MG aumentou ICMS sobre cerveja e cigarro, mas deu isenção bilionária para empresas do ramo
Governo Zema sancionou lei para aumentar o imposto de itens supérfluos, mas concede isenção de ICMS para empresas específicas do ramo

Em setembro de 2023, o Governo de Minas Gerais sancionou uma lei que majorava em 2% a cobrança do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para itens considerados supérfluos, como bebidas alcoólicas, refrigerantes e cigarros. Na contramão da medida, o mesmo Executivo ofereceu isenções fiscais na casa dos R$ 3 bilhões só em 2025 justamente para empresas do ramo cervejeiro e tabagista.
Antes tratada como um segredo estratégico crucial para a viabilidade econômica do estado, a lista de empresas beneficiadas pela isenção do ICMS foi divulgada na terça-feira (23) no Portal da Transparência de Minas Gerais. Entre as 20 primeiras posições do ranking estão Ambev, Souza Cruz, Spal, Cervejaria Cidade Imperial, Heineken e Cervejaria Petrópolis. A soma dos benefícios superou a marca de R$ 3 bilhões em 2025.
| RAZAO SOCIAL | DATA INICIO | VALOR RENÚNCIA 2025 |
| AMBEV S.A. | 01dez.2017 | R$ 1.517.759.453,38 |
| SOUZA CRUZ LTDA | 31out.2016 | R$ 617.833.854,86 |
| SPAL INDUSTRIA BRASILEIRA DE BEBIDAS S/A | 09out.2014 | R$ 379.506.084,26 |
| CERVEJARIA CIDADE IMPERIAL S.A. | 28fev.2019 | R$ 200.759.942,83 |
| HNK BR INDUSTRIA DE BEBIDAS LTDA. | 01jul.2023 | R$ 193.493.341,66 |
| CERVEJARIA PETROPOLIS S/A - EM RECUPERACAO JUDICIAL | 27mai.2019 | R$ 141.151.429,89 |
A lei que aumentou o ICMS para itens considerados supérfluos determina que ao menos 15% dos recursos arrecadados com o acréscimo no imposto seriam destinados ao Fundo Estadual de Assistência Social (Feas) em 2024. Esse percentual poderá ser aumentado para 20%, em 2025, e para 25%, em 2026. O projeto enviado à Assembleia Legislativa (ALMG) pelo governador e aprovado em segundo turno em votação apertada com 31 votos a favor e 27 contrários.
O que diz o Governo de Minas
A Itatiaia consultou o Governo de Minas para saber se as isenções não tornaram nulas ou deixaram com saldo negativo o aumento de 2% do ICMS para itens supérfluos. A reportagem perguntou ainda se a isenção a empresas específicas pode prejudicar concorrentes do mesmo setor.
Em nota, a Secretaria de Estado de Fazenda afirmou que o aumento do ICMS sobre itens supérfluos possui destinação específica ao Fundo de Erradicação da Miséria (FEM), observadas as normas orçamentárias e financeiras aplicáveis.
“A arrecadação decorrente dessa sistemática integra o conjunto das receitas vinculadas ao Fundo, cuja execução ocorre de acordo com as finalidades legalmente estabelecidas. Em relação aos tratamentos tributários concedidos a contribuintes, a SEF/MG esclarece que tais instrumentos observam a legislação tributária vigente, os convênios celebrados no âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) e os requisitos previstos na regulamentação aplicável a cada modalidade”, diz trecho da nota que trata sobre a escolha das empresas beneficiadas com a isenção do ICMS.
A nota diz ainda que eventuais avaliações sobre efeitos arrecadatórios ou concorrenciais demandam análise técnica específica, considerando o conjunto das operações alcançadas, os respectivos enquadramentos legais e as características de cada segmento econômico.
A lista de benefícios fiscais
A publicização da lista é uma questão antiga na gestão do estado sob o governador Romeu Zema (Novo). O pedido de abertura das informações é uma demanda recorrente da oposição na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).
À Itatiaia, a deputada estadual Lohanna França (PV), integrante do bloco de oposição, criticou a forma como foi aplicada a majoração do ICMS sobre itens supérfluos, mas destacou o fato de que a publicação da lista das empresas beneficiadas com a isenção do imposto deve ser considerado um avanço.
"O governo aumentou o ICMS sobre as compras que o consumidor vai fazer. Eles aumentaram de alguns produtos, como a cerveja, mas diminuíram os impostos para quem produz a cerveja. O que a gente percebe é que sequer a forma como eles estão lidando com as questões as tributárias faz sentido. O que a gente tem é um é um abismo entre o que é dito e o que é feito efetivamente. De toda forma, nós tivemos um avanço muito grande com a liberação da lista, porque todas essas análises, o endosso às isenções que a gente concorda, a crítica às isenções que a gente discorda, tudo isso só pode ser feito quando se tem transparência", declarou.
Em junho do ano passado, enquanto Zema estava em viagem oficial para a Ásia, o então vice-governador Mateus Simões (hoje no PSD) chegou a anunciar que a Secretaria de Fazenda estava preparando um levantamento para divulgar as empresas sob regime especial de tributação.
Porém, ao retornar ao Brasil, Zema desautorizou a divulgação da lista e os dados seguiram sigilosos.
O regime especial de tributação é um benefício fiscal concedido a empresas como forma de atrair investimentos. Ao oferecer uma carga menor de impostos, um estado pode tentar se sobressair em relação a outros para garantir a instalação de empresas em seu território.
Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.



