Embaixador do Brasil no Irã relata terror e projeta guerra dos EUA com o país

Diplomata descreve a situação da embaixada no país iraniano e relata alterações no cenário local com os ataques

Estados Unidos e Israel lançam ataques contra o Irã desde sábado (28/1)

O embaixador do Brasil no Irã, André Veras, relatou movimentações atípicas no país e entende que ainda é “cedo para dizer que o regime vai cair” com o assassinato do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, e os ataques realizados pelos Estados Unidos. O relato foi feito em entrevista ao blog Caio Junqueira, da CNN Brasil.

Na embaixada brasileira no país iraniano, “eles cortaram a internet, só os telefones funcionam. Temos nosso celular de plantão, mas não temos registro de qualquer chamada”, conta o embaixador.

“Trabalhei 40 anos para ser diplomata. Eu tenho que me preparar para estar consciente e com a mente clara para trabalhar. Claro que tenho preocupação e ansiedade, mas tenho que manter a calma. Até para poder passar segurança para minha mulher e meu filho de nove anos que estão aqui comigo”, conta André.

Sobre a situação do país, o embaixador diz que “a cidade está vazia de movimento de pessoas, vazia de carros na rua. E isso chama muito a atenção porque Teerã é onde mais se vê a movimentação da cidade”. “O iraniano é muito de rua. Mas o próprio governo pediu que as pessoas deixassem Teerã”.

Quanto a continuidade do regime contestado pelo governo norte-americano, André disse que “vai chegar um tempo em que o oxigênio vai acabar”, em referência aos bombardeios constantes que podem durar, pelo menos, quatro semanas, de acordo com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

“Eles imaginaram que seria uma promessa do Trump de que eles matam aqui a autoridade e o regime cai. Que haverá uma transição pacífica e feliz, e que o príncipe herdeiro irá retomar o poder e o Império Persa. Mas tudo é incerto ainda”, explica o embaixador, que trata de uma possível negociação entre o país do Oriente Médio com os EUA.

A situação das forças armadas do país é complexa, diante de frentes diversas de atuação em defesa do regime. Além do governo, no Irã há a Guarda Revolucionária, com cerca de 200 mil militares, e de 90 mil a 120 mil homens ligados a ela em forças paramilitares.

“Estamos falando de cerca de 300 mil homens armados. O que me questiono é como seria eventualmente uma tomada do governo pela população se o regime cai com todos esses 300 mil homens armados nas ruas. Teremos um país com 300 mil homens com armas na mão. Aí você fala: vai para a rua tomar o poder?”, indaga André Veras.

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Para o desembargador, é possível que ocorra uma “ausência de poder”, sujeita a movimentos de insurreição. “Não adianta matar as lideranças e dizer para o povo: ‘Ocupe o seu Estado’, porque eles não têm essa tradição de pegar em armas”.

No Irã, cerca de um quinto da população, em torno de 18 milhões de pessoas, é favorável ao regime dos aiatolás. O número é equivalente a quase o dobro da população israelense total.

Brasileiros tentam escapar do país durante confronto

Cerca de 200 brasileiros vivem no Irã e tentam fugir do país em meio à guerra que se inicia contra Estados Unidos e Israel, entretanto, a logística pode ser complicada em determinados casos.

“São cerca de 200 pessoas. São, na maioria, mulheres que foram para o Japão nos anos 80 e se casaram lá com iranianos e depois vieram para cá”, descreve. “Não é possível afirmar, mas são pessoas enraizadas aqui. E há impedimentos legais sobre filhos e maridos que não podem sair e constituíram vida aqui”, elucida.

“Por outro lado, há um grupo de profissionais do futebol que atuam aqui que deixaram o país pela Turquia. Não há muita dificuldade em deixar o país por via terrestre, a dificuldade é por via aérea. Tem pessoas que estão por um curto período, como um atleta de jiu-jitsu, por exemplo, que está tentando sair”, finaliza o desembargador com o estado dos compatriotas no Irã

Trump deve atacar Irã até que ‘todos os objetivos sejam alcançados’

Donald Trump alertou nesse domingo (1°) que as operações de combate contra o Irã continuarão até que “todos os objetivos sejam alcançados”.

Ainda durante o domingo, o presidente estadunidense intimou as forças de segurança do Irã a se renderem, após o Exército americano afirmar ter destruído o quartel-general da Guarda Revolucionária.

“Exorto mais uma vez a Guarda Revolucionária, o exército e a polícia iranianos a deporem as armas e receberem imunidade total, ou enfrentarão morte certa. Será morte certa. Não será bonito”, disse Trump em um pronunciamento em vídeo.

Trump afirmou que a operação, que resultou na morte do líder supremo do Irã e de dezenas de outras figuras importantes do governo e das forças armadas, está “ adiantada em relação ao cronograma”. Autoridades iranianas e americanas “estão conversando”, acrescentou, embora não tenha fornecido detalhes

(Sob supervisão de Alex Araújo)

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Gustavo Monteiro é estagiário do Portal Itatiaia e estudante de jornalismo na UFMG. Natural de Santos-SP, possui passagens pela Revista B&R e Secretaria do Estado de Minas de Comunicação Social.

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