6 mercearias para voltar no tempo em Belo Horizonte
Entre prateleiras, balcões e mesas de bar, estabelecimentos tradicionais resistem às transformações da cidade e preservam uma relação de proximidade com os moradores dos bairros onde estão instalados

Muito antes da chegada dos grandes supermercados e das lojas de conveniência, as mercearias já faziam parte do cotidiano dos bairros de Belo Horizonte. Eram, e em muitos casos continuam sendo, o lugar onde se encontra de tudo um pouco: dos mantimentos para preparar o almoço aos produtos de limpeza e higiene pessoal, passando por enlatados, panelas, chinelos, ração para cachorro e até tubos e conexões hidráulicas.
Com o passar das décadas, muitas desapareceram, mas outras resistiram às mudanças nos hábitos de consumo, sustentadas principalmente pela fidelidade dos moradores do entorno e pela relação de confiança construída entre comerciantes e fregueses. Algumas também encontraram no balcão uma segunda vocação: além de abastecer a vizinhança, passaram a servir cerveja gelada, tira-gostos e a funcionar como verdadeiros bares de bairro.
Nesta seleção, reunimos seis mercearias de diferentes regiões da capital que, cada uma à sua maneira, ajudam a preservar um capítulo importante da história do comércio e da vida cotidiana de Belo Horizonte. Uma linda história escrita em cadernetas.
1. Mercearia Barbosa
Fundada em 1968, a Mercearia Barbosa acompanha há quase seis décadas as transformações do bairro Nova Gameleira, na região Oeste de Belo Horizonte. Seu fundador, Sr. Mozart, continua trabalhando no estabelecimento, hoje com a ajuda do filho Átila e da nora Deislaine. Simpático e cheio de histórias, ele se lembra de quando abriu o comércio, aos 22 anos, e as casas do entorno ainda eram construídas de adobe. Naquela época, a região sequer contava com energia elétrica, e as geladeiras funcionavam a querosene.
Durante muitos anos, a Mercearia Barbosa também foi bar, mas o perfil do negócio mudou com o passar do tempo. Segundo Mozart, os antigos frequentadores foram falecendo e a família decidiu concentrar as atividades na venda de mercadorias. Hoje, o que impressiona é a enorme variedade de produtos distribuídos pelas prateleiras, característica das antigas vendas de bairro. A casa também prepara seus próprios salgados, entre eles coxinhas, quibes e pastéis.
Prestes a completar seis décadas à frente do negócio, Mozart continua participando da rotina da mercearia, recebendo fregueses e compartilhando histórias de uma Nova Gameleira bastante diferente da atual.
Endereço: R. Cândido de Souza, 3 - Nova Gameleira
Funcionamento: segunda a sábado, das 7h às 20h; domingos e feriados, das 7h às 14h.

2. Mercearia do Sandro (Comercial Dona Alice)
No bairro Penha, na região Nordeste de Belo Horizonte, o Comercial Dona Alice é muito mais conhecido como Mercearia do Sandro. Seu registro oficial data de 1987, mas, segundo o proprietário, o estabelecimento já funcionava muito antes disso. O pequeno comércio continua fazendo parte da rotina da vizinhança, que encontra nas prateleiras uma grande variedade de produtos e mantém viva uma antiga tradição das mercearias: a compra anotada na caderneta, baseada na confiança entre comerciante e freguês. Quem faz questão de mostrar esses registros é Helinho, funcionário antigo da casa.
A mercearia também funciona como boteco, embora não tenha cozinha. Para acompanhar a cerveja, entram em cena as conservas de cebola, picles e azeitonas, além de salsichas, sardinhas, almôndegas e porções de salaminho italiano com limão. Mas a falta de fogão não impede que a freguesia tenha seus tira-gostos. É comum os frequentadores se organizarem para fazer uma vaquinha e preparar um churrasco do outro lado da rua.
Em outras ocasiões, são os próprios clientes que levam suas especialidades, como o fígado de galinha preparado pela Sabrina e a isca de pernil com jiló fininho feita pela Chaveirinho, uma das personagens mais conhecidas da casa.
A relação de proximidade entre os frequentadores aparece até no cuidado com Suzy, uma cachorrinha acolhida pela turma. Entre compras, cervejas, conversas e encontros improvisados, a Mercearia do Sandro demonstra como um pequeno comércio pode continuar desempenhando um papel importante na vida comunitária de um bairro.
Endereço: Rua Célia, 180 - Penha
Funcionamento: todos os dias, das 8h às 22h.

