passo porque fiz isso. Penso que, por favor, não me façam mais nada de mal. Minha vida já está destruída. Eu quero recomeçar com a verdade. Por favor, me perdoem", diz Machado.
Em outro momento do áudio, Machado diz que ainda irá revelar toda a verdade sobre o caso, "desde o primeiro dia até hoje". "Eu estou organizando tudo para fazer a minha defesa naquilo que é possível e direi a todos vocês, em breve, toda a verdade, desde o primeiro dia até o dia de hoje. Não se assustem e acreditem, eu não sou um bandido", desabafou.
Além de mentir sobre possuir uma série de especializações, doutorados e mestrados em universidades europeias, Machado também inventou ser frei da Ordem Premonstratense, ramo do catolicismo fundado pelo santo holandês São Norberto. Tanto a Arquidiocese quanto os Premonstratenses que atuam em Minas negaram conhecer Phillip Machado.
As polêmicas de Machado não param por aí. Entre 2018 e 2021, ele atuou como integrante do Comitê Técnico da Fundação Renova. Em abril do ano passado, foi nomeado pela Justiça como perito judicial.
"Eu não fiz nada para fazer mal a ninguém, simplesmente para viver. Peço mais uma vez perdão e vou me afastar até que eu consiga organizar melhor todos os fatos que eu preciso apresentar vocês. Eu buscarei apresentar toda a verdade a vocês. Sem mais nenhuma mentira sobre nenhum dos assuntos e peço, por favor, a misericórdia de vocês em relação a mim. Embora eu não mereça, eu sei disso, mas peço a misericórdia de vocês em relação a mim. Procurei ser amigo e amar a cada um de vocês, embora muitas vezes tenha sido traíra e traidor, mas me arrependo do fundo do meu coração e da minha alma por tudo de errado que fiz e por todas as mentiras que foram ditas", diz Phillip.
Vida pessoal
Após a publicação da Itatiaia, a reportagem continuou a apurar sobre a vida real de Phillip Machado. Apesar de se apresentar como frei, ele se casou por duas vezes e tem um filho de 22 anos. A atual esposa é sócia de Machado em uma empresa de consultoria.
Justiça
Na semana passada, após contato da reportagem, a Justiça Federal determinou que todos os peritos judiciais do caso Samarco comprovassem seus currículos e capacitações técnicas em um prazo de cinco dias úteis, que terminou nesta terça-feira (6). Machado ainda não se manifestou nos autos do processo.
Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. É colunista da Rádio Itatiaia. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.
