Lula começa a desenhar novo governo sob pressão do mercado e necessidade de apoio no Congresso
Composição mais conservadora do Congresso exige articulação política do presidente e, para aprovar matérias de interesse do governo, apoio do Centrão; primeiros nomes ainda são do PT

O presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda comemora a vitória contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno das eleições, no último domingo (29), mas já começa a desenhar a Esplanada dos Ministérios do seu quarto governo sob pressão do mercado financeiro e a necessidade de acomodar partidos do centrão para conquistar apoio em um Congresso mais conservador na próxima legislatura.
Vencedor nas urnas com 51,79% dos votos válidos, e um recorde de 64,2 milhões de eleitores, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (59,8 milhões), Lula e o PT tiveram uma derrota no primeiro turno para além da disputa presidencial. O Partido Liberal (PL) conseguiu eleger um recorde de 121 deputados federais e 19 senadores, aumentando a bancada na Casa Alta para 29 parlamentares.
A composição mais conservadora exige articulação política do presidente e, para aprovar matérias de interesse do governo, apoio do Centrão. Apesar dessa necessidade, as primeiras mudanças especuladas estão no entorno petista de Lula, com mudanças programadas para a Casa Civil, Fazenda, Justiça, Segurança Pública e Defesa.
Na pasta mais próxima do presidente, o ex-ministro da Educação e senador Camilo Santana (PT-CE), é cotado para despachar diretamente do Palácio do Planalto na Casa Civil. O parlamentar foi coordenador da campanha vitoriosa de Lula no segundo turno, e agora pode substituir o senador Rui Costa (PT-BA) na principal pasta do governo.
No Ministério da Fazenda, Lula pode indicar o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), principal arquiteto da virada do segundo turno, substituindo Dario Durigan. Matemático de formação, o Fonteles teria que renunciar ao cargo no Executivo do seu estado, mas estaria aberto caso houvesse a convocação do presidente.
O nome de Fonteles, contudo, não é bem visto no mercado. A indicação é vista pelo setor financeiro como uma sinalização de que os ajustes fiscais necessários no governo podem não ocorrer, ou serem limitados. Desde que Lula ganhou o segundo turno, o Ibovespa despencou 17%, a 169,1 mil pontos, enquanto o dólar subiu de R$ 4,98 para R$ 5,38.
Segurança pública no foco
A segurança pública deve ser um dos focos de atenção do próximo governo, dado a força como o tema foi explorado pela campanha da oposição e a dificuldade histórica do PT em abordar o tema. Para o Ministério da Justiça, um dos cotados é o ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), derrotado na disputa pelo governo de São Paulo ainda no primeiro turno.
Nesse caso, o nome é avaliado pelo trabalho realizado enquanto ministro da Fazenda e a atuação da Receita Federal em uma série de atividades de combate ao crime organizado. Haddad também é cotado para a Casa Civil, com menos força que Camilo Santana, e para retornar ao Ministério da Educação, pasta que liderou no primeiro governo Lula.
O governo também deve criar o Ministério da Segurança Pública, desmembrando a atividade da pasta da Justiça. O cotado é o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo (MP-SP). Gakiya é um dos principais nomes no combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Lula ainda busca uma mulher civil para assumir o Ministério da Defesa, que seria a primeira a comandar as Forças Armadas na história. Atualmente, a pasta é chefiada por José Múcio, que pediu ao presidente para deixar o cargo em um novo mandato. A favorita para o posto é a atual secretária-geral Cinara Wagner Fredo. Também são citados os nomes da presidente do Superior Tribunal Militar, Maria Elizabeth Rocha, e da ex-ministra do Planejamento, Simone Tebet (PSB).
Novo chanceler
O ministério das Relações Exteriores, chefiado pelo chanceler Mauro Vieira, pode ser comandado pelo embaixador Maurício Lyrio, de 59 anos. O diplomata é considerado próximo do assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, um dos nomes mais próximos de Lula.
Veja os primeiros nomes cotados
- Casa Civil - Camilo Santana, Fernando Haddad
- Fazenda - Rafael Fonteles
- Justiça - Fernando Haddad, Camilo Santana
- Segurança Pública - Lincoln Gakiya
- Defesa - Cinara Wagner, Maria Elizabeth Rocha e Simone Tebet
- Relações Exteriores - Maurício Lyrio
Jornalista formado pela UFMG, Bruno Nogueira é repórter de Política, Economia e Negócios na Itatiaia. Antes, teve passagem pelas editorias de Política e Cidades do Estado de Minas, com contribuições para o caderno de literatura.
João Pedro Melo é jornalista, formado pelo UniCEUB. Tem mais de dez anos de experiência na cobertura de Congresso Nacional, Palácio do Planalto e Supremo Tribunal Federal. Teve passagens pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação como repórter de política na TV e no rádio.




