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Padre Samuel Fidelis | Nus e com razão!

O nu possui uma dimensão simbólica! É claro que, quando o nu se expõe, o desejo escorre e pulsa

Padre Samuel Fidelis

Uma das grandes encrencas do Carnaval é a nudez. O corpo nunca é neutro. Ele sempre uma linguagem. O corpo é, de modo especial, para o Ocidente, para o judaico-cristianismo, um imbróglio. Para Platão, o corpo é cárcere da alma. É necessário, mas submetido às paixões, um obstáculo. Para a tradição bíblica, é o local em que se inscreveu a vergonha do pecado: “Fiquei com medo, porque estava nu, e me escondi” (Gn 3,10).

Quão grande não foi, já nos escritos de Pero Vaz de Caminha, o estupor ao perceber que, em sentido diverso dos relatos bíblicos, os indígenas não temiam o nu! “Será que não seriam humanos?” ou que “não existe pecado do lado de baixo do Equador”? (Chico Buarque).

O nu possui uma dimensão simbólica! É claro que, quando o nu se expõe, o desejo escorre e pulsa. O Carnaval é uma festa da carne... Mas carna-valis: o que vale a carne? Por que o corpo é, afinal, objeto de disputa?

É certo que a nudez, como um fim em si mesma, é um escracho! O “belo”, ou anda com o “bom” e o “verdadeiro”, ou se corrompe. Mas é certo também que o nu pode ser artístico. Até os papas são eleitos por cardeais cobertos de púrpura diante dos corpos, na célebre pintura de Michelangelo, expostos na Capela Sistina.

Corpos nus sempre sinalizam. Nem sempre do mesmo modo. A nudez pode indicar grito de liberdade e inocência. Pode anunciar o iminente nascimento de um novo papa! Pode ser o sinal de uma grande catarse coletiva, um interlúdio em meio às dores de uma existência doída e reprimida, no “indulto” do Carnaval...

A nudez é genuinamente humana. Nada do que é humano nos deve ser estranho. Há algo de louco em tornar corpos um fim em si mesmos! Há devaneio em pensar que o nu exposto traz reconhecimento. Não raro, quando o sagrado de um corpo se expõe, profana-se a beleza da interioridade... O nu pode ensurdecer quando se torna grito. Toda nudez exposta, citando Nelson Rodrigues, termina, cedo ou tarde, sendo castigada!

Estamos todos nus! Até nas mais altas cortes, na Capela Sistina, há algo que subjaz ao traje, à toga... E é bom não se esquecer disso! Sobretudo no que tange ao poder, todo pudor começa pela nudez...

Não servem também os berros de ressentimento sobre o corpo! Quem busca cobrir e cobrir-se a todo custo termina por esconder nudezes mais profundas... Cedo ou tarde, a nudez ressentida volta, vazando em algum WhatsApp ou lugar.

É que a nudez é genuinamente humana. Nus viemos a este mundo. Nus o haveremos de deixar (Jó 1,21). Para não passar tanto frio, para não estarmos expostos, dado que optamos pelo convívio social, vai bem estar vestido: de roupas, segundo o lugar; paramentados segundo nossa função; revestidos da mais importante das vestes humanas: a ética! Por vezes, cobrir a nudez é, sim, por razões óbvias, uma medida necessária.

A roupa, lembrava (defendendo seu peixe, dado que estilista) o “filósofo” Clodovil, em nossa cultura, é mais necessária que o alimento. Você não pode ir a um estabelecimento público nu! Tá, mas é bom não exagerar no medo da nudez. Não há nenhum ser humano neste mundo que não tenha razões legítimas para ter que estar nu - e com razão.

Ei! O texto é de um padre. É claro que pensei, antes de tudo, na ida ao médico...

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

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