Os ataques realizados pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã deixaram centenas de mortos e elevaram o nível de tensão no Oriente Médio. O presidente norte-americano Donald Trump afirmou que o líder supremo iraniano foi morto durante as ações, que, segundo ele, teriam como objetivo defender o povo americano.
De acordo com a professora de Relações Internacionais do UniBH, Andreia Rezende, os ataques têm como pano de fundo o programa nuclear iraniano, tema que gera atritos com Estados Unidos e Israel há décadas.
“A gente não teve nenhum avanço nas negociações sobre o programa nuclear iraniano. Não é a primeira vez que os Estados Unidos demonstram que não têm vontade de ceder em alguns pontos do programa iraniano. Em 2010, a gente teve uma tentativa de acordo intermediada pelo Brasil e pela Turquia, mas os Estados Unidos rejeitaram e isso não foi pra frente. Hoje, a gente tem essa situação novamente, que se agrava com a questão de Gaza”, explicou.
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Segundo ela, a nova escalada é consequência direta do fracasso nas negociações.
“Essa escalada é resultado dessa tentativa de negociação em que ninguém quer ceder. Os Estados Unidos, talvez na tentativa de fazer o Irã aceitar esses acordos, demonstraram que têm poder suficiente para atacar diversas localidades”, afirmou.
Os dois lados
Na avaliação do professor e especialista em Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Augusto Teixeira Júnior, os dois lados usam argumentos distintos para justificar ou rebater os ataques.
“Na perspectiva de Israel e dos Estados Unidos, a ação contra o Irã seria legal porque seria preventiva. Eles entendem que o Irã está criando condições para realizar um ato de agressão contra Israel e os Estados Unidos e que a ação militar, mesmo fora do escopo da Carta da ONU, seria legal como autodefesa preventiva”, explicou.
Já do ponto de vista iraniano, o entendimento é outro.
“Na perspectiva do Irã, a ação dos Estados Unidos e de Israel é ilegal porque fere a Carta das Nações Unidas, já que não houve autorização do Conselho de Segurança da ONU. A reação violenta do Irã contra Israel e bases americanas no Oriente Médio seria percebida como defesa, para impedir que as agressões continuem”, disse.
Regras internacionais para conflitos armados
O especialista destaca que, apesar de existirem regras internacionais para conflitos armados, elas acabam sendo ignoradas quando envolvem grandes potências.
“Na prática, quando se trata de grandes potências, como Estados Unidos e Rússia, é muito difícil que o Conselho de Segurança da ONU consiga impedir uma ação violenta. Isso acontece porque esses países têm poder de veto ou porque são potências nucleares, o que cria um imobilismo institucional”, avaliou.
Diante da nova escalada, cresce o temor de um conflito de proporções globais. Para Andreia Rezende, ainda é cedo para afirmar que o mundo caminha para uma terceira guerra mundial, mas o cenário exige atenção.
“É difícil dizer se a gente já está ou não numa terceira guerra. A minha preocupação é que talvez a gente já tenha entrado nela e ainda não percebeu. Tudo agora depende da reação do Irã, dos primeiros discursos, de como o país vai lidar internamente com a morte do aiatolá e se outros países vão entrar no conflito”, afirmou.
Segundo a professora, caso novas potências se envolvam diretamente, o cenário pode se tornar ainda mais grave.
“Se outros países entrarem apoiando o Irã ou se houver invasões de território, aí sim a gente pode estar vendo o início de uma guerra em uma escala muito maior do que se imaginava”, concluiu.