PF avança sobre Wagner e Lulinha e Planalto vê novo foco de desgaste
Avanço das apurações preocupa aliados de Lula, que veem risco de aumento da pressão da oposição

As investigações envolvendo o senador Jaques Wagner (PT-BA) e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, passaram a ser tratadas por integrantes do Palácio do Planalto como um novo foco de desgaste político para o governo federal. A avaliação é de que o avanço das apurações pode alimentar o discurso da oposição e criar dificuldades para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um momento de preparação para a campanha eleitoral.
Segundo interlocutores do governo, a preocupação não está apenas no andamento dos inquéritos, mas no potencial de repercussão pública dos casos. A leitura é de que adversários políticos devem explorar as investigações para reforçar críticas ao governo e ao PT durante a disputa eleitoral, o que não seria novidade.
Apesar do cenário, auxiliares do presidente afirmam que o governo manterá a estratégia de separar as investigações da agenda administrativa. A orientação é evitar manifestações que possam ser interpretadas como interferência nos trabalhos da Polícia Federal ou do Judiciário, enquanto o Planalto busca manter o foco em pautas econômicas e sociais consideradas prioritárias.
O fato é que nesta sexta-feira (31), a Polícia Federal detalhou, em relatórios encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF), a relação do senador Jaques Wagner (PT-BA) com ex-executivos do Banco Master. Os documentos apontam uma relação de proximidade pessoal e interlocução política entre o parlamentar e integrantes da instituição financeira, além de suspeitas de que ele tenha recebido vantagens indevidas em troca de atuação em temas de interesse do banco.
Segundo a investigação, Jaques Wagner mantinha uma relação de confiança com Augusto Ferreira Lima, conhecido como "Guga", ex-sócio do Banco Master. Para a PF, essa proximidade também facilitou o contato do senador com Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição, abrindo espaço para discussões sobre pautas legislativas e operações de interesse do banco.
Os investigadores afirmam haver indícios de que o senador recebeu vantagens econômicas de gestores do Banco Master. Entre os elementos citados está a negociação para a compra de um apartamento avaliado em R$ 2,5 milhões, que, segundo a PF, teria seguido um modelo semelhante ao identificado em outras apurações envolvendo supostos pagamentos de propina relacionados ao banco.
Os relatórios também descrevem como "longa e duradoura" a relação entre Jaques Wagner e Augusto Ferreira Lima. A PF reuniu mensagens que mostram encontros entre as famílias, viagens e demonstrações de proximidade. Em um dos episódios, o senador e a esposa passaram um fim de semana na chamada Ilha da Paixão, em um deslocamento realizado em uma aeronave ligada ao empresário.
Além disso, a corporação identificou 74 ligações entre Jaques Wagner e Augusto Ferreira Lima, realizadas entre novembro de 2023 e maio de 2025, totalizando cerca de cinco horas e meia de conversas. Também foi apreendida uma lista de distribuição de presentes de fim de ano, na qual o nome do senador aparece entre autoridades que receberiam vinhos de alto valor.
Antes da deflagração da operação, o ministro André Mendonça autorizou a PF a monitorar, por dez dias, a localização aproximada do celular do senador, além de acessar registros de chamadas, conexões e dados cadastrais. O magistrado, contudo, não autorizou interceptação telefônica nem acesso ao conteúdo das conversas.
Jaques Wagner foi alvo de busca e apreensão na nona fase da Operação Compliance Zero, realizada em junho. A defesa do senador nega qualquer irregularidade e sustenta que a relação com os investigados não caracteriza prática ilícita.
João Pedro Melo é jornalista, formado pelo UniCEUB. Tem mais de dez anos de experiência na cobertura de Congresso Nacional, Palácio do Planalto e Supremo Tribunal Federal. Teve passagens pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação como repórter de política na TV e no rádio.



