Costumamos investir muito tempo em confusão. Se observamos bem as séries que maratonamos, as conversas no café da empresa, a fofoca no happy hour, tudo pode ser resumido basicamente em “reclamação”. Somos seres reclamantes, e essa é a nossa sina. Somos seres neuróticos, inquietos, insatisfeitos.
O que seria da nossa vida sem a falta que, sem ser quem somos, nos causa? E esse é o ponto! Não é apenas sobre o ambiente que nos cerca: o sofrimento da existência é congênito, é nosso... Já nas primeiras horas do ano ajuda ter lucidez: somos os nossos principais sabotadores.
Não é que, necessariamente, seja culpa nossa! Há acidentes e contingências; todavia, vale a pena prestar atenção na recorrência das confusões em que a gente se mete. Um bom propósito para o início do ano é meditar sobre a nossa parcela de responsabilidade.
Há gente que cria confusão por causa da inveja, ignorando o quanto se exibe. Há gente que reclama de ambientes tóxicos, sem ter noção dos próprios hábitos nocivos. “Ah, mas a empresa é muito exigente...”. Mas e quem se propõe ser dublê de rico e precisa de grana para os boletos? “Nossa, falta gente de confiança nos relacionamentos!”. Mas e a carência que faz mendigar afeto? Onde fica? Quisemos dar o que, no fundo, não tínhamos a quem não nos pediu. Esse alguém é livre para não retribuir!
“É justo que muito custe o que muito vale”, já dizia Teresa d’Ávila. E, se a sensação é que custa caro demais, talvez não valha o preço! Amaldiçoar o casamento, a chefe ou o cônjuge não fará a dor sumir... A questão é ética, é estética: eu quero? Eu posso? Eu realmente devo?
Nosso texto não é sobre aceitar tudo, a todo custo, mas sobre ter clareza acerca dos “acordos”. Não é sobre o segredo da resiliência, nem sobre essas coisas que coachings vendem... É sobre um respiro profundo nos momentos de caos.
Todo peso da vida se torna mais leve quando deixamos de amaldiçoar o nosso destino, quando sabemos que quem, por ora, nos fere, permanece nos fazendo sofrer “a convite”. Sustentar a dor de existir parece nos aniquilar, mas depois aquieta e transforma (isso ensina o bom e velho Nietzsche!).
E, claro, o texto é feito por um padre! A espiritualidade, a oração como respiro para a alma, a certeza de que tudo concorre para quem se deixa alcançar, resgatar, curar e convencer pelo amor de Deus (Rm 8,28). A experiência desse amor explica tudo...