Dívida e Propag: veja o que propõem os principais candidatos ao governo de Minas
Renegociar o acordo com a União, cumpri-lo como está ou focar nos sonegadores? Tema que abriu o primeiro debate divide os principais candidatos ao Governo de MG. Veja o que dizem os planos registrados no TSE

Com as candidaturas ao governo de Minas Gerais definidas, os eleitores já podem consultar os planos de governo depositados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A dívida do estado com a União é o assunto que mais separa os documentos. Todos reconhecem o problema, mas divergem sobre o tamanho dele, sobre o que fazer com o acordo de renegociação assinado com o governo federal e sobre de onde deve vir o dinheiro para equilibrar as contas.
A Itatiaia analisou os documentos oficiais de campanha e separou as principais ideias sobre dívida e finanças públicas contidas nos planos de governo dos candidatos ao Palácio Tiradentes.
O levantamento tem como base os documentos oficiais registrados pelas campanhas e disponibilizados na plataforma DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Abaixo, você confere as ideias contidas nos planos de governo das seis principais candidaturas, em ordem alfabética.
Entenda o Propag
O Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados é o acordo pelo qual estados endividados renegociaram o que devem à União.
Minas aderiu à modalidade em que não paga juros reais, apenas a correção pela inflação medida pelo IPCA, e em troca assumiu duas obrigações: entregar patrimônio ao governo federal para abater parte do saldo devedor e destinar todo ano um percentual da dívida a um fundo dividido com outros estados e a áreas específicas definidas em lei, como educação técnica e saneamento.
É esse desenho que os planos discutem: se o acordo deve ser mantido, renegociado ou pago com a venda de estatais.
Alexandre Kalil (PDT)
O plano de Alexandre Kalil afirma que a dívida continuará sendo o principal desafio das finanças mineiras e responsabiliza o governo Zema pelo crescimento do estoque.
Segundo o documento, a dívida consolidada passou de cerca de R$ 114 bilhões no fim de 2018 para mais de R$ 213 bilhões no fim de 2025, e a dívida líquida está em torno de R$ 178 bilhões.
- Propag é ponto de partida, não solução: o documento afirma que o programa apenas alongou uma dívida que considera impagável, e que a partir de 2027 o estado atuaria junto à União e ao Congresso para aperfeiçoar a execução do acordo.
- Crítica à condução política: o plano sustenta que faltou liderança contínua na negociação e que o confronto retórico com o governo federal e com o Supremo ocupou espaço que deveria ser dedicado a uma frente permanente em defesa dos interesses do estado.
- Patrimônio não é solução de curto prazo: o documento estabelece que bens públicos não serão usados para resolver a conta imediata sem avaliação dos efeitos de longo prazo. Quando houver serviço público envolvido, seriam analisados também impacto na tarifa, necessidade de investimento e metas de universalização.
- Gastar melhor em vez de cortar linearmente: revisão do gasto que identifique despesas sem resultado, em vez de cortes iguais para todas as áreas.
- Carteira permanente de investimentos: projetos de infraestrutura, saúde, educação e saneamento prontos antes de o dinheiro aparecer, para o estado não perder financiamento por ainda estar fazendo estudo quando a fonte é liberada.
- Cobrar de quem sonega, sem aumentar imposto: fiscalização com tecnologia e análise de dados concentrada em situações de maior risco, e avaliação periódica dos incentivos fiscais.
Cleitinho Azevedo (Republicanos)
O plano de Cleitinho Azevedo trata a dívida dentro de um eixo mais amplo de gestão, com ênfase em cortar despesa administrativa antes de mexer em serviço.
- Renegociação com fundo de retorno: atuação junto ao governo federal para renegociar a dívida e criar um fundo que devolva recursos ao estado para investimento em logística e infraestrutura.
- Revisão das renúncias fiscais: avaliação de todos os incentivos concedidos pelo estado, mantendo apenas os que comprovarem geração continuada de emprego, investimento e arrecadação.
- IPVA progressivo: análise de alíquotas proporcionais ao valor de mercado do veículo, reduzindo ou isentando os carros populares.
- Corte começando pelo topo: redução de cargos comissionados sem função técnica e eliminação do que o plano chama de privilégios no topo da pirâmide governamental.
- Orçamento base zero: modelo em que cada despesa precisa ser justificada tecnicamente para continuar existindo, em vez de ser renovada automaticamente todo ano.
