Roupa cirúrgica para cães: 5 erros comuns que podem causar infecção em pets operados
Sem manejo correto, o produto pode esconder uma infecção em estágio inicial que só será percebida quando o quadro já estiver grave, alertam especialistas

O período pós-operatório é uma das fases mais críticas para a recuperação de cães e gatos, e por isso exige muita atenção dos tutores. Embora a roupa cirúrgica tenha se tornado a alternativa mais comum ao tradicional colar elizabetano (o "cone"), o uso incorreto dessa roupinha pode fazer uma proteção virar um foco de contaminação.
A vigilância deve ser constante: "A roupa cirúrgica não é uma 'blindagem' autossuficiente. Se não houver manejo correto, ela pode esconder uma infecção em estágio inicial que só será percebida quando o quadro já estiver grave", diz Jorge Castro, médico-veterinário cirurgião e ex-presidente do Colégio Brasileiro de Cirurgia e Anestesiologia Veterinária (CBCAV),
A Itatiaia listou os cinco erros mais comuns que colocam em risco a saúde do pet:
1. Escolher tecidos que não respiram
Muitos tutores escolhem tecidos sintéticos ou de algodão muito grosso, mas a falta de ventilação proporcionada por eles pode impedir a cicatrização. Maria de Lourdes de Almeida, especialista em saúde pública e manejo sanitário, ressalta em notas técnicas que "o tecido deve permitir a troca térmica. Materiais que abafam a incisão criam um microclima de calor e umidade, o cenário ideal para a proliferação de bactérias e fungos". O ideal são malhas leves de algodão com elastano.
2. Falta de higiene e rodízio da peça
Manter a mesma roupa durante todos os 10 dias de recuperação é um erro gravíssimo, pois a peça acumula secreções e poeira. A recomendação dos manuais de Enfermagem Veterinária é que o tutor tenha pelo menos duas unidades da roupa.
"A higienização deve ser diária se houver qualquer sinal de secreção. Uma roupa suja em contato com uma ferida aberta é uma porta de entrada para microrganismos na corrente sanguínea", alertam especialistas do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV).
3. Comprar o tamanho incorreto
Uma roupa muito apertada causa fricção nos pontos e pode gerar inflamação. E se estiver larga, o cão lamberá a ferida por baixo do tecido. O Ronaldo Lucas, especialista em infectologia animal e professor da USP, explica que o ajuste deve ser perfeito para evitar o "ciclo de lambedura": "O animal tenta lamber a ferida porque o tecido mal ajustado causa incômodo, e a saliva carrega uma carga bacteriana que rompe a barreira da sutura".
4. Deixar a peça úmida
Se o cão se molhar ou a roupa ficar úmida após o animal deitar em superfícies frias, ela deve ser trocada imediatamente, pois a umidade “amolece” a pele e os tecidos da cicatriz. “O tecido úmido age como um condutor de bactérias do ambiente para o interior da pele, por isso a ferida cirúrgica deve estar sempre seca”, alerta Lucas.
5. Não inspecionar a ferida diariamente
O tutor deve abrir a peça pelo menos duas vezes ao dia para checar o local dos pontos. "É fundamental observar sinais como vermelhidão excessiva, pus ou odor forte. A roupa cirúrgica serve para evitar que o animal se automutile, mas a cura depende da observação visual direta e da limpeza da pele abaixo do tecido", conclui Rosangela Ribeiro, médica-veterinária e gerente de projetos de bem-estar animal.
Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.



