Copa do Mundo: lenda do futebol se aposentou aos 29 anos após derrota para o Brasil

Craque japonês fez história no futebol europeu e se aposentou precocemente

Hidetoshi Nakata é um dos maiores jogadores japoneses da história e se aposentou aos 29 anos, em 2006

A Copa do Mundo de 2006, disputada na Alemanha, ficou marcada por momentos históricos, despedidas emocionantes e decisões que surpreenderam o mundo do futebol.

Uma delas veio logo após a eliminação do Japão, goleado pelo Brasil por 4 a 1, na terceira rodada da fase de grupos. Naquela tarde, não era apenas o fim da participação japonesa no Mundial, mas também o encerramento precoce da carreira de uma lenda: Hidetoshi Nakata.

Aos 29 anos, no auge físico e ainda atuando no futebol europeu, o maior jogador da história do Japão anunciava que se aposentaria precocemente.

Como Nakata anunciou a surpreendente aposentadoria?

Pouco depois da eliminação, de forma inusitada, o camisa 7 nipônico anunciou que não mais jogaria futebol, mediante a publicação de uma carta no site oficial que mantinha.

O meia, que à época defendia o Bolton Wanderers, da Inglaterra, explicou que a decisão não havia sido tomada no calor do momento: “Há mais de um ano (em 2005) decidi que me aposentaria após a disputa da Copa do Mundo”, afirmou o atleta.

Campanha frustrante do Japão na Copa de 2006

A Seleção Japonesa chegou à Copa de 2006 após bons resultados nos anos anteriores: o Japão conquistou a Copa da Ásia em 2004 e havia empatado com o Brasil, por 2 a 2, na Copa das Confederações.

Os bons desempenhos, no entanto, não se repetiram na Alemanha, o que culminou numa campanha decepcionante. Em três jogos, a equipe somou apenas um ponto:

  • Japão 1 x 3 Austrália
  • Japão 0 x 0 Croácia
  • Brasil 4 x 1 Japão

Nakata, referência técnica do time, esteve em campo em todas as partidas. Líder da equipe, ele se despediu vestindo a camisa azul pela última vez, encerrando um ciclo que atravessou três Copas do Mundo: 1998, 2002 e 2006.

Como foi a derrota para o Brasil que decretou o fim da carreira de Nakata?

O Japão chegou à última rodada do Grupo F da Copa do Mundo de 2006 ainda com chances matemáticas de classificação. Após empate com a Croácia e derrota para a Austrália, os Samurais Azuis somavam apenas um ponto e precisavam vencer o Brasil por uma larga vantagem.

Dentro de campo, porém, a realidade foi dura. Mesmo com um início competitivo, o Japão acabou superado por 4 a 1 pela Seleção Brasileira, que jogou com o time misto e contou com gols de Ronaldo (duas vezes), Juninho Pernambucano e Gilberto.

A derrota decretou a eliminação japonesa ainda na fase de grupos e, por conseguinte, o fim da carreira de Hide Nakata.

Nakata durante a Copa de 2006

Maior jogador da história do Japão

Nascido em 22 de janeiro de 1977, em Kofu, Hidetoshi Nakata foi muito mais do que um bom jogador. Ele se tornou um divisor de águas para o futebol japonês.

Revelado no Bellmare Hiratsuka, chamou atenção ainda jovem pela qualidade técnica, visão de jogo e capacidade de atuar com as duas pernas. Entre 1997 e 1998, foi eleito melhor jogador da Ásia, o que abriu caminho para algo inédito até então: a consolidação de um japonês no futebol europeu. Nesse sentido, Nakata fez história na Itália, sobretudo em três equipes: Perugia, Roma e Parma.

  • Perugia: primeiro time na Itália, destaque imediato, com gols marcantes e forte impacto midiático;
  • Roma: campeão italiano na temporada 2000/01, ao lado de Francesco Totti;
  • Parma: campeão da Copa da Itália em 2002;

Ao todo, defendeu cinco clubes italianos (Bolonha e Fiorentina, para além dos supracitados), tornando-se um dos estrangeiros mais populares da Serie A no início dos anos 2000.

Para além disso, entrou para a história ao integrar a lista Fifa 100, que reuniu os 125 maiores jogadores vivos, em 2004, como comemoração pelo centenário da entidade, sendo um dos dois asiáticos mencionados (o outro foi o zagueiro coreano Hong Myung-bo).

Pela seleção japonesa, foram 77 jogos e 11 gols, além de duas Olimpíadas e três Copas das Confederações.

Nakata foi campeão italiano na Roma

Frustração e desilusão com o mundo da bola: “O futebol tinha virado apenas um negócio”

Durante anos, Nakata não se estendeu ao falar sobre o motivo da aposentadoria precoce. Somente oito anos, em 2014, Nakata decidiu se abrir.

Em entrevista à TMW Magazine, o jogador revelou o peso emocional que carregava nos últimos anos como jogador profissional.

Mesmo convicto, ele admitiu que a decisão nunca foi fácil:

“Se eu pensei em voltar atrás? A todo o tempo. E ainda penso nisso. Mas, quando parei, era uma decisão definitiva.”

Vida após a aposentadoria: nada de futebol

Depois de pendurar as chuteiras, Nakata fez o oposto do que se esperava de um ex-jogador famoso. Sem contratos, holofotes ou rotina fixa, decidiu viajar sozinho pelo mundo.

Passou por países da América do Sul, África e Ásia, visitou regiões pobres, campos de refugiados e comunidades afastadas dos grandes centros.

Em entrevista ao jornal L’Equipe, o jogador explicou:

E completou:

“Quero ver o mundo com meus olhos, não pela TV ou pelos jornais. Se viajassem mais, existiriam menos idiotas preconceituosos.”

Ícone cultural, moda e empreendedorismo

Com o passar dos anos, Nakata se tornou uma referência fora dos gramados. Ícone de estilo, participou de eventos internacionais de moda, estrelou campanhas de grandes marcas e consolidou uma imagem sofisticada e culta.

Além disso, mergulhou no empreendedorismo. Apaixonado pela cultura japonesa, passou a promover o saquê, bebida tradicional do Japão, ao redor do mundo. Criou marca própria e lançou um aplicativo, com o objetivo de educar consumidores e expandir o consumo da bebida internacionalmente.

Também atua em causas sociais e foi nomeado embaixador global das Olimpíadas Especiais, reforçando seu vínculo com a inclusão e esporte.

Adeus precoce para uma lenda eterna

Hidetoshi Nakata se aposentou cedo, mas deixou um legado gigantesco. Foi o rosto da internacionalização do futebol japonês, abriu portas para gerações futuras e provou que um atleta pode ser muito mais do que apenas números e títulos.

A derrota para o Brasil, em 2006, marcou o fim de uma era. não apenas para o Japão naquela Copa do Mundo, mas para toda uma geração que viu em Nakata o símbolo máximo do futebol da Terra do Sol Nascente.

Se jogadores como Kaoru Mitoma (Brighton) e Takefusa Kubo (Real SOciedad) se destacam no futebol europeu, deve-se salientar que este movimento se iniciou com o ex-camisa 7 de Parma e Roma.

Independentemente da data de aposentadoria, Nakata se eternizou. Como jogador, como referência cultural e como um homem que decidiu buscar sentido além da bola

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Repórter em formação com experiência em coberturas locais e interestaduais, com atuação em diferentes frentes do jornalismo. Apaixonado por esportes, especialmente futebol, acompanha o cenário nacional e internacional, com foco em contexto, informação e curiosidades do jogo. Acumula passagem por No Ataque e Estado de Minas.

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