A recuperação ambiental da bacia do Rio Doce, uma das regiões mais afetadas pelo maior desastre ambiental do país, pode avançar com o auxílio da vegetação nativa. Estudos desenvolvidos por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) indicam que espécies da Mata Atlântica conseguem se desenvolver em solos contaminados por rejeitos de mineração.
Em novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão despejou mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério no meio ambiente. A enxurrada de lama destruiu comunidades, atingiu cerca de 49 municípios, provocou a morte de 19 pessoas e comprometeu a qualidade da água e dos solos ao longo de toda a bacia do Rio Doce, com impactos que chegaram ao litoral do Espírito Santo.
A pesquisa foi realizada ao longo de cinco anos e envolveu a coleta de plantas e amostras de solo em municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo. O trabalho comparou áreas preservadas com trechos diretamente atingidos pela lama, permitindo avaliar as condições do solo e o comportamento das espécies em ambientes degradados.
De acordo com os pesquisadores, mesmo quase dez anos após o desastre, ainda são identificadas altas concentrações de metais como ferro e manganês, além da baixa presença de matéria orgânica, fatores que dificultam o crescimento da vegetação. Apesar disso, o levantamento identificou mais de 360 espécies com potencial para contribuir na recomposição das matas ciliares ao longo do Rio Doce.
Entre as plantas analisadas, a embaúba (Cecropia hololeuca) se destacou pelo crescimento acelerado e pela adaptação a áreas degradadas. A espécie é nativa do Brasil e é encontrada em diferentes regiões do país, especialmente na Mata Atlântica e na Amazônia.
Com reconhecida importância ecológica, a embaúba desempenha papel estratégico na restauração ambiental. Suas folhas e frutos atraem diversos polinizadores, favorecendo a dispersão de sementes e o retorno gradual da biodiversidade. Além disso, a copa da árvore contribui para o sombreamento do solo e cria condições para o desenvolvimento de outras espécies, o que a torna promissora nos processos de recuperação florestal da bacia do Rio Doce.
Desde o rompimento da barragem, a região enfrenta desafios ambientais, sociais e econômicos. As ações de reparação incluem iniciativas de reflorestamento, recuperação de nascentes e monitoramento da biodiversidade. Nesse contexto, as pesquisas desenvolvidas por universidades públicas são consideradas fundamentais para orientar as estratégias de recuperação, oferecendo soluções baseadas em evidências científicas.