3. Mercearia Comercial Frei Orlando
Fundado em 1º de janeiro de 1974, o Comercial Frei Orlando é daqueles pequenos estabelecimentos que passam despercebidos por quem caminha apressado pelo bairro Carlos Prates. Na esquina das ruas Três Pontas e Espinosa, a mercearia também é conhecida pela vizinhança como Padaria da Maria, referência a Maria José da Costa Santiago, de 83 anos, que administra o negócio com o marido, Valdir Corrêa Santiago, de 80. O casal conta com a ajuda das irmãs de Maria: Ângela, Rosângela e Maria Aparecida.
A rotina começa de madrugada. Moradores do bairro Novo Riacho, em Contagem, Maria e Valdir acordam às 3h para abrir as portas às 6h, quando os primeiros vizinhos já aparecem em busca de café e pão quentinho. São eles que preparam de forma artesanal os pães, bolos, biscoitos, pães de queijo e salgados. O expediente se estende até as 19h.
Por dentro, o Comercial Frei Orlando conserva boa parte de suas características antigas: piso desgastado pelo movimento de décadas, freezers, estufas, potes de biscoitos, prateleiras e uma infinidade de plantas. Entre as especialidades estão os pastéis de carne e queijo, a empada de frango e o pão de queijo caseiro. É uma mercearia que também cumpre a função de padaria, preservando uma produção artesanal e o atendimento próximo dos proprietários.
Endereço: Rua Três Pontas, 520 - Carlos Prates
Funcionamento: segunda a sábado, das 6h às 19h; domingos e feriados, das 7h às 14h.

4. Mercearia Zé Totó
Fundada em 1943, a Mercearia Zé Totó atravessou mais de oito décadas vendendo praticamente tudo o que se pode imaginar. De cordas de violão a rejunte de azulejo, passando por pregos, parafusos, lâmpadas, brinquedos e alimentos, a variedade ajudou a transformar o estabelecimento em referência para gerações de moradores.
A história começou com Antônio, conhecido como Totó. Após sua morte, em 1950, o filho José Alves dos Santos, que trabalhava na venda desde os 13 anos, assumiu o negócio. Foi ele quem se tornou conhecido como Zé do Totó e consolidou a fama da mercearia. José faleceu em 2023, deixando a administração para seu filho Juliano, que conduz o comércio com a esposa, Érika. No atendimento também está Seu Geraldo, antigo freguês que se tornou funcionário. Ao lado dele, a cachorrinha pipoca ajuda a receber a clientela.
Entrar na mercearia é encontrar prateleiras e balcões antigos de madeira, cartazes de outras épocas, uma geladeira restaurada e até uma antiga caderneta utilizada para registrar compras fiadas. Para quem quiser tomar uma cerveja, há também tira-gostos simples, como salsicha em lata e batata em conserva. A venda preserva boa parte de sua aparência original, mantendo viva uma maneira de fazer comércio que se tornou cada vez mais rara na capital.
Endereço: R. Aporé, 500 - Parque Riachuelo
Funcionamento: todos os dias, das 8h às 20h.

5. Mercearia Zé Correia
Fundada em 1963 por José Correia, a mercearia começou como uma pequena venda e cresceu acompanhando as transformações do bairro Santa Cruz. O negócio permanece nas mãos da família, com os irmãos Zezinho, Décio e Edvar envolvidos no atendimento e na administração do estabelecimento.
A variedade é uma das marcas da casa. Além de alimentos e produtos de uso cotidiano, as prateleiras oferecem queijos, frios, peixe fresco, cadeados e até brinquedos. O balcão de madeira, as placas escritas à mão e o atendimento próximo dos proprietários ajudam a preservar o jeito tradicional de fazer comércio.
Mas a Zé Correia também é bar, desses em que a conversa não precisa disputar espaço com a música alta. Com poucas mesas e uma televisão geralmente ligada no jornal ou no futebol, o lugar recebe moradores e trabalhadores da região que aproveitam para tomar uma cerveja e experimentar os tira-gostos. As tábuas de frios são uma das especialidades, ao lado da porção de lombinho defumado com queijo prato derretido.
Endereço: R. São Leopoldo, 100 - Santa Cruz
Funcionamento: segunda a sábado, das 9h às 22h; domingos e feriados, das 9h às 15h.

6. Mercearia Pérola do Atlântico
Filho de portugueses originários da Ilha da Madeira, José Quintino de Souza praticamente nasceu dentro da mercearia fundada por seus pais no bairro Pompéia. O nome Pérola do Atlântico, inclusive, faz referência à ilha portuguesa. O comércio, que ajudou a sustentar os nove filhos do casal, atravessa gerações e continua sob os cuidados de Seu Quintino, o caçula da família.
A organização das prateleiras chama a atenção. Produtos de limpeza, utensílios domésticos, frutas, verduras e mantimentos dividem espaço com uma estufa de tira-gostos que tornou a mercearia também um dos bares mais tradicionais da região. Entre as opções estão frango frito, costelinha, linguiça, chouriço e bolinho de feijão. Outra especialidade é a salada fria preparada na hora por Seu Quintino, utilizando ingredientes vendidos no próprio estabelecimento.
Com placas de preços escritas à mão, freguesia assídua e conversas que atravessam o balcão, a Pérola do Atlântico conserva características das antigas vendas de bairro, sem abrir mão da função de abastecer a vizinhança.
Endereço: R. Iara, 300 - Pompéia
Funcionamento: segunda a sábado, das 7h às 19h; domingos e feriados, das 7h às 14h. Fecha no último domingo do mês.

Somos Bernardo e Renata, o primeiro casal a ter uma coluna de rádio sobre gastronomia no Brasil. Apaixonados por boa comida, viagens, histórias e rolês, criamos em 2016 o Oncêvai, perfil para compilar nossas vivências na capital mineira e outros lugares que visitamos. Aqui falamos de eventos gratuitos em BH e promovemos a nossa forte cultura gastronômica.



