Padre Samuel Fidelis | Se humanize
Não foi a modernidade que despertou para o humanismo: foi Jesus!; Quando Deus se faz um 'ser humano' (Jo 1), quando se diz que o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado (Mc 2,27)

Desde os tempos antigos, o cristianismo insiste na dimensão da consciência. Alguns dizem que o “sujeito” é uma construção “moderna”. Antes, no mundo medieval e antigo, o coletivo sempre teve mais importância; não havia muito essa noção de “indivíduo”. É lúcido pensar, na verdade, que é em Jesus que se institui essa liberdade diante do clã, dos laços sanguíneos, dos formalismos, da mera repetição do rito.
Não foi a modernidade que despertou para o humanismo: foi Jesus! Quando Deus se faz um “ser humano” (Jo 1), quando se diz que o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado (Mc 2,27). Quando o primeiro apelo dos Evangelhos é “metanoiete”, que é traduzido como “convertei-vos” ou “arrependei-vos”, o que se quer dizer é algo mais do que “mude de vida”, “faça tudo certinho”. A dimensão é de meta (muda, desloca) + noiete, nous (sua consciência, seu modo de pensar).
É bom recuperar nosso lugar de “humanismo”, o valor da “consciência”. Um dos sintomas de nosso tempo, de “cérebros podres” (brain rot), é o sequestro do que realmente humaniza (empatia, inteligência, ações éticas) e a vista grossa para si mesmo, numa busca desenfreada por distrações e dopamina, para não comparecer diante dos custos da vida.
Sim, só nós, seres humanos, podemos negar nossa essência! Bicho nasce bicho. Vacas não deixam de pastar… Nós temos essa permissão ao equívoco: sendo “humanos”, podemos nos desumanizar.
É muito pertinente pensar em humanismo e em consciência. Agora a gente já sabe, de modo ambidestro: nos palácios, nos tribunais e nos templos, nunca foi sobre leis ou princípios, mas sobre conveniência religiosa, aparelhamento do Estado, quadrilha (isso para brincar com o “Deus, Pátria e Família”).
Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.



