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Padre Samuel Fidelis | Deus feminista

Hoje é dia das mulheres; é muito oportuno refletir sobre o que de Deus há no feminino e o que de feminino há em Deus

Padre Samuel Fidelis em celebração

Todo mundo sabe que Deus não tem sexo. “Deus é espírito” (Jo 4,24). Mas, já que foi dito, solenemente revelado, que Ele é Pai, a gente se autoriza a pensá-lo como homem: solene, altivo, barbudo; sobre as nuvens, terrível. Nossa imagem de Deus, como homem e Pai, vinda de uma interpretação superficial da Bíblia e da tradição cristã, por vezes, impede-nos de pensar o feminino em Deus. Hoje é dia das mulheres. É muito oportuno refletir sobre o que de Deus há no feminino e o que de feminino há em Deus.

O livro do Gênesis, ao falar da criação, no segundo relato (Gn 2), diz que a mulher foi construída (banah”) do homem. Talvez não seja heresia pensar que, com a mulher, Deus conclui a criação do homem. A mulher é a obra de que o homem era rascunho. Talvez por isso, misturando os relatos bíblicos, se o homem é imagem e semelhança de Deus, a mulher reflete, de um modo único e singular, o mistério divino.

Na verdade, as mulheres costumam ter prerrogativas divinas. Estar em vários lugares ao mesmo tempo. Dar conta de coisas impossíveis. Ter onisciência. Já tentou mentir para uma mulher? Ledo engano. Se ela pergunta, é porque já sabe. Ah, é claro: igualzinho a Deus, mulheres sempre tem razão.

As mulheres são divinas. E nem é só por isso. São por sua inteligência, autenticamente feminina. Há nelas uma capacidade ímpar de unir ternura e vigor, assim como Deus é fiel e misericordioso (Ex 34,6). Aliás, no hebraico, não há palavra abstrata para definir “compaixão” ou “misericórdia”. O conceito presente na Bíblia é o de rehem, rahamim, rahum, termos que se reportam, em tradução correspondente, ao “útero”. Quando Deus se volta para o povo, o que Ele sente são como contrações no útero, no que há de mais visceral e íntimo. Protege, sustenta e salva porque ama a partir do seu rehem, isto é, do seu útero.

É possível pensar em mais. O sagrado é feminino. Eva, a mãe dos viventes, é colocada diante de Adão como um ezér kenêgdo, “um auxílio que lhe corresponda” (Gn 2,18). Que sublime vocação. A mulher, colocada diante do homem, lhe corresponde; é o “tu” que revela ao homem sua vocação mais íntima ao amor, à reciprocidade, ao dom de si, à humanização. A mulher é colocada diante do homem como auxílio, no sentido de garantia da firmeza, do equilíbrio e da estabilidade.

Se na tragédia de Hamlet “inconstância, teu nome é mulher”, na perspectiva bíblica o nome da mulher é Eva (havah, a mãe dos viventes), da mesma raiz de YHWH, o nome do Deus que faz viver. A mulher é auxílio (ezér), como Deus é auxílio (Sl 124,8). Ela está ao lado, como o Espírito de Deus é consolador, o parakletos, aquele que está ao lado (Jo 14,16). Aliás, no hebraico, Espírito é ruah, uma palavra feminina. A melhor tradução talvez fosse não “o espírito”, mas “a espírito”. O Espírito Santo, em sua fecundidade, se constrói como uma dimensão feminina em Deus.

O que seria do mundo sem as mulheres? Quantos saberes e sabores são produzidos, transmitidos e conservados por mulheres? Da química à invenção do GPS, do cuidado gentil e anônimo dos amores que não desidratam, até a glória das grandes rainhas… O que há de mais belo há história passa pelas mulheres.

Oxalá não seja só sobre um dia. Oxalá tenhamos mais atenção. Não é sobre ser melhor ou pior, nem sobre ser ou não feminista. Aliás, é preciso transpor os “ismos”. “Ismos” costumam ser pejorativos, rasos ou chatos. Isso vai além de Deus ou da sociedade ser ou não feminista. É sobre reconhecimento de protagonismo. Sobre a coragem de tocar na ferida de opressões, invisibilidade e silenciamento. É sobre uma visão profética e crítica acerca das inúmeras atrocidades cometidas contra mulheres. É sobre a profissão de fé num compromisso, religioso e ético, com o sagrado feminino.

Às mulheres, um feliz dia. A todos, sensibilidade, gratidão, reverência e mãos à obra na defesa da integridade, da voz, da inteligência autenticamente feminina, da representatividade e dos direitos da mulher.

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

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