Um retrato italiano do século XVIII, que se acredita ter sido saqueado há 80 anos de um colecionador judeu por um oficial nazista durante a 2ª Guerra Mundial, foi encontrado por acaso em um site de imóveis argentino.
As autoridades na Argentina informaram, na quarta-feira (27), que estão intensificando as buscas pela pintura, denominada “Retrato de uma Senhora”, do artista barroco italiano Giuseppe Vittore Ghislandi.
O retrato foi visto por repórteres do jornal holandês Algemeen Dagblad (AD) em um anúncio imobiliário de uma casa que se acredita pertencer aos descendentes do fugitivo nazista Friedrich Kadgien, que se estabeleceu na Argentina após a 2ª Guerra Mundial.
O jornal de Roterdã relatou que o “Retrato de uma Senhora” original parecia estar pendurado acima de um sofá de veludo na sala de estar de um chalé à venda na cidade costeira argentina de Mar del Plata. O jornal publicou fotos mostrando a pintura em um tour 3D pelo interior.
“Embora não tenhamos examinado fisicamente a pintura e não possamos verificar o verso da tela, em busca de marcas ou rótulos que possam ajudar a confirmar sua procedência, é razoavelmente provável que este seja de fato o retrato da Condessa Colleoni do século XVIII, feito por Ghislandi”, disseram Annelies Kool e Perry Schrier, pesquisadores da Agência do Patrimônio Cultural dos Países Baixos, à Associated Press.
Retrato “desapareceu”
A Interpol, a Organização Policial Internacional, emitiu um alerta e as autoridades argentinas entraram na casa com um mandado de busca na terça-feira (26). Para sua surpresa, no entanto, no lugar da pintura estava uma grande tapeçaria, informou o Ministério Público argentino.
Os investigadores também notaram um gancho e marcas na parede, sugerindo que uma pintura emoldurada havia sido removida recentemente.
Durante a operação, os policiais apreenderam celulares e duas armas de fogo sem registro, além de desenhos, gravuras e documentos da década de 1940 que, segundo eles, poderiam contribuir para o avanço da investigação.
A Agência do Patrimônio Cultural da Holanda expressou insatisfação com a incapacidade das autoridades argentinas de localizar a pintura até o momento.
“Afinal, o objetivo do nosso trabalho é trazer à luz o patrimônio saqueado da 2ª Guerra Mundial e, sempre que possível, devolvê-lo aos seus legítimos proprietários”, afirmou a agência em um comunicado na quarta-feira (27).
Nazistas que fugiram para Argentina
O encontro do retrato reabriu um capítulo sombrio na história da Argentina, que abrigou dezenas de nazistas que fugiram da Europa para evitar processos por crimes de guerra, incluindo membros de alto escalão do partido e arquitetos do Holocausto, como Adolf Eichmann.
Sob o governo do general argentino Juan Perón, mandatário de 1946 até 1955, nazistas fugitivos trouxeram propriedades judaicas saqueadas, incluindo ouro, depósitos bancários, pinturas, esculturas e móveis.
O destino desses itens continua a ser notícia enquanto o processo de restituição se arrasta na Argentina e em outros países.
“Retrato de uma Senhora”
Segundo o banco de dados oficial holandês de obras de arte desaparecidas da 2ª Guerra Mundial, mantido pela Agência do Patrimônio Cultural, o “Retrato de uma Senhora” pertencia ao negociante de arte judeu-holandês Jacques Goudstikker, antes da tomada nazista de sua galeria em Amsterdã, quando a Alemanha invadiu a Holanda em maio de 1940.
Agentes agindo em nome dos nazistas roubaram inúmeras obras de arte de negociantes particulares judeus-holandeses. Estima-se que 1.100 obras do inventário de Goudstikker foram vendidas ilegalmente a Hermann Goering, conhecido como o braço direito de Adolf Hitler.
A única herdeira sobrevivente de Goudstikker, Marei von Saher, de 81 anos, há muito tempo busca a restituição das obras roubadas de seu sogro. Em um caso histórico de 2006, o governo holandês concordou em devolver 202 pinturas saqueadas da coleção de Goudstikker a von Saher, após uma longa batalha judicial.
Os advogados de von Saher disseram na quarta-feira (27) que ela está “extremamente grata” pelo trabalho do jornal na localização da pintura e que está “explorando todas as possibilidades” para recuperá-la.
Embora a família não possa autenticar a obra de arte sem examiná-la pessoalmente, Amelia Keuning, uma das advogadas, disse que imagens do anúncio imobiliário e outros detalhes os deixaram “bastante certos de que se trata da mesma pintura”.
“Trata-se de restaurar a justiça”, disse Yaél M. Weitz, a outra advogada de von Saher.
*Com Estadão Conteudo