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Abrigos cheios e políticas frágeis mantém abandono de pets, diz estudo

Falta de estrutura pública e baixa taxa de adoção mantêm ciclo de abandono e sobrecarga de ONGs

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Dois cachorros de porte médio deitados na grama num dia de sol
Relatório mostra que há um desequilíbrio persistente entre o número de animais resgatados e aqueles que conseguem um novo lar • Freepik

O abandono de cães e gatos segue como um desafio no Brasil. Com abrigos frequentemente lotados e recursos limitados, o país ainda depende majoritariamente da atuação de organizações independentes e sociedade civil para lidar com a demanda.

É o que constatou o Relatório de Transparência dos Dados de Abrigos de Animais – Análise de 2025. Desenvolvido pela iniciativa Medicina de Abrigos Brasil – Infodados de Abrigos de Animais, ele compila, em escala nacional, dados contínuos sobre a dinâmica populacional de cães e gatos em abrigos e lares temporários.

E reacende o alerta: há um desequilíbrio persistente entre o número de animais resgatados e aqueles que conseguem um novo lar. Em 2025 foram registradas 4.349 entradas de animais, enquanto as saídas, que incluem adoções, mortes naturais e eutanásias, somaram 3.139.

“Pela primeira vez, começamos a enxergar padrões. O abandono deixa de ser um problema invisível e passa a ser um fenômeno que pode ser analisado, monitorado e enfrentado com base em evidências”, diz Lucas Galdioli, cofundador da iniciativa, à plataforma Cães e Gatos.

Abrigos são essenciais, mas insuficientes

Embora desempenhem papel central no acolhimento e reabilitação, os abrigos não conseguem, sozinhos, resolver o problema do abandono. A maioria opera no limite da capacidade, muitas vezes com poucos recursos e alta rotatividade de animais.

O estudo mostrou ainda que a proteção animal no Brasil é mobilizada majoritariamente pela sociedade civil. A maior parte dos 295 abrigos ativos cadastrados é de iniciativas privadas e protetores independentes.

“A cada semestre, centenas de animais a mais entram do que saem dos abrigos brasileiros. Isso revela um desequilíbrio estrutural que não pode ser resolvido apenas com adoção; ele exige políticas públicas de prevenção do abandono”, afirma Galdioli.

Segundo ele, a ausência de políticas públicas estruturadas é um dos principais fatores que sustentam o ciclo de abandono. Medidas como castração em massa, educação sobre guarda responsável e fiscalização ainda são insuficientes em grande parte dos municípios.

O enfrentamento do abandono de pets exige, ainda de acordo com o relatório Medicina de Abrigos Brasil, ações integradas que vão além do acolhimento emergencial, como:

“Sem essas medidas, o problema tende a se perpetuar, sobrecarregando abrigos e aumentando o número de animais nas ruas”, finaliza o cofundador da organização.

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Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.