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A tempestade perfeita que derrubou o candidato de Zema na Assembleia

Os bastidores da campanha de Roberto Andrade à presidência do Legislativo

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Andrade tem boa relação com boa parte da Assembleia, é considerado um parlamentar querido, e a proximidade ainda maior com o secretário de Estado de Governo, Igor Eto
Andrade tem boa relação com boa parte da Assembleia, é considerado um parlamentar querido, e a proximidade ainda maior com o secretário de Estado de Governo, Igor Eto • Divulgação

De briga familiar à fala polêmica do governador Romeu Zema (Novo), vários elementos contribuíram para a derrubada da candidatura do deputado estadual Roberto Andrade (Patriota) à presidência da Assembleia Legislativa, sentenciada na tarde deste domingo (22). Líder do governo na Casa, Andrade desistiu de se candidatar e, agora, apoia uma construção liderada pelo ministro Alexandre Silveira, presidente do PSD em Minas, para lançar Duarte Bechir (PSD) e competir contra a candidatura de Tadeu Martins Leite (MDB).

O nome de Roberto Andrade para ser o candidato do governo Zema à presidência do Legislativo surgiu ainda durante a campanha de 2022. Andrade tem boa relação com boa parte da Assembleia, é considerado um parlamentar querido, e a proximidade ainda maior com o secretário de Estado de Governo, Igor Eto, alinhavou a candidatura.

A relação próxima com Eto, no entanto, passou a ser vista com reservas por parte da ALMG - deputados que fazem parte do grupão ligado ao atual presidente da Casa, Agostinho Patrus (PSD), passaram a considerar que não seria positivo ter um deputado "grudado" ao secretário de Governo liderando a pauta do Legislativo. A partir daí, o grupo acertou o lançamento de Tadeuzinho, também querido pela maioria da Casa e, mesmo compondo o grupão de parlamentares, com boa relação com o Executivo.

Os dois grupos articulavam pesada até a segunda-feira passada, quando tudo começou a dar errado para Andrade. O deputado do Patriota vinha, há dias, construindo interlocução com o ministro Alexandre Silveira e com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD), para buscar apoio e retirar votos de Tadeuzinho. As conversas vinham sendo positivas, contando com a interlocução de nomes de fora da política partidária, como os advogados Sérgio Santos Rodriges e Fred Pires - o segundo tem relação profissional com Andrade e Pacheco e vinha construindo a aproximação.

Só que a coisa desandou após fala do governador Zema, em entrevista à rádio "Gaúcha": segundo o governador, o governo federal também teria responsabilidade ao possivelmente ter se omitido em combater os invasores. A fala irritou o ministro Alexandre Silveira, cobrado internamente no governo Lula (PT) após ter sinalizado que possuía bom trânsito com Zema. Silveira rebateu o governador pelas redes e praticamente finalizou as conversas para apoiar Andrade.

Em outro momento, a proximidade do deputado federal Marcelo Aro (PP) com Zema e parte do alto escalão do governo também gerou resistência em lideranças da Assembleia. A atuação de Aro na eleição da Câmara de Belo Horizonte saiu vitoriosa, mas assustou parlamentares do Legislativo estadual - até nomes que gostam do deputado ficaram preocupados com uma articulação semelhante, rígida, na disputa da Casa. Isso propiciou a alguns uma maior simpatia à candidatura de Tadeu - e dificultou a articulação inclusive do pai de Aro, o deputado estadual Zé Guilherme (PP), a conversar por espaço nas chapas.

O segundo golpe na candidatura de Andrade aconteceu poucos dias depois, com o apoio de boa parte da bancada do PL na Assembleia declarando apoio a Tadeu Martins Leite. A debandada dos bolsonaristas para apoiar o emedebista nasce com uma desavença de dezembro.

Antes considerado um dos deputados mais próximos do governo, Gustavo Santana (PL) rompeu - e rompeu feio - com o governo Zema após uma discussão envolvendo Sérgio Rodrigues. Há um contexto familiar: o irmão de Santana, o advogado Bernardo Santana, é muito próximo ao irmão de Rodrigues, o também advogado Guilherme Rodrigues. Guilherme e Sérgio não têm boa relação, e após um desacerto na articulação, a coisa desandou a níveis pessoais entre Gustavo Santana e interlocutores do governo.

