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Da lama aos escombros: os seis meses da catástrofe das chuvas em Juiz de Fora

'Estamos aqui para continuar falando, porque essa tragédia não pode ser esquecida', destaca Irineia Marinho, que perdeu a casa no Costa Carvalho

Por e Juiz de Fora
Fenda aberta no Morro do Cristo com deslocamento de solo e rochas na chuva de fevereiro vista do Bairro Paineiras • Désia Souza/Itatiaia

Neste domingo (23), completam-se seis meses da tragédia das chuvas em Juiz de Fora. Os dias que marcaram a história do município são resumidos em números: 66 mortos, mais de 2.200 casas comprovadamente destruídas, mais de 8 mil desalojados são os mais comuns.

Outra forma são as sensações que não serão esquecidas, como contou Irineia Corrêa Marinho à Itatiaia. "O chão tremeu, eu senti que o piso estava saindo dos meus pés. Muito barulho e a luz também apagou naquele momento. E eu não estava entendendo o que estava acontecendo".

A auxiliar de apoio educacional morava há 35 anos no Bairro Costa Carvalho. Naquela noite, o marido Márcio estava no trabalho. O desabamento veio da rua de cima de forma rápida. Quatro vizinhos morreram em duas casas atingidas pela terra na Rua Santa Clara.

A dor surgiu em meio à escuridão, enquanto segurava uma vela benta acesa, com a companhia do cachorro Pirulito. "Ouvi o grito de uma mãe desesperada, 'socorro, socorro, minha filha". E eu não fui embora naquela noite porque Deus não quis. Do lado foi uma devastação assustadora", disse.

Irineia e Marcio no dia da assinatura do Compra Assistida • Désia Souza/Itatiaia
Irineia e Marcio no dia da assinatura do Compra Assistida • Désia Souza/Itatiaia

Seis meses depois, Irineia recebeu a Itatiaia no novo endereço, no bairro Granjas Betânia, a cerca de 10 km do local onde viveu 23 anos.

Ela , o marido e o cachorro Pirulito foram a primeira familia a receber as chaves pelo programa Compra Assistida, do Governo Federal. E seguir em frente, como relata Irineia, não significa esquecer a noite em que foi acolhida por vizinhos enquanto tudo que era a sua vida era arrasado pela lama.

"Eu choro. Choro por ter sobrevivido, uma gratidão imensa a Deus primeiramente, porque eu sei que elas se foram e outras mais. Nós estamos aqui para continuar falando, porque essa tragédia não pode ser esquecida. Por nós, pelo poder público, por ninguém".

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Reconstrução em números e em projetos

Neste sábado (22), a Prefeitura prorrogou o estado de calamidade pública por mais 180 dias, "para garantir a continuidade dos trabalhos de reconstrução e a assistência aos afetados", como destaca o texto do decreto. Na sexta, começou a demolição de 22 residências na Rua Maranhão no Bairro São Bernardo, que foram condenadas pela Defesa Civil por causa dos danos causados na tragédia.

Durante balanço divulgado na recente visita de comitiva ministerial, foi divulgado que 49 famílias - entre elas a de Irineia, Márcio e Pirulito - já assinaram os contratos do Compra Assistida, e mais de 814 tiveram o benefício liberado e estão no trâmite. Outras aguardam resposta da avaliação.

• PJF/Divulgação
• PJF/Divulgação

Na semana passada, o Corpo de Bombeiros resgatou uma mulher em uma fenda aberta pelo deslizamento de terra nas chuvas de fevereiro, apesar dos acessos estarem interditados e sinalizados de acordo com a Prefeitura.

Neste mês, foi aberto o edital de licitação para a contratação de empresas para a elaboração do projeto de obras de contenção de encostas no Morro do Cristo, um investimento de R$ 85 milhões.

Os recursos estão no pacote de R$ 217 milhões para as intervenções em ruas do Parque Burnier, Cerâmica, Jardim Natal, Três Moinhos, Bom Clima, Nossa Senhora de Lourdes, que ainda não tiveram cronograma anunciado.

Neste mês, estava em andamento a entrega do Kit Recomeço para as pessoas que estão no CadÚnico, atingidas pelas fortes chuvas de fevereiro. Segundo o Governo de Minas Gerais, a previsão é entregar às 692 famílias beneficiadas geladeira, fogão, máquina de lavar, colchão e cama de casal.

As iniciativas da Prefeitura após a tragédia são objeto de uma ação ajuizada pela Defensoria Pública de Minas Gerais, que apontou omissão e falhas nas medidas preventivas. Na resposta, o Executivo Municipal enumerou as medidas implantadas, destacou que as intervenções de grande porte dependem de estudos técnicos, processos licitatórios e prazos realistas para execução.

 

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Désia Souza é jornalista pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde também cursou pós graduação em “Mídia e Cidadania” e mestrado em “Comunicação e Poder”. É coordenadora de jornalismo na Itatiaia Juiz de fora, onde também atua como âncora e repórter.

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Natural de Juiz de Fora, jornalista com graduação e mestrado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Experiência anterior em Rádio, TV e Internet. Gosta de esporte, filmes e livros. Editora Web na Itatiaia Juiz de Fora desde 2023. Tricampeã na categoria Web/Mídias Digitais no Prêmio Oddone Turolla de Jornalismo, do Sindicomércio JF.

 

 

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