Mineiro cria jogo que simula a vida do proprietário de um autêntico boteco brasileiro
Desenvolvido a partir de lembranças da infância em Coronel Fabriciano, Boteco's Game permitirá administrar um bar, vender fiado e construir relações com os fregueses

Quem nunca entrou em um boteco para comprar um refrigerante, comer uma coxinha, tomar cerveja ou simplesmente jogar conversa fora? Presentes no cotidiano de milhões de brasileiros, esses estabelecimentos são muito mais do que lugares para comer e beber. São espaços de convivência, onde histórias se cruzam, amizades se formam e personagens curiosos fazem parte da rotina. Agora, toda essa experiência está prestes a ganhar uma versão virtual.
Essa é a proposta de Boteco's Game – Simulador de Bar, um jogo brasileiro em desenvolvimento que pretende reproduzir não apenas a administração de um boteco, mas também as relações humanas que acontecem ao redor do balcão.
Idealizado por Warley Maer Costa Lacerda, de 31 anos, natural de Timóteo e morador de Coronel Fabriciano desde o nascimento, no Vale do Aço, o projeto tem como principal inspiração um estabelecimento que marcou sua infância: o Lirio's Bar, que pertencia ao seu tio Geraldo e funcionava na Rua Lírio, no bairro São Domingos, na cidade em que cresceu.
"Eu sempre ficava lá depois da escola. A gente assistia a desenhos da Hanna-Barbera, Chaves e filmes do Mazzaropi numa televisão de 14 polegadas. Meu tio me dava salgadinhos e eu passava o tempo conversando com ele enquanto minha mãe trabalhava", recorda.
Mais do que um comércio, o Lirio's Bar representava para Maer um lugar de tranquilidade e acolhimento. Ele também se lembra das visitas rápidas na hora do almoço, quando corria até o estabelecimento para buscar uma Coca-Cola para a família. Anos depois, essas lembranças se transformaram na principal referência para a criação do jogo.
Do fiado ao calote: a vida de um dono de boteco
Diferentemente dos tradicionais jogos de gerenciamento, nos quais o principal objetivo costuma ser expandir negócios e acumular dinheiro, o Boteco's Game pretende reproduzir situações características do cotidiano desses estabelecimentos.
O jogador poderá circular pelo bar, anotar pedidos, preparar alimentos, servir mesas, controlar estoques, definir preços, decorar o ambiente e cuidar das finanças. Mas também precisará administrar conflitos, lidar com clientes impacientes, bêbados e caloteiros, além de tomar decisões que poderão determinar o futuro do negócio.
Uma dessas situações envolve uma das instituições mais tradicionais dos botecos brasileiros: o fiado.
Ao receber um pedido para pagar depois, caberá ao jogador decidir se confia no freguês ou exige o pagamento imediato. A escolha poderá influenciar tanto as finanças quanto a reputação do estabelecimento.
"O jogo vai muito além de servir comida e bebida. A ideia é que você tenha a sensação de estar ali no boteco, de controlar o seu próprio estabelecimento", explica Maer.
Até mesmo a instalação de uma jukebox poderá envolver uma pequena história. Segundo o desenvolvedor, o jogador precisará conhecer um personagem nas ruas e interagir com ele para conseguir o equipamento.
O freguês de sempre pode nunca mais voltar
Uma das características mais interessantes do projeto é a proposta de criar clientes com personalidades, hábitos e histórias próprias. Maer conta que uma de suas principais referências é The Sims, famosa franquia de jogos de simulação da vida cotidiana.
Assim como acontece na vida real, ninguém chegará ao boteco como amigo íntimo do proprietário. Será necessário construir essas relações aos poucos.
O jogador poderá cumprimentar os clientes, conversar, fazer brincadeiras, convidar pessoas que passam pela rua e até expulsar fregueses inconvenientes. Dependendo das escolhas, determinados personagens poderão se tornar habituais, ganhar intimidade com o ambiente e passar a agir como verdadeiros frequentadores de longa data.
"Você precisa conquistar o cliente. Ele não entra no bar já sabendo o seu nome. Com o tempo, pode se tornar aquele freguês habitual, que chega brincando, liga a jukebox e até vai brincar com o cachorro caramelo", explica.
O contrário também poderá acontecer.
Maer cita o exemplo de Juvenal, personagem inspirado em um frequentador real do Lirio's Bar. Em uma partida, ele poderá se transformar em um dos clientes mais assíduos. Em outra, caso seja maltratado ou expulso, poderá deixar de frequentar o estabelecimento definitivamente.
A proposta é que cada jogador construa sua própria história, sem seguir um roteiro inteiramente predeterminado.
