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Padre Samuel Fidelis | Código de ética

A falta de ética, que começa na ausência de valores dentro de casa e se reflete em nossas relações, corrói as instituições e o Estado

Padre Samuel Fidelis

Somos lançados a este mundo nus. Todo bebê, ao nascer, tem de imediato sua pele exposta aos riscos do mundo. De imediato, já nas primeiras horas, todo nascituro é vestido. Em sentido análogo, ao longo de toda a vida, vamos assumindo (e temos necessidade!) de uma segunda pele. Meio bicho que somos, precisamos de algo que nos revista não só o corpo, mas a alma: valores, virtudes, costumes, ética!

Eis um conceito desidratado: ética! Essa dimensão da existência humana civilizada, a qual demarca o limiar entre nós e os animais, parece estar em desuso. Veja, não é que os “bichos” não sejam bons ou que não mereçam cuidado. Aliás, é oportuno dizer que maltratar animais é extremamente inaceitável! A questão é que o agir dos animais é pautado pelo instinto. O nosso, em sentido contrário, requer intenção, equilíbrio dos afetos, caráter simbólico.

Nunca foi fácil definir o que é ética! Isso desde Aristóteles. Para o filósofo grego, a ética é a ciência (ou arte) do viver bem. Na perspectiva de Aristóteles, a ação ética diz respeito a tudo o que nos torna melhores como seres humanos. Trata-se de um bem tão precioso que Aristóteles, autor de alguns dos livros mais relevantes para a história da humanidade, escolhe dedicar ao filho seu escrito sobre a ética. Na consciência de que o agir bem é o grande patrimônio que se pode deixar às futuras gerações, o filósofo escreve sua Ética a Nicômaco.

Nestes “tempos modernos”, trocamos a ética pela estética. É cada vez mais raro prestar atenção no “bem” para além daquilo que, para nós (e nosso bando!), parece o “bom”, o “conveniente”, o “útil”. Sobram aqui e acolá muitos discursos e papelões! No Brasil, fala-se de autorregulação, mas o que vemos é autoelogio. Experimentamos uma pobreza tributada. Apropria-se do Estado, o qual, ao invés de servir ao povo, passa a ser uma fábrica de benefícios. Em alternância, parte da “casta” cria direitos; os “amigos dos amigos” fazem deles “benefícios homologados”.

O objetivo de nossa coluna não é a estridência, mas a lucidez! O objetivo é até autocrítico. Nossas instituições estão em crise, não apenas por causa das big techs. Esse é só um dos sintomas. A causa tem raízes mais éticas e profundas. Estamos nós, em grande medida, corrompidos e seduzidos por valores mundanos.

Sim, o algoritmo protege e dá voz a cretinos. Todavia, a burocracia e o regimento também podem servir de escudo a práticas inaceitáveis. Há algo de espúrio e reprovável quando autoridades se tornam “homens” da cena. Não se indispõem, “fecham em bloco”. Faz tanto mal a corrupção passiva dos burocratas quanto a dos “homens práticos”.

A falta de ética, que começa na ausência de valores dentro de casa e se reflete em nossas relações, corrói as instituições e o Estado. Sobretudo, neste ano de eleições em nosso país, é preciso estar atento! Não há alternativa enquanto sobrarem conchavos e acordos cínicos. O TikTok torna evidentes as indignações seletivas das “castas” morais, festivas, chatas e sofisticadas.

Ignorar essa falta de ética só catalisa indignação, ressentimento, caos. Ignorar essa falta de ética não nos poupa do conflito; apenas o adia. Sem códigos de ética, o “tecido social” se rasga. Sobra uma carne viva, vulnerável, exposta; reativa por impulsos. Se falta tecido em dias muito “quentes” ou “frios”, a pele racha, o corpo treme, convulciona...

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

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