Com qual figura política atual Collor teria mais afinidade? 35 anos do confisco do Plano Collor
Itatiaia revisita perfil do ex-presidente, cita pontos considerados positivos do fracassado plano econômico tentado em 1990 e responde se algo semelhante poderia ser tentado hoje

Fernando Collor de Mello tinha 40 anos quando venceu as eleições de 1989. É o mais jovem a assumir o cargo na história republicana do Brasil e fazia questão de demonstrar essa juventude de diversas formas, inclusive praticando esportes diversos: andava de jet-ski no Lago Paranoá, fazia caminhadas intensas aos domingos de manhã, praticava karatê e até pilotou um caça da Força Aérea Brasileira.
O frescor jovial combinava bem com um desejo de renovação, após as velhas figuras fardadas presidirem o país durante décadas de ditadura. Mas Camargos adverte que "de 'novo' Collor tinha apenas a idade. Ele integrava a tradicional classe política, era de uma família empresarial e cheia de recursos e já tinha no seu currículo a prefeitura de Maceió, o cargo de deputado e de governador de Alagoas, seu estado natal".
O professor e cientista político Adriano Cerqueira aponta que a narrativa pública de Collor valorizava essa construção de uma 'nova figura' na política. "Nada do passado é aproveitável ou, se é, tem que passar por uma grande reforma. Então ele quis dizer que tudo começaria novamente no governo dele, e que os poderosos e a elite não teriam mais chance com ele".
Houve algo de bom no Plano Collor?
Apontamos aqui, ao longo desta série de reportagens, as consequências devastadoras para a vida das pessoas e para a economia brasileira por conta, principalmente, do confisco da poupança, da conta corrente e dos investimentos. Esse confisco é, sem dúvidas, a marca negativa pela qual Collor é lembrado.
Mas as 27 medidas anunciadas em 16 de março de 1990 não tinha apenas pontos negativos. O economista Paulo Cezar Feitosa, que esteve no Banco Central na década de 90, aponta medidas que considera positivas previstas no plano econômico. "Criar um imposto sobre grandes fortunas, que é uma questão que aqui no Brasil, dada a desigualdade que é vergonhosa, a gente precisa de ter. Pudemos passar a importar máquinas e equipamentos de última geração de tecnologia e, por exemplo, a indústria naquele momento, beneficiou-se enormemente disso", avalia.
O professor de finanças e pró-reitor acadêmico do Ibmec Eduardo Coutinho também avalia pontos positivos. "Mudança no regime cambial, trazendo um regime com taxas de câmbio livres, ele trouxe a discussão da necessidade de programas de qualidade na indústria, o Estado brasileiro muito emperrado, muito lento, que atrapalhava demais, inchado, a história dos tais marajás com super remuneração, então ele trouxe uma série de discussões importantes, embora muito disso tenha sido apagado por aquela política infeliz de confisco do dinheiro das pessoas", analisa.
O Plano Collor até conseguiu reduzir a inflação a um dígito num curto prazo, mas os preços voltaram a subir rapidamente e o índice retornou a dois dígitos. A ministra da Fazenda, Zélia Cardoso, acabou substituída e o apoio popular ao governo Collor diminuiu à medida em que surgiram também denúncias de corrupção. Collor enfrentou um processo de impeachment, renunciou e teve os direitos políticos caçados ao final de 1992.
Collor x Milei e Collor x Dilma
A pergunta agora é: com qual figura política de hoje Fernando Collor de Melo tem semelhança? Eu fiz essa provocação para os entrevistados nesta reportagem. O cientista político Adriano Cerqueira foi aos nossos vizinhos argentinos pra buscar a resposta. "A figura política hoje internacional, que eu vejo mais parecida com essa energia anti-establishment, anti-sistema que o Collor teve em 90, é o presidente da Argentina Javier Milei. Ele assumiu para reestruturar o Estado argentino, deixá-lo menor e menos gastador, que foi esse o ímpeto inicial do Collor", compara.
Confisco da poupança hoje é pouco provável
Especialistas ouvidos pela Itatiaia avaliam como pouco provável uma medida parecida nos tempos atuais. "Acho muito pouco provável, eu creio que o aparato institucional hoje impediria algo assim acontecer. Agora, nós estamos no Brasil, né, então às vezes nos leva a duvidar de que coisas bizarras voltem a acontecer", pondera o professor Eduardo Coutinho.
O cientista político Adriano Cerqueira duvida da 'coragem' da classe política atual. "Eu acho que nenhum político hoje no Brasil pensa em adotar uma medida que lembre algo semelhante a isso". Malco Camargos diz que tempos desesperados, com alta inflação, justificam medidas desesperadas - cenário de 1990, que não é o mesmo de 2025. "Hoje a gente não consegue pensar em, de repente, o governo pegar o seu dinheiro e falar 'agora você não tem mais acesso a ele'. Mas não podemos esquecer do impacto da inflação no dia a dia das pessoas e a inflação, àquela época, trazia pânico para os brasileiros", considera.
- Leia e ouça a primeira reportagem especial neste link.
- Leia e ouça a segunda reportagem especial neste link.
Mineiro de Urucânia, na Zona da Mata. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Ouro Preto (2024), mesma instituição onde diplomou-se jornalista (2013). Na Itatiaia desde 2016, faz reportagens diversas, com destaque para Política e Cidades.