Flávio Roscoe (PL)
O plano de Flávio Roscoe apresenta o equilíbrio fiscal como pré-condição para todo o resto e sustenta que parte do problema não é falta de arrecadação, e sim imposto mal cobrado.
Cita dados atribuídos ao Tesouro Nacional e à Secretaria de Fazenda: déficit de caixa de R$ 11,3 bilhões em 2025, apontado como o pior do país, e dívida total de R$ 201,09 bilhões em dezembro de 2025.
- Cobrar a CFEM que não foi paga: força-tarefa permanente de fiscalização da compensação financeira pela exploração mineral, o royalty pago pelas mineradoras. O documento cita estudo do Sindifisco-MG segundo o qual o estado pode ter deixado de arrecadar até R$ 22,65 bilhões entre 2019 e 2025, dos quais R$ 6,25 bilhões já estão reconhecidos em dívida ativa e ainda não foram cobrados.
- Caixa publicado todo mês: divulgação mensal da posição de caixa do Tesouro estadual separada do resultado orçamentário. Segundo o plano, Minas fechou 2025 com superávit no papel e déficit no caixa, e o eleitor não tem como enxergar essa diferença hoje.
- Comitê fiscal independente: grupo com participação de universidades mineiras e do Tribunal de Contas para auditar a execução do orçamento a cada três meses e publicar parecer em linguagem acessível.
- Despesa de pessoal de volta ao limite prudencial: o documento propõe reduzir o gasto com servidores de 48,22% para 46,55% da receita corrente líquida, patamar a partir do qual a Lei de Responsabilidade Fiscal impõe restrições.
Gabriel Azevedo (MDB)
A tese central do plano de Gabriel Azevedo é que a despesa primária precisa crescer menos que a receita, e que a saída não é aumentar a carga tributária.
- O prêmio é o juro zero, não a entrega de ativos: segundo o anexo, o que transforma uma dívida que explode em uma que encolhe é a eliminação dos juros reais. O abatimento de 20% mediante entrega de patrimônio traria ganho menor e, dependendo da taxa que a União usar para calcular o valor dos bens, poderia destruir entre R$ 15 bilhões e R$ 19 bilhões.
- Alerta sobre a Cemig: o documento classifica a estatal como o ativo mais incerto de toda a oferta ao governo federal, porque a federalização depende de transformar a empresa em companhia sem controlador único, de superar a exigência constitucional mineira de referendo popular para privatizar estatais e do aval final da Assembleia.
- Painel anual de benefícios fiscais: divulgação, em linguagem clara, de cada incentivo concedido, com custo estimado, objetivo, contrapartida e prazo de validade, para permitir revisar os que não entregam retorno.
- Comissão independente de avaliação: autarquia com direção colegiada de cinco integrantes, mandatos escalonados e sabatina na Assembleia, encarregada de avaliar se as políticas públicas produzem o resultado prometido. O governo não seria obrigado a acatar as conclusões, mas teria de publicá-las, responder a elas e demonstrar como foram usadas no orçamento.
- Aprender com Espírito Santo e Alagoas: o plano cita os dois estados como casos em que a estabilização do crescimento dos gastos e a avaliação das políticas reverteram crises fiscais.
Mateus Simões (PSD)
O plano de Mateus Simões, atual governador e candidato à reeleição, afirma que o estado recebeu de gestões anteriores uma das maiores dívidas estaduais do país e que a recuperação do equilíbrio fiscal nos últimos anos alterou de forma substantiva essa condição.
- Equilíbrio fiscal como condição de tudo: o documento define a preservação do equilíbrio das contas como requisito para qualquer política pública.
- Solução no âmbito federativo: o plano registra que o equacionamento definitivo do endividamento permanece como agenda central e depende de instrumentos negociados entre estados e União, sem detalhar mudanças no Propag.
- Reforma tributária como oportunidade: condução da transição para o novo sistema de impostos com foco em simplicidade, justiça fiscal, competitividade e transparência sobre os benefícios concedidos.
- Inteligência artificial na máquina: uso de tecnologia na gestão para ganhar eficiência em compras, arrecadação e atendimento, preservando canais presenciais para quem precisar.
Patrus Ananias (PT)
O plano de Patrus Ananias descreve uma crise fiscal estrutural de quatro décadas e usa os mesmos marcos do plano de Kalil: dívida de R$ 113,8 bilhões no início do governo Zema e R$ 213,5 bilhões ao final.
