‘Todo mundo está com medo’, diz árbitro Igor Benevenuto sobre guerra no Irã

Profissional do futebol atua há dois anos consecutivos nos Emirados Árabes Unidos e tem rotina conturbada com conflito

Reconhecido pela FIFA, árbitro Igor Benevenuto recebeu alerta de emergência para ataques às 2h40 desta terça-feira (3)

A vida do mineiro árbitro de vídeo Igor Benevenuto, conhecido pela atuação no Campeonato Brasileiro, sofreu grande transformação e passa por uma rotina tensa, com alertas constantes, após os ataques de Estados Unidos e Israel contra o Irã que despertaram um conflito no Oriente Médio.

“Todo mundo tá com medo, todo mundo fica com bastante receio. Por mais que a gente tenha um sistema de segurança para interceptação de mísseis excelente, a gente viu drones caindo em alguns locais, mataram três pessoas, feriram mais de 50”, diz nesta terça-feira (3) em entrevista à Itatiaia sobre a vida nos Emirados Árabes Unidos, onde atua.

“A gente fica apreensivo e as pessoas ficam com medo o tempo todo. Essa noite, 2h40, recebi um alerta de emergência para ir a um lugar seguro por um possível ataque”, complementa.

O panorama é contrastante em relação ao país que encontrou quando se mudou por fins profissionais, mas ainda apresenta satisfação, apesar da situação: “estou muito feliz, muito contente de estar morando aqui. O país é muito acolhedor, tem pessoas acolhedoras, muito seguro de se viver, é o que me dá tranquilidade de ter vindo para cá”.

Igor mora sozinho em um hotel nos EAU enquanto o restante da família vive na Nova Zelândia, distante da região dos conflitos. “Eu estou sozinho aqui, minha família mora na Nova Zelândia. Infelizmente estou sozinho e felizmente, porque eu não queria que outras pessoas da minha família passassem o que estou passando”, diz em tom de alívio.

“Estou com a cara boa, mas é tentando manter a tranquilidade, a paz mental, para poder tomar decisões aqui da maneira correta e sobreviver tranquilamente. Passar por isso é estarrecedor”, lamenta o árbitro.

No hotel em que vive, diversos hóspedes que foram levados até aos aeroportos próximos precisarão ser reconduzidos ao saguão do edifício por conta do cancelamento dos vôos e o fechamento dos lobbies dos terminais aeroviários. Ao mesmo tempo, porta-aviões dos EUA estão próximos ao local, uma vez que as praias do país ficam nas imediações do Estreito de Ormuz, que liga o território ao Irã.

“[As praias] estão no Estreito [de Ormuz], tanto que os porta-aviões dos EUA estão alocados aqui próximo da minha residência. Ontem não teve ataque perto da minha residência, mas a gente ouve passar aviões militares o tempo todo no céu. A distância entre os EAU e o Irã é curta”. Ormuz é um ponto geográfico fundamental no conflito e pode gerar impactos diretos ao preço do petróleo global, por ser uma rota comercial valiosa.

Leia também: Guerra no Oriente Médio: setor de proteína animal busca novas rotas para exportações

Com a proximidade das aeronaves estadunidenses e as retaliações promovidas pelo Irã aos países aliados dos EUA, Igor precisa constantemente procurar o bunker do hotel para se proteger mediante possíveis ataques.

“A gente tem [um bunker] dois lances abaixo do nível da rua. A gente desce as escadas e corre, de 30 a 40 segundos para chegar lá, é o tempo necessário para a gente se esconder e se resguardar”, conta sobre o procedimento em alertas de bombardeio.

Vida de árbitro nos Emirados Árabes Unidos

Sobre a realidade profissional dos árbitros nos Emirados Árabes Unidos, Igor relata uma vivência diferente do constante atrito que existe entre profissionais do futebol no Brasil. Este é o segundo ano consecutivo em que o operador do VAR atua no país.

“Vivo muito tranquilo aqui, as pessoas respeitam. Existem erros, existem equívocos, mas tudo de forma respeitosa. Se há algum problema, a federação vai no processo normal de ser feito. Quando acaba o jogo, os árbitros saem no meio da torcida e dos jogadores, não tem nenhum problema nesse tipo de situação”, descreve sobre as partidas nos EAU.

Existem sete jogadores brasileiros em atuação na primeira divisão do campeonato iraniano e, segundo o embaixador brasileiro no país, “um grupo de profissionais do futebol” conseguiu deixar o país pela Turquia.

Conflitos entre EUA e Israel contra o Irã

O líder supremo do Irã, Ali Khamenei, foi morto após ofensiva liderada pelos Estados Unidos, com apoio de Israel, contra o Irã no sábado (28). A informação foi dada inicialmente por Donald Trump, presidente dos EUA, e posteriormente confirmada pela agência estatal iraniana Fars. Horas depois, foi comunicada a morte da família do aiatolá.

“Após fazer contato com fontes bem informadas dentro da família do líder supremo, lamentavelmente se confirmou a notícia do martírio da filha, do genro e da neta do líder revolucionário”, diz informe da agência de notícias Fars.

Donald Trump alertou em fala nesse domingo (1°) que as operações de combate contra o Irã continuarão até que “todos os objetivos sejam alcançados”.

Ainda durante o domingo, o presidente estadunidense intimou as forças de segurança do Irã a se renderem, após o Exército americano afirmar ter destruído o quartel-general da Guarda Revolucionária.

“Exorto mais uma vez a Guarda Revolucionária, o exército e a polícia iranianos a deporem as armas e receberem imunidade total, ou enfrentarão morte certa. Será morte certa. Não será bonito”, disse Trump em um pronunciamento em vídeo.

Trump afirmou que a operação, que resultou na morte do líder supremo do Irã e de dezenas de outras figuras importantes do governo e das forças armadas, está “adiantada em relação ao cronograma”. Autoridades iranianas e americanas “estão conversando”, acrescentou, embora não tenha fornecido detalhes

O Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho no Irã contabiliza 787 mortes no país, com 504 pontos atingidos em 1039 ataques. Atualmente, 1009 equipes do movimento participam das operações de busca, sendo 3651 socorristas e paramédicos. Além disso, 895 veículos operacionais e de resgate foram mobilizados para acelerar o socorro.

(Sob supervisão de Alex Araújo)

Leia também

Gustavo Monteiro é estagiário do Portal Itatiaia e estudante de jornalismo na UFMG. Natural de Santos-SP, possui passagens pela Revista B&R e Secretaria do Estado de Minas de Comunicação Social.

Ouvindo...