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Padre Samuel Fidelis | Perspectivas

A dinâmica contemporânea das redes sociais nos tem roubado perspectiva

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Padre Samuel Fidelis
Padre Samuel Fidelis • Arquivo pessoal

A gente já está sabendo (ou pelo menos devia) que boa parte dos nossos problemas tem a ver com falta de perspectiva. Essa confusão no Congresso, nas redes sociais, na vida, tem a ver, ao fim e ao cabo, com nossas manias. Temos o péssimo hábito de nos iludir com aquilo que reforça nosso ponto de vista, nossa visão de mundo.

Anota aí: uma boa maneira de vencer discussões é questionar, atravessar, assumir pontos de vista. "Se todo ponto de vista é a vista de um ponto" (Boff), é preciso, para enxergar bem, ter muitas reticências... Isso porque há algo que a birra do outro sugere e que cabe à empatia garimpar; é na reciprocidade que se constroem soluções e sentido. O entendimento requer um passo atrás, pausas...

A dinâmica contemporânea das redes sociais nos tem roubado perspectiva! No imediatismo e na futilidade do feed, a gente não digere: vomita — na forma de crítica e comentário — essa "coisa ausente" que nos atormenta. Na medida em que os algoritmos nos treinam para pensar que a realidade se resume à nossa visão de mundo, a gente perde a capacidade de ver as coisas sob outro ângulo.

Pensar assim faz todo sentido quando, para entender, por exemplo, em que medida é a falta de assunção de perspectivas que inviabiliza entendimentos... Diante de uma discussão é preciso sempre estar atento ao que o protesto do outro insinua! Vale a pena se perguntar: "Tá, mas o que ele está realmente tentando dizer?".

É muito interessante que, nos Evangelhos, Jesus sempre provoque quem vem a Ele ensurdecido de certezas com: "Como lês?" (Lc 10,26), "Que vos parece?" (Mt 21,28)... Esse convite (ou mais que convite: permissão) para que quem está diante de nós possa "vir a ser" com suas questões é fundamental. É preciso, em diálogos e relações, deixar emergir o outro — inclusive com suas falhas e equívocos.

Do contrário, mesmo aquilo que estivermos tentando ensinar pode se perder, se perdermos de vista por onde passam os sentimentos, as ideias, os valores daquele a quem se endereça nossa fala. Poderíamos dizer que, na verdade, em sentido estrito, a gente nunca "ensina" nada a ninguém. As pessoas é que se permitem aprender!

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.