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Padre Samuel Fidelis | Somos nossos sabotadores

Se observamos bem as séries que maratonamos, as conversas no café da empresa, a fofoca no happy hour, tudo pode ser resumido basicamente em ‘reclamação’

Padre Samuel Fidelis

Costumamos investir muito tempo em confusão. Se observamos bem as séries que maratonamos, as conversas no café da empresa, a fofoca no happy hour, tudo pode ser resumido basicamente em “reclamação”. Somos seres reclamantes, e essa é a nossa sina. Somos seres neuróticos, inquietos, insatisfeitos.

O que seria da nossa vida sem a falta que, sem ser quem somos, nos causa? E esse é o ponto! Não é apenas sobre o ambiente que nos cerca: o sofrimento da existência é congênito, é nosso... Já nas primeiras horas do ano ajuda ter lucidez: somos os nossos principais sabotadores.

Não é que, necessariamente, seja culpa nossa! Há acidentes e contingências; todavia, vale a pena prestar atenção na recorrência das confusões em que a gente se mete. Um bom propósito para o início do ano é meditar sobre a nossa parcela de responsabilidade.

Há gente que cria confusão por causa da inveja, ignorando o quanto se exibe. Há gente que reclama de ambientes tóxicos, sem ter noção dos próprios hábitos nocivos. “Ah, mas a empresa é muito exigente...”. Mas e quem se propõe ser dublê de rico e precisa de grana para os boletos? “Nossa, falta gente de confiança nos relacionamentos!”. Mas e a carência que faz mendigar afeto? Onde fica? Quisemos dar o que, no fundo, não tínhamos a quem não nos pediu. Esse alguém é livre para não retribuir!

“É justo que muito custe o que muito vale”, já dizia Teresa d’Ávila. E, se a sensação é que custa caro demais, talvez não valha o preço! Amaldiçoar o casamento, a chefe ou o cônjuge não fará a dor sumir... A questão é ética, é estética: eu quero? Eu posso? Eu realmente devo?

Nosso texto não é sobre aceitar tudo, a todo custo, mas sobre ter clareza acerca dos “acordos”. Não é sobre o segredo da resiliência, nem sobre essas coisas que coachings vendem... É sobre um respiro profundo nos momentos de caos.

Todo peso da vida se torna mais leve quando deixamos de amaldiçoar o nosso destino, quando sabemos que quem, por ora, nos fere, permanece nos fazendo sofrer “a convite”. Sustentar a dor de existir parece nos aniquilar, mas depois aquieta e transforma (isso ensina o bom e velho Nietzsche!).

E, claro, o texto é feito por um padre! A espiritualidade, a oração como respiro para a alma, a certeza de que tudo concorre para quem se deixa alcançar, resgatar, curar e convencer pelo amor de Deus (Rm 8,28). A experiência desse amor explica tudo...

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

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