Caso Master: Vorcaro aposta em perícia para tentar anular provas
A partir de inconsistências supostamente encontradas na análise do celular de Daniel Vorcaro pela perícia contratada pelo ex-banqueiro, a defesa alega que não há 'acusação formal ou perspectiva de processo'

Uma perícia contratada pela defesa de Daniel Vorcaro identificou a criação e a modificação de centenas de arquivos no celular do ex-banqueiro após o aparelho ter sido apreendido pela Polícia Federal.
De acordo com o analista de Política Teo Cury, a defesa de Vorcaro quer entender o que aconteceu com o celular desde que ele foi apreendido pela Polícia Federal em novembro do ano passado. "É uma nova frente de estratégia, de ofensiva jurídica da defesa de Daniel Vorcaro", afirmou Cury durante o Live CNN desta sexta-feira (30).
Vorcaro está preso de maneira ininterrupta desde março deste ano. Anteriormente, ele havia sido detido em novembro, depois colocado em prisão domiciliar e, mais tarde, voltou a ser preso.
Ao longo do primeiro semestre, a defesa tentou, sem sucesso, fechar acordos de delação premiada. Foram três rejeições, sendo duas pela PF e uma pela PGR (Procuradoria-Geral da República).
De acordo com Cury, as autoridades avaliam que Vorcaro não tem como garantir as informações que oferecia, nem como apresentar provas ou assegurar o ressarcimento dos valores supostamente desviados no esquema.
"Ele apresentou uma série de coisas, mas a Polícia Federal falou: já consegui isso, ou já consegui sem a sua ajuda", explicou o analista. Diante do fracasso nas negociações de delação, a perícia sobre o celular passa a ser a principal aposta da defesa para tentar anular o processo.
O argumento é o de que a prisão não pode ser mantida diante de dúvidas sobre a integridade da perícia do aparelho, que é considerado "a prova central da Operação Compliance Zero".
A tese é a de que, se confirmadas as alterações indevidas no dispositivo, a veracidade das informações que embasam grande parte da investigação ficaria comprometida, podendo levar à anulação do caso.
O que a perícia e a defesa contesta?
No documento que leva à contestação da principal prova dos inquéritos contra Vorcaro, a perícia indica uma série de inconsistências entre o que foi apresentado oficialmente pela PF e o que foi analisado no celular do ex-banqueiro. Na análise, levantou-se o argumento que, com o aparelho já sob custódia policial e em modo avião, há registros de manuseios que não foram descritos no relatório oficial.
Por exemplo, alega-se que foi registrado 207 eventos de tela, 33 ativações da câmera frontal pelo componente de reconhecimento facial e três conexões pela porta USB no relatório policial. Mas a perícia indica que pode ter havido modificação no banco de dados do WhatsApp depois da última conexão, assim como criação ou alteração de senhas. De acordo com a defesa, nenhuma dessas informações estavam no termo de apreensão.
"O aparelho registrou atividade durante a madrugada, enquanto estava nas mãos do Estado, e não há um documento sequer que diga quem o manuseou, por que e com que resultado", escrevem em um trecho do documento.
A identificação das possíveis falhas na chamada cadeia de custódia do dispositivo, que dizem respeito ao intervalo no qual o dispositivo esteve em posse das autoridades. levaram a defesa a pedir que os dados brutos originais da extração sejam preservados no mesmo instante, com os registros técnicos da coleta, os valores de hash e a documentação completa da cadeia de custódia sejam entregues aos advogados.
Pediram, ainda, o auto circunstanciado de busca, a versão da ferramenta e o método de desbloqueio, as fichas de acompanhamento de vestígio, os registros fotográficos dos lacres e o registro de posse e manuseio do aparelho entre a abordagem e a perícia.
A perícia, no entanto, não indicou quem realizou as alterações e tampouco conclui que tenha havido uma adulteração deliberada. Ainda assim, a defesa argumenta que, com todos os achados da perícia, não há contra Daniel Vorcaro "qualquer acusação formal ou perspectiva de processo".
Arquivos adulterados
No laudo da perícia, é descrito que o maior volume de modificações teria ocorrido no dia 18 de novembro, horas após a prisão de Vorcaro. Nessa data, 657 arquivos teriam sido modificados, sendo 59 deles bancos de dados.
Além disso, outros 436 arquivos teriam sido criados no mesmo dia, entre eles 222 de preferências do sistema, 94 imagens no padrão iPhone e 5 bancos de dados. O sistema do próprio aparelho registra ainda três conexões via cabo USB nessa mesma data.
O laudo aponta ainda outras duas datas relevantes: 23 de novembro e os dias 13 e 14 de maio, quando 340 arquivos teriam sido alterados.
No total, durante todo o período em que o aparelho esteve sob custódia da Polícia Federal, a perícia contabilizou alterações ou criações de 999 arquivos, incluindo o principal banco de dados do WhatsApp, que registra histórico de conversas, chamadas, grupos e informações sobre mídias. Essa alteração no banco de dados do aplicativo também teria ocorrido no dia 18 de novembro.
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Conteúdos produzidos pela redação de Brasília da Rádio Itatiaia




