Desde os tempos antigos, o cristianismo insiste na dimensão da consciência. Alguns dizem que o “sujeito” é uma construção “moderna”. Antes, no mundo medieval e antigo, o coletivo sempre teve mais importância; não havia muito essa noção de “indivíduo”. É lúcido pensar, na verdade, que é em Jesus que se institui essa liberdade diante do clã, dos laços sanguíneos, dos formalismos, da mera repetição do rito.
Não foi a modernidade que despertou para o humanismo: foi Jesus! Quando Deus se faz um “ser humano” (Jo 1), quando se diz que o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado (Mc 2,27). Quando o primeiro apelo dos Evangelhos é “metanoiete”, que é traduzido como “convertei-vos” ou “arrependei-vos”, o que se quer dizer é algo mais do que “mude de vida”, “faça tudo certinho”. A dimensão é de meta (muda, desloca) + noiete, nous (sua consciência, seu modo de pensar).
É bom recuperar nosso lugar de “humanismo”, o valor da “consciência”. Um dos sintomas de nosso tempo, de “cérebros podres” (brain rot), é o sequestro do que realmente humaniza (empatia, inteligência, ações éticas) e a vista grossa para si mesmo, numa busca desenfreada por distrações e dopamina, para não comparecer diante dos custos da vida.
Sim, só nós, seres humanos, podemos negar nossa essência! Bicho nasce bicho. Vacas não deixam de pastar… Nós temos essa permissão ao equívoco: sendo “humanos”, podemos nos desumanizar.
É muito pertinente pensar em humanismo e em consciência. Agora a gente já sabe, de modo ambidestro: nos palácios, nos tribunais e nos templos, nunca foi sobre leis ou princípios, mas sobre conveniência religiosa, aparelhamento do Estado, quadrilha (isso para brincar com o “Deus, Pátria e Família”).
É preciso estar acordado e atento! Nossos tempos exigem densidade espiritual, mística. Que a gravidade não nos puxe para baixo, para a ilusão do consumo, para a escravidão dos próprios desafetos. Haja espaço em nosso dia para a empatia. Estar com os outros, sobretudo com quem é pobre e sofre, é o compromisso diário de um cristianismo que não é simples “rito” e “cortesia”. O culto e a missa não acontecem no “vazio” e no “nada”. São uma provocação a sermos melhores. Ah, e poesia, antes que grito político, seletividade ideológica. Parafraseando Milton Nascimento, em Coração Civil: aos poetas é dado sonhar o que vai ser real…