Registra saldo devedor de R$ 182,1 bilhões no fim de 2025 e afirma que a adesão ao Propag aumenta a pressão sobre as contas nos primeiros anos.
- Dobrar o prazo de transição do Propag: ampliação de cinco para dez anos do período até o estado passar a pagar integralmente os encargos, para reduzir a pressão imediata sobre o caixa.
- Condições especiais para Minas: negociação de redução mais significativa do estoque da dívida e ampliação dos prazos, compatibilizando o pagamento com a capacidade de arrecadação.
- Tributar a exportação mineral: entre as formas de ampliar a receita, o plano cita expressamente a busca de novas fontes, inclusive mecanismos de tributação sobre a exploração e a exportação das riquezas minerais do estado.
- Manter as estatais: preservação da Cemig, da Codemig e da Codemge sob controle do estado e revisão da privatização da Copasa.
- Concurso no lugar de contrato temporário: retomada dos concursos públicos, com substituição gradual de temporários por efetivos, o que segundo o plano também fortalece a arrecadação da previdência estadual.
Convergências e diferenças entre os planos
- Quanto Minas deve: os planos citam números diferentes porque medem coisas diferentes. Kalil e Patrus falam em R$ 213 bilhões de dívida consolidada ao fim de 2025. Roscoe cita R$ 201,09 bilhões de dívida total em dezembro de 2025. Gabriel Azevedo trabalha com R$ 179,3 bilhões, que é o valor reconhecido especificamente no contrato do Propag com a União. Patrus registra ainda saldo devedor de R$ 182,1 bilhões.
- O que fazer com o Propag: quatro dos seis planos propõem mexer no acordo. Kalil quer tratá-lo como ponto de partida e renegociar sua execução. Patrus propõe dobrar de cinco para dez anos o prazo de transição. Cleitinho fala em renegociar e criar um fundo de retorno de recursos. Roscoe afirma que o programa melhora o perfil da dívida mas não resolve as causas do desequilíbrio. Simões defende o equilíbrio alcançado e remete a solução definitiva a instrumentos federativos, sem propor alteração no acordo.
- Entregar patrimônio ou não: Kalil estabelece que bens públicos não serão usados como solução fiscal de curto prazo. Patrus quer preservar Cemig, Codemig e Codemge e rever a privatização da Copasa. Gabriel Azevedo faz uma crítica de natureza técnica, ao sustentar que entregar ativos rende pouco perto do ganho obtido com o juro zero.
- Aumentar imposto: Gabriel Azevedo escreve que a saída não é aumentar a carga tributária, e Kalil propõe combater sonegação sem aumentar a carga sobre quem já paga. Patrus, em sentido oposto, propõe buscar novas fontes de receita, incluindo tributação sobre a exploração e a exportação de minérios.
- Rever benefícios fiscais: é a maior convergência do tema. Os seis planos propõem alguma forma de revisão dos incentivos concedidos pelo estado, com desenhos que vão do painel público anual de Gabriel Azevedo à manutenção apenas dos incentivos que comprovem gerar emprego, na proposta de Cleitinho.
- Fiscalização independente: Roscoe propõe um comitê fiscal com universidades e Tribunal de Contas para auditar o orçamento a cada trimestre. Gabriel Azevedo propõe uma comissão independente de avaliação de políticas públicas, com mandatos fixos e sabatina na Assembleia. São desenhos distintos com a mesma lógica: tirar do próprio governo a avaliação do que ele faz.
Como está a disputa
Pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto, a primeira do instituto para o governo mineiro em 2026, mostra o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) na liderança do cenário estimulado de primeiro turno, com 32% das intenções de voto.
Os ex-prefeitos de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT) e Patrus Ananias (PT) aparecem empatados na segunda colocação, ambos com 12%.
Em seguida vêm Flávio Roscoe (PL), Mateus Simões (PSD) e Gabriel Azevedo (MDB), com 4% cada. As demais candidaturas somam 2% ou menos. Brancos, nulos e nenhum reúnem 14%, e 13% dos entrevistados não souberam responder.
O levantamento ouviu 1.204 eleitores entre 18 e 20 de agosto, tem margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número MG-00446/2026. Foi contratado pelo próprio instituto e pela Globo.
Jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Atuou com produção de conteúdo editorial e cobertura de pautas voltadas a tecnologia, negócios e comportamento digital. Cobre as eleições de 2026 para a Itatiaia.



