Câmara aprova texto-base de projeto que reonera folha de pagamentos, mas votação final fica para quinta
O projeto cria um regime de transição com duração de três anos que durará até 2027

A Câmara dos Deputados aprovou no final da noite de quarta-feira (11) o texto-base do projeto de lei que que trata da compensação, aos cofres federais, com desoneração da folha de pagamentos para empresas de 17 setores da economia e dos municípios com até 156 mil habitantes. O texto prevê que a reoneração da folha será retomada em 2025.
Foram 253 votos a favor, 67 contrários e quatro abstenções.
O projeto foi votado no último dia do prazo dado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para que o Congresso e o governo resolvessem o impasse em torno do tema. Caso contrário, as empresas teriam que pagar a contribuição no próximo dia 20, por conta de uma decisão liminar (provisória) do ministro Cristiano Zanin, do STF, que suspendeu trechos da lei que prorrogava o benefício integralmente até 2027.
A sessão, conduzida pelo deputado Gilberto Nascimento (PSD-SP), adentrou a madrugada desta quinta-feira (12), mas a votação não foi concluída. Por causa disso, a Advocacia-Geral da União (AGU) pediu ao Supremo que prorrogasse o prazo por mais três dias para que o Congresso termine a análise do projeto.
A oposição fez críticas à proposta e obstruiu intensamente os trabalhos. Os deputados acusaram o Supremo de interferir em prerrogativas do Congresso, como a relatora inicial do projeto, Any Ortiz (Cidadania-RS), que declinou da função de última hora.
"Nós vamos votar favorável, nós vamos garantir a desoneração da folha em 2024, mas é lamentável o que o STF está fazendo, com o apoio do governo, nesse país. Muito se fala sobre a interferência do Poder Judiciário aqui no Poder Legislativo e o que a gente está vendo hoje é um grande exemplo disso", declarou a deputada.
A relatoria então foi assumida pelo líder do Governo na Casa, José Guimarães (PT-CE), que rejeitou todas as emendas apresentadas pelos deputados ao texto para evitar que o projeto precisasse retornar ao Senado.
Falta de quórum trava conclusão de votação
A proposta só foi alterada por meio de uma emenda de redação, que tem o objetivo de deixar o texto mais claro, por causa de uma orientação do Banco Central (BC).
A autoridade monetária argumentou, em nota técnica, que o artigo do projeto que permite ao Tesouro Nacional se apropriar do "dinheiro esquecido" em contas bancárias, como uma das medidas de compensação da desoneração, poderia causar insegurança jurídica.
A proposta estabelecia que esses recursos fossem considerados como receita para os cálculos de resultado primário do governo, ou seja, a diferença entre o que é arrecadado e o que é gasto. Essa função cabe ao Banco Central.
Na nota técnica, o BC afirma que, da forma como estava, o texto poderia dar a entender que a autarquia deveria promover registros de superávit primário.
Por causa da orientação, o relator retirou do texto o trecho que determinava a entrada dos valores de "dinheiro esquecido" no cálculo de resultado primário.
Essa emenda de redação, no entanto, só poderia ser votada depois que o texto-base fosse aprovado.
O que é a desoneração e o que diz o projeto?
Desonerar significa aliviar, reduzir ou cortar uma carga ou obrigação. Nesse caso, governo e Congresso analisam a desoneração relativa a impostos e encargos financeiros. Ao desonerar a folha de pagamento, empresas podem economizar gastos, o que, em um plano ideal, pode resultar em mais contratações.
Instituída em 2011, a medida permite que as empresas beneficiadas paguem a contribuição social sobre a receita bruta, com alíquotas de 1% a 4,5%, em vez de pagar 20% de INSS sobre a folha de salários.
Depois de uma queda de braço que se estendeu por meses, o governo e o Congresso chegaram a um acordo para estabelecer uma reoneração gradual.
O projeto cria um regime de transição com duração de três anos. O projeto mantém a desoneração integral para as empresas em 2024 e estabelece a retomada gradual da tributação a partir de 2025 – com alíquota de 5% sobre a folha de pagamento. Em 2026 serão cobrados 10% e, em 2027, 20%, quando ocorrerá o fim da desoneração.
A retomada da contribuição previdenciária para os municípios com até 156 mil habitantes também ocorrerá de forma gradual. Até o fim de 2024, será de 8% e aumentará para 12% no ano que vem. O percentual chega aos 16% em 2026 e sobe para 20% em 2027, quando termina a transição.
O projeto também traz uma série de medidas compensatórias para bancar as isenções durante o período que vigorarem, como a atualização do valor de imóveis com imposto menor de ganho de capital, uso de depósitos judiciais e repatriação de valores levados ao exterior sem declaração.
Repórter de política em Brasília. Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), chegou na capital federal em 2021. Antes, foi editor-assistente no Poder360 e jornalista freelancer com passagem pela Agência Pública, portal UOL e o site Congresso em Foco.



