Lula rebate pressão por cortes de gastos e diz que população pobre não pagará conta do ajuste fiscal
Presidente afirma que Brasil tem responsabilidade social e seriedade fiscal, questiona comparações sobre a dívida pública e admite que 2026 termina abaixo das expectativas econômicas do governo.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) rebateu, nesta sexta-feira (6), as cobranças de economistas e do mercado financeiro por cortes de gastos públicos.
Durante reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), no Ministério de Minas e Energia, em Brasília, Lula afirmou que o governo mantém responsabilidade social e “seriedade fiscal” e garantiu que a população mais pobre não será prejudicada por eventuais medidas de ajuste nas contas públicas.
Ao defender a situação fiscal brasileira, o presidente questionou comparações com o endividamento de outras economias, como Estados Unidos, França, Japão e Itália.
“Quantos países do mundo têm a seriedade fiscal que temos? Qual a dívida dos Estados Unidos? Da França? Do Japão? Da Itália? Perto da nossa é o dobro em relação ao PIB? E, se a gente for analisar a nossa dívida de verdade, ela nem é tudo que aparece”, declarou.
Na sequência, Lula cobrou do ministro da Fazenda, Dario Durigan, a apresentação pública de dados sobre a dívida brasileira. O presidente também defendeu que as avaliações sobre a gestão fiscal considerem a situação das contas públicas encontrada pelo governo quando assumiu o Palácio do Planalto, em 2023.
“Para alguém falar que a gente não tem, precisa dizer como a gente pegou esse governo. Se não disser como encontramos esse governo, as pessoas não têm comparativo”, afirmou.
Lula voltou a assegurar que não pretende transferir os custos de um eventual ajuste fiscal para a população de baixa renda. Segundo o presidente, o governo recebeu o país com déficit de 2,8% e está encaminhando um orçamento com superávit.
“A única coisa que eles têm que saber é que o pobre não pagará a conta. A única coisa é que nós não levaremos o povo pobre a nenhum sacrifício. Nós pegamos esse governo com déficit de 2,8% e nós estamos entregando orçamento com superávit. Não é o que o sistema financeiro quer, porque ele quer tudo. É o que a gente pode fazer”, acrescentou.
Mercado cobra controle das despesas públicas
Lula tem sido pressionado por especialistas em economia e representantes do mercado financeiro a conter o crescimento das despesas obrigatórias, que incluem gastos com Previdência, assistência social e funcionalismo público.
A preocupação está relacionada à sustentabilidade da dívida pública. A ausência de medidas de contenção das despesas pode ampliar a desconfiança dos investidores, pressionar o dólar, elevar as expectativas de inflação e contribuir para a manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em patamares elevados por mais tempo.
O cenário também pode encarecer o crédito para empresas e famílias, aumentar o custo de financiamento da dívida pública e limitar o crescimento econômico.
O governo, por sua vez, resiste à possibilidade de cortes lineares nos gastos e argumenta que investimentos em políticas sociais, saúde e educação não devem ser tratados como despesas descartáveis. Lula e sua equipe defendem que um eventual ajuste fiscal também considere a redução de renúncias fiscais concedidas a setores empresariais e a revisão dos recursos destinados a emendas parlamentares.
Lula diz que 2026 termina abaixo das expectativas
Durante o mesmo pronunciamento, o presidente reconheceu que 2026 está terminando de maneira menos satisfatória do que gostaria. Lula afirmou que esperava resultados econômicos mais expressivos, mas ponderou que o governo conseguiu realizar o que considerava possível diante das circunstâncias.
“Agora estamos terminando o ano menos exitoso que eu gostaria. Gostaria que a economia estivesse crescendo 10%, desemprego zero, salário mínimo de R$ 5 mil. Gostaria [de] tudo bem maior, mas a gente consegue o que é possível construir”, declarou.
Ao encerrar a fala, Lula voltou a defender a responsabilidade social e fiscal do governo e recorreu a uma lembrança da infância para justificar sua visão sobre a administração dos recursos públicos. O presidente citou a mãe, Dona Lindu, que, segundo ele, ensinou que não se deve gastar mais do que se tem.
“O que precisamos fazer neste país é continuar dizendo o seguinte: este país vai continuar com responsabilidade social porque eu tive uma professora analfabeta, chamada dona Lindu, que pegava o meu pagamento no final do mês e dizia: ‘Você não pode gastar o que você não tem’. Isso que eu aprendi na minha vida eu trouxe para o governo”, concluiu.
João Pedro Melo é jornalista, formado pelo UniCEUB. Tem mais de dez anos de experiência na cobertura de Congresso Nacional, Palácio do Planalto e Supremo Tribunal Federal. Teve passagens pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação como repórter de política na TV e no rádio.