A propósito, a debandada de Gustavo Santana surpreendeu o governo - durante a eleição de 2022, Igor Eto e Zema participaram de uma série de agendas eleitorais do deputado, além de terem dado certo prioridade em emendas parlamentares a ele. A ruptura foi árdua e as alfinetadas mútuas irritaram também o pai de Gustavo, o ex-deputado e presidente do PL mineiro Zé Santana.

Foi Zé Santana o principal articulador para levar boa parte do PL para Tadeuzinho. A articulação contou com busca por espaço na chapa de Tadeu e conversas constantes com lideranças próximas aos deputados Caporezzo, novato, e Antonio Carlos Arantes. Entre os argumentos, o receio levado por Santana de que os recursos do diretório nacional do PL poderiam ser bloqueados a qualquerr momento por problemas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) - ou seja, os deputados precisariam mais do que nunca de prestígio para obter emendas individuais para agradar as bases, fato que Tadeuzinho poderia auxiliar.

Na quarta, duas reuniões do PL mineiro alinhavaram o apoio parcial do partido a Tadeuzinho. A ausência nas conversas foi do deputado Coronel Henrique, muito próximo de Roberto Andrade. Houve resistência: a novata Alê Portela, irmã do deputado Léo Portela e filha do deputado federal Lincoln Portela, buscou, com o pai, a internveção do cacique nacional do partido, Valdemar da Costa Neto, para segurar o partido com Zema. Outra resistência foi da deputada Delegada Sheila, que tenta construir, junto ao governo Zema, apoio do governador para o nome do deputado federal Charles Evangellista para ser candidato a prefeito de Juiz de Fora. Apesar dos apelos, Arantes, Bruno Engler, Caporezzo, Sargento Rodrigues e Coronel Sandro optaram por caminhar com Tadeu.

Mais do que perder votos antes considerado "certeiros", a ida do PL para Tadeu gerou um efeito midiático negativo para Andrade. Deputados apoiadores do candidato governista passaram a ficar preocupados - não queriam apoiar uma candidatura que estava sendo esvaziada. Até mesmo nomes muito ativos na base de Zema, como o líder do bloco, Raul Belém (Cidadania), viraram dúvida. Correligionários de Andrade, como Doorgal Andrada (Patriota), também declararam abertamente simpatia ao emedebista. Partidos liderados por aliados próximos do governo criavam resistências. O novato Adriano Alvarenga (PP), por exemplo, sinalizava maior simpatia a Tadeu.

Na sexta, para fechar a semana de tempestade perfeita, surge a crise na Polícia Militar. Buscando reverter a debandada de parte do PL, o secretário Igor Eto aproveita uma insatisfação interna na corporação com a indicação do coronel Marco Aurélio Zancanela à chefia do Estado Maior e, em conversa com o militar, busca reverter o voto do deputado Cristiano Caporezzo, que havia indicado Zancanela ao posto. O parlamentar explode o caso nas redes sociais e, no sábado, um áudio do coronel ajuda a ampliar a crise.

É neste contexto que o ministro Alexandre Silveira volta a crescer nas articulações. Com a candidatura de Andrade combalida com as diversas crises, Silveira propõe a aliados do governo que o PSD lidere uma nova candidatura apoiada por Zema. O nome definido foi o de Duarte Bechir. Durante o final de semana, Andrade concorda que uma mudança seria necessária. "Eu não tenho apego a poder nem sonho em ser presidente. Eu quero é que as pautas importantes do governador sejam apreciadas pela Casa, meu objetivo é esse, tanto faz ser presidente ou não", disse o deputado à coluna.

A nova articulação, apesar de rápida e, até aqui, eficaz, surpreendeu outras lideranças do PSD mineiro, que ainda resistiam em se aproximar dos nomes governistas. Há novas questões sobre a capacidade da candidatura de Duarte superar Tadeu mas, sem dúvidas, há um novo jogo sendo aberto a menos de 10 dias para a eleição, marcada para a próxima quarta-feira (1º).

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Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. É colunista da Rádio Itatiaia. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.