'É cedo, mas se fraude for provada, decisões baseadas em perícia podem ser anuladas', diz procurador sobre falso frei
Chefe da força-tarefa do Caso Samarco ainda pontuou considerar imprópria escolha de Phillip Machado como perito

Após demandar que a Polícia Federal (PF) instaure um inquérito policial para investigar o perito judicial Phillip Neves Machado, suspeito de fraudar currículos e especializações e mentir sobre ser frei da Igreja Católica, o procurador da República Carlos Bruno Ferreira da Silva, chefe da força-tarefa do Caso Samarco, afirmou à Itatiaia que, se forem comprovadas as fraudes, decisões da Justiça Federal que tiveram como base relatórios de Machado podem ser anuladas - a investigação, no entanto, ainda é muito inicial.
"Se forem comprovadas as irregularidades na especialização e currículo do perito judicial, é possível que sejam anuladas as perícias efetuadas e até decisões que foram baseadas nos laudos e relatórios desse perito. Mas é tudo muito inicial ainda, precisamos comprovar de fato a fraude e, se comprovada, se os relatórios do perito de fato foram utilizados como base central em decisões. Então ainda é muito cedo para falar, inclusive porque um dos maiores males do processo do Rio Doce , entre tantos problemas, e a ausência de avanços das perícias, em especial judiciais, quase 8 anos após a tragédia”, afirmou à Itatiaia o procurador.
O procurador da República apontou, ainda, considerar imprópria a escolha de Phillip Machado como perito judicial, uma vez que ele chegou a atuar no Comitê Técnico da Fundação Renova entre 2018 e 2020. "De fato, sendo confirmada, considero imprópria a escolha como perito que tenha histórico de ter atuado por uma das partes. Seria impróprio inclusive se tivesse atuado por outra das partes, como pelo MP ou em assessorias de atingidos. A confiança na imparcialidade é essencial para o juízo e seus auxiliares”, diz.
Nesta terça-feira (6), Phillip Neves Machado assumiu ter mentido sobre tudo. Em gravação de voz enviada a pessoas que atuam junto aos atingidos pelo rompimento da barragem de Mariana, ele pede perdão e que, no tempo certo, irá "revelar toda a verdade".
"Caros amigos, quero com grande pesar assumir minhas culpas e pedir implorar o perdão de todos vocês. Menti muitas vezes. Poderei depois, aos que quiserem e me derem as oportunidade explicar passo a passo porque fiz isso. Penso que, por favor, não me façam mais nada de mal. Minha vida já está destruída. Eu quero recomeçar com a verdade. Por favor, me perdoem", diz Machado.
Em outro momento do áudio, Machado diz que ainda irá revelar toda a verdade sobre o caso, "desde o primeiro dia até hoje". "Eu estou organizando tudo para fazer a minha defesa naquilo que é possível e direi a todos vocês, em breve, toda a verdade, desde o primeiro dia até o dia de hoje. Não se assustem e acreditem, eu não sou um bandido", desabafou.
Além de mentir sobre possuir uma série de especializações, doutorados e mestrados em universidades europeias, Machado também inventou ser frei da Ordem Premonstratense, ramo do catolicismo fundado pelo santo holandês São Norberto. Tanto a Arquidiocese quanto os Premonstratenses que atuam em Minas negaram conhecer Phillip Machado.
Defesa
Nesta quarta-feira (7), a defesa de Phillip Neves Machado, representada pelo advogado Bernardo Simões Coelho, enviou nota afirmando que o perito judicial é qualificado e irá provar "toda a experiência apresentada em seus currículos" no "no momento oportuno". Veja a íntegra da nota:
"O senhor Philip Machado é um profissional extremamente competente, qualificado e renomado, que sempre executou os diversos trabalhos para os quais foi contratado, inclusive os que apresentou como referência, com zelo e grande capacidade técnica. Até o momento, desconhecemos qualquer procedimento instaurado contra o Senhor Philip Machado.
Ressaltamos que o Senhor Philip Machado possui toda a experiência apresentada em seus currículos, o que restará devidamente comprovado em momento oportuno. O Senhor Philip Machado se encontra à inteira disposição da justiça, e apresentará os esclarecimentos e provas necessárias caso seja intimado, ou simplesmente notificado, para tanto.
Por último, o Senhor Philip machado esclarece que irá colaborar com qualquer investigação, respeitando e acatando qualquer ordem judicial e requerimentos realizados".
Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. É colunista da Rádio Itatiaia. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.
