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As consequências do ato de Bolsonaro na Paulista

Em discurso calculado e evento com ares de comício, Bolsonaro faz menção à perseguição, falou que “poder” não pode tirar postualntes do palco e admitiu a existência do documento que ficou conhecido como “minuta do golpe”

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As consequências do ato de Bolsonaro na Paulista • Reprodução/Redes Sociais

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) conseguiu o que queria, lotou a Avenida Paulista com milhares de apoiadores, incluindo políticos. A missão era mostrar às forças de investigação que, mesmo sem mandato, existe capital político e poder de mobilização. O movimento do presidente foi uma espécie de recado para algo que o judicírio já considera. Caso haja provas em algum processo, a prisão de Bolsonaro poderia transformá-lo em uma espécie de "mártir". Por isso, além do processo legal as investigações observam o timing, que tem a ver com a repercussão dos fatos. E o que Bolsonaro mostrou foi que uma prisão, neste momento, poderia convulsionar seus apoiadores.

Instagramável

As fotos e imagens aéreas produzidas na Paulista lotada serão material de base para resposta a qualquer movimento contrário ao presidente e também para comprovar que ele ainda tem força política. O evento "instagramável" dá visibilidade e um novo fôlego ao ex-presidente que, claramente, estava em êxtase na manifestação. A esquerda, incluindo militantes e políticos, tentou reagir às imagens do último domingo (25) postando um vídeo da Paulista lotada com a vitória de Lula em 2022, com o objetivo de transmitir o seguinte recado: "vocês querem demonstrar apoio, mas quem teve voto pra ganhar a eleição foi o Lula".

Eleições

O evento também deu largada ao envolvimento de Bolsonaro nas campanhas municipais e na preparação para 2026. Vários candidatos a prefeito e a vereador compareceram e fizeram fotos e vídeos que serão explorados até as eleições.

A presença de possíveis candidatos à presidência, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), aponta uma intenção de, pelo menos nesse momento, manter uma unificação. O próprio partido Novo fez um post dizendo que o evento revela uma "direita unida". Bolsonaro citou todos os potenciais candidatos do grupo, caso ele esteja inelegível. Além de Tarcísio, que foi o mais exaltado, ele mencionou a ex-ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e tocou ainda nos nomes de outros integrantes do antigo primeiro escalão como Paulo Guedes (Economia) e Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia).

Zema

O movimento de aproximação de Zema o protege de ser atacado por Bolsonaro que é o principal líder da direita brasileira. Mesmo que não haja um alinhamento completo de posturas entre os dois, o cálculo envolve pensar "melhor com ele que contra ele". A reflexão do mineiro e de seu grupo explica a demora em confirmar presença, o uso de uma camisa branca, e o fato de ele ter "entrado mudo e saído calado" do protesto.

Michele

A ex-primeira dama, Michele Bolsonaro, candidata (no mínimo) ao Senado, permanece tendo lugar de destaque em todos os eventos, cumprindo a missão de se aproximar e cativar o eleitorado feminino e religioso. Aliás, esse é um dos desafios do ex-presidente Lula, a conquista do apoio evangélico.

Comício?

Apesar dos ares de campanha, como Bolsonaro não fez pedido explícito de votos e nem usou as chamadas as "palavras mágicas", como "apoiem" e "elejam", o ato não configura propaganda eleitoral antecipada, segundo o advogado e professor de direito eleitoral, Arthur Guerra.

Tiro pela culatra

O fato de ter admitido a existência do documento que foi apelidado de "Minuta do Golpe" e que deu origem a investigações contra ele, aliados e até prisões, pode complicar Bolsonaro. No ato, o presidente disse: “Agora, o golpe é porque tem uma minuta de um decreto de Estado de Defesa. Golpe usando a Constituição? Tenham santa paciência. Golpe usando a Constituição”. Segundo a colunista do jornal "O Globo", Malu Gaspar, a fala do ex-presidente deve ser incluida como evidência de trama de golpe nas investigações.

O inimigo

O colete a prova de balas, além de um equipamento de proteção, já que Bolsonaro sofreu um atentado a facada em 2018 em Minas, tem também um recado simbólico. Quando o colete fica claramente visível na camisa do Brasil ele diz: "eu tenho inimigos e corro risco de morte por isso". Ressaltar que existe um adversário perigoso a ser combatido é um dos pilares que sustenta a polarização.

Pra quem sabe ler, um pingo é letra

Embora não tenha citado nominalmente o Supremo Tribunal Federal, o ex-presidente disse que sempre sofreu perseguição e que a empreitada aumentou depois que ele saiu da presidência. Bolsonaro também criticou as penas contra os presos do 8 de janeiro e, inelégivel, disse ainda que "um poder" não pode retirar quem quer que seja do "palco" da política, a menos que haja motivos para isso.

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Edilene Lopes é jornalista, repórter e colunista na Itatiaia e analista de política na CNN Brasil. Na rádio, idealizou e conduziu o Podcast 'Abrindo o Jogo', que entrevistou os principais nomes da política brasileira. Está entre os jornalistas que mais fizeram entrevistas exclusivas com presidentes da República nos últimos 10 anos, incluindo repetidas vezes Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro. Mestre em ciência política pela UFMG, e diplomada em jornalismo digital pelo Centro Tecnológico de Monterrey (México), está na Itatiaia desde 2006, onde também foi também apresentadora. Como repórter, registra no currículo grandes coberturas nacionais e internacionais, incluindo eventos de política, economia e territórios de guerra. Premiada, em 2016 foi eleita, pelo Troféu Mulher Imprensa, a melhor repórter de rádio do Brasil. Em 2025, venceu o Prêmio Jornalistas Negros +Admirados na categoria Rádio e Texto.

 

 

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