O Paquistão bombardeou importantes cidades do Afeganistão, incluindo a capital, Cabul, durante esta sexta-feira (27). O ministro da Defesa paquistanesa declarou que os dois países estão em “guerra aberta” após meses de confrontos de retaliação.
Repórteres da Agência France-Presse (AFP) em Cabul e Kandahar ouviram explosões e aviões sobrevoando a região até o amanhecer, e o governo afegão afirmou que aeronaves de vigilância paquistanesas estavam sobrevoando o Afeganistão na tarde de sexta-feira.
A operação noturna foi o bombardeio mais abrangente do Paquistão contra a capital afegã e os primeiros ataques aéreos contra a base de poder das autoridades talibãs no Sul do país desde que retornaram ao poder em 2021.
Perto da importante passagem de fronteira de Torkham, um jornalista da AFP ouviu bombardeios nesta sexta-feira, e um campo que abrigava afegãos que retornaram do Paquistão foi atingido pelos combates durante a noite.
“Crianças, mulheres e idosos estavam correndo”, disse Gander Khan, um retornado de 65 anos, à AFP em frente a fileiras de tendas no campo de Omari.
A mais recente operação do Paquistão ocorreu após as forças afegãs atacarem tropas paquistanesas na fronteira na noite dessa quinta-feira (26), em retaliação a ataques aéreos anteriores realizados pelo país.
O porta-voz do governo talibã, Zabihullah Mujahid, afirmou que as forças afegãs mataram 55 soldados paquistaneses e capturaram vários outros, elevando o número de mortos entre as tropas afegãs para 13.
O chefe do Departamento de Relações Públicas das Forças Armadas do Paquistão, tenente-general Ahmed Sharif Chaudhry, disse a repórteres que “274 membros do regime talibã e terroristas” foram mortos, contra 12 soldados paquistaneses. As alegações de baixas de ambos os lados são difíceis de verificar de forma independente, segundo a AFP.
Relações deterioram após ataques
As relações entre os vizinhos deterioraram-se nos últimos meses, com as passagens de fronteira terrestre praticamente fechadas desde os confrontos mortais de outubro, que deixaram mais de 70 mortos em ambos os lados.
Porta-vozes de Islamabad, capital paquistanesa, acusam o Afeganistão de não agir contra os grupos militantes que realizam ataques no Paquistão, o que o governo talibã nega.
A maioria dos ataques foi reivindicada pelo Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), um grupo militante que intensificou os ataques no Paquistão desde que o Talibã afegão retornou ao poder.
Talibã opera anti-aéreos durante confronto
O ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Asif, declarou um “confronto total” com o governo talibã, publicando na internet: “Agora é guerra aberta entre nós e vocês”. Por sua vez, o porta-voz do governo talibã, Mujahid, disse que o Afeganistão queria “diálogo” para resolver o conflito.
“Temos enfatizado repetidamente uma solução pacífica e ainda queremos que o problema seja resolvido por meio do diálogo”, disse Mujahid em uma coletiva de imprensa, acrescentando: “Neste momento, aviões paquistaneses, aeronaves de reconhecimento, estão sobrevoando o espaço aéreo do Afeganistão”.
Cessar-fogo entre os países é rompido
Os ataques noturnos representam uma “escalada significativa e perigosa em relação aos confrontos anteriores”, disse o especialista em Ásia Meridional, Michael Kugelman, na internet. “O Paquistão parece ter expandido seus alvos além do TTP, atingindo também o próprio regime talibã", afirmou.
Após repetidas violações da trégua inicial, a Arábia Saudita interveio neste mês, mediando a libertação de três soldados paquistaneses capturados pelo Afeganistão em outubro.
O Irã, que compartilha uma fronteira leste com o Afeganistão e o Paquistão, ofereceu-se na sexta-feira para ajudar a “facilitar o diálogo”, enquanto o ministro das Relações Exteriores saudita conversou com seu homólogo paquistanês e a China afirmou estar “trabalhando com” ambos os países, ao mesmo tempo em que pediu calma.
*Com informações da AFP
(Sob supervisão de Alex Araújo)