E Juvenal tem um significado especial para o criador. "Ele era um personagem real que frequentava o bar do meu tio. Tenho muito carinho por ele e coloquei no jogo para representar essa figura do bêbado que todo boteco tem", conta.
Um retrato da cultura dos botecos brasileiros
A escolha de um boteco brasileiro como cenário não foi por acaso. Maer percebeu que, apesar da enorme variedade de simuladores disponíveis no mercado, a cultura dos bares populares do país ainda era pouco explorada nos videogames.
"O brasileiro vive no boteco desde sempre. Seja para comprar um refrigerante para o almoço, um salgadinho ou comer uma coxinha. É algo que faz parte do nosso cotidiano", observa.
Inicialmente, o jogo terá como referência os tradicionais botecos mineiros. Mas a intenção dos desenvolvedores é incorporar características de estabelecimentos de outras regiões do Brasil, incluindo Rio de Janeiro, São Paulo, Nordeste, Norte e Sul.
Nesse trabalho de reconstrução cultural, os detalhes terão importância especial.
Estão previstas referências a elementos conhecidos de qualquer frequentador de boteco, como os baleiros sobre o balcão, ovos de codorna, ovos coloridos, comidas típicas e as tradicionais plaquinhas que fazem piada com a venda fiada.
Entre elas, mensagens como "Fiado só para maiores de 90 anos acompanhados dos avós" e "Fiado só amanhã".
Os jogadores também poderão escolher os rumos do próprio estabelecimento, preservando as características de um boteco tradicional ou transformando-o em um bar mais sofisticado, próximo dos chamados botecos gourmet.
"Queremos preservar ao máximo essa cultura e levá-la também para pessoas que não têm esse costume. O nível do boteco vai depender das escolhas de cada jogador", afirma Maer.
Um cachorro caramelo e muitas histórias para contar
Para Maer, existem três personagens que não podem faltar em um boteco brasileiro: o cachorro vira-lata que conhece todos os frequentadores, o senhor que aparece diariamente para contar histórias e o bêbado da casa.
O primeiro já tem presença garantida no jogo. Trata-se de um cachorro caramelo, figura tão característica dos botecos brasileiros quanto os balcões de madeira e as mesas na calçada.
"É aquele cachorro que não é do dono, mas está sempre ali. Passa pelo bar, conhece todo mundo e sabe os horários de cada um", descreve.
O segundo representa o freguês antigo, que se senta sempre no mesmo lugar e tem histórias para qualquer ocasião. O terceiro é Juvenal, personagem resgatado diretamente das memórias do Lirio's Bar.
São esses pequenos detalhes que ajudam a explicar a ambição do projeto: reproduzir um estabelecimento onde o movimento de pessoas, as conversas e os acontecimentos cotidianos sejam tão importantes quanto o dinheiro que entra no caixa.
Quando o jogo será lançado?
Boteco's ainda está em desenvolvimento e, por enquanto, não há uma data de lançamento confirmada.
O projeto conta com a participação de profissionais ligados à Little Devil e à Beaver Games. Entre os próximos passos estão o aperfeiçoamento dos sistemas de construção e gerenciamento, a inclusão de novos móveis e produtos e a possibilidade de um modo cooperativo on-line.
Outra prioridade é desenvolver uma versão simplificada para dispositivos móveis. Segundo Maer, esse tem sido um dos pedidos mais frequentes do público que acompanha o projeto.
A intenção é alcançar também pessoas que não costumam jogar no computador ou no videogame, mas que poderiam se interessar por uma experiência tão próxima da realidade brasileira.
"A galera está pedindo muito uma versão para celular. Estamos trabalhando em algumas adaptações para levar o jogo ao público mobile. Acho que vai ser muito bacana atingir também quem frequenta boteco e não tem tanta familiaridade com videogames", explica.
Entre pedidos, fregueses, calotes e histórias, o Boteco's Game pretende mostrar que a vida de um bar não se resume ao que acontece no caixa. Para quem cresceu atrás de um balcão, como Maer, talvez a maior riqueza desses estabelecimentos esteja justamente naquilo que não tem preço: as pessoas que passam por ali e as lembranças que deixam.
Acesse botecosgame.com.br/ para jogar a versão disponível.
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Somos Bernardo e Renata, o primeiro casal a ter uma coluna de rádio sobre gastronomia no Brasil. Apaixonados por boa comida, viagens, histórias e rolês, criamos em 2016 o Oncêvai, perfil para compilar nossas vivências na capital mineira e outros lugares que visitamos. Aqui falamos de eventos gratuitos em BH e promovemos a nossa forte cultura gastronômica.



