Acordo de Trump sobre petróleo da Venezuela testa discursos de Lula e Flávio
Movimento dos EUA sobre reservas venezuelanas reforça disputa eleitoral brasileira sobre soberania, relação com Washington e impactos econômicos

O acordo anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para ampliar o controle americano sobre reservas de petróleo da Venezuela pode ter reflexos na eleição presidencial brasileira. O movimento ocorre em meio à disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre soberania nacional, relação com os Estados Unidos e posicionamento do Brasil diante de Washington.
Trump afirmou na sexta-feira (28) que os Estados Unidos terão controle majoritário sobre mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo venezuelano. O volume representa cerca de 21% das reservas do país, que possui as maiores reservas conhecidas de petróleo do mundo.
O anúncio ocorre meses depois de uma operação militar americana que retirou Nicolás Maduro do poder. Desde então, o governo de Trump passou a ampliar sua influência sobre a Venezuela e busca garantir maior acesso ao petróleo produzido pelo país.
Tema já está na disputa brasileira
A atuação dos Estados Unidos na América Latina já entrou no discurso eleitoral brasileiro.
Lula tem usado o tema da soberania para defender maior autonomia do Brasil e dos países latino-americanos diante das grandes potências. Flávio Bolsonaro, por outro lado, mantém proximidade política com Trump e defende uma relação mais estreita entre Brasil e Estados Unidos.
Para o cientista político Elias Tavares, o acordo sobre o petróleo pode reforçar as diferentes narrativas adotadas pelas duas campanhas.
“Lula, por exemplo, tende a ter mais espaço para trabalhar o discurso da soberania nacional, da autonomia da América Latina e de política externa brasileira que não seja automaticamente alinhada aos Estados Unidos”, afirmou.
Segundo ele, Flávio e setores mais próximos de Trump podem interpretar a atuação americana de outra maneira, associando-a a uma demonstração de força e pragmatismo econômico.
“Já a candidatura de Flávio Bolsonaro e setores mais identificados com o Donald Trump podem fazer a leitura oposta, apresentar o movimento americano como uma demonstração de força, pragmatismo econômico”, disse.
O episódio ocorre em um momento de tensão na relação entre Brasil e Estados Unidos, agravada pelo tarifaço imposto pelo governo Donald Trump sobre produtos brasileiros, que já movimentou o debate eleitoral.
Petróleo pode ter impacto econômico
Além da questão geopolítica, o acordo pode produzir efeitos sobre o mercado internacional de petróleo caso resulte em aumento significativo da produção venezuelana.
A Venezuela possui cerca de 303 bilhões de barris em reservas comprovadas, mas sua produção atual está muito abaixo do potencial do país. O aumento da oferta poderia pressionar os preços internacionais da commodity, embora os efeitos dependam da velocidade dos investimentos e da capacidade venezuelana de ampliar a produção.
Para Tavares, esse aspecto é importante para transformar um assunto de política externa em tema eleitoral.
“Política externa dificilmente decide uma eleição sozinha. Esse assunto ganha força eleitoral quando consegue chegar ao bolso”, afirmou.
Segundo o cientista político, uma eventual alteração nos preços internacionais do petróleo pode afetar combustíveis e outros setores da economia brasileira.
Soberania pode ganhar espaço na campanha
O episódio também pode alimentar o debate sobre qual deve ser a posição do Brasil diante do aumento da presença econômica e estratégica dos Estados Unidos na América do Sul.
Para Tavares, o país pode ser pressionado a definir uma posição diante da nova configuração regional.
De um lado, está a interpretação de que os Estados Unidos ampliam o controle sobre um recurso estratégico de um país latino-americano. De outro, a possibilidade de que a presença americana contribua para recuperar a economia venezuelana e ampliar a oferta de petróleo.
“O Brasil está exatamente no meio dessa discussão”, afirmou.
Maior economia da América Latina e um dos principais produtores de petróleo da região, o Brasil terá de lidar com os efeitos econômicos e geopolíticos de uma eventual reorganização do mercado venezuelano - tema que pode ganhar espaço na disputa presidencial de 2026.
Supervisor da Rádio Itatiaia em Brasília, atua na cobertura política dos Três Poderes. Mineiro formado pela PUC Minas, já teve passagens como repórter e apresentador por Rádio BandNews FM, Jornal Metro e O Tempo. Vencedor dos prêmios CDL de Jornalismo em 2021 e Amagis 2022 na categoria rádio



