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Filme 'Jesus Kid' tenta rir de absurdos da realidade brasileira 

Estrelado por Paulo Miklos, longa do diretor Aly Muritiba foi premiado em Gramado e também traz Sergio Marone no elenco 

Sergio Marone atua como o personagem criado por Paulo Miklos

Durante uma discussão de trânsito, dois homens sacam armas um para o outro. A cena parece estar ali para contradizer uma anterior, na qual um diretor de cinema pernóstico e empolado, vivido por Gabriel Gorosito, tenta convencer o personagem de Paulo Miklos de que o gênero faroeste está ultrapassado. Ou isto ou o Brasil andou algumas casas para trás. Aly Muritiba, que assina a direção de “Jesus Kid”, premiado no Festival de Gramado, opta pela segunda alternativa.

Baseado na obra do quadrinista e escritor Lourenço Mutarelli, o longa parte para a zombaria acerca dos absurdos da realidade brasileira atual. Cabe a Paulo Miklos encarnar o álter-ego de Mutarelli, um escritor desleixado, um tanto amargo, quase orgulhoso de seu anacronismo romantizado, preocupado apenas com a própria obra e com enorme dificuldade de se relacionar com o mundo à sua volta, que procura refúgio na literatura.

Miklos encara bem o desafio, mas acaba prejudicado pelos diálogos, que não funcionam na telona: soam por demais mecânicos, por mais que a intenção seja a de superar a realidade. Ele é convidado por uma dupla de sujeitos deslumbrados a uma “imersão” (essa palavra da moda) em que deverá ficar trancafiado durante três meses num hotel, para que o texto nasça dessa experiência: a de um escritor em apuros com a escrita. Ele é parte e meio disto.

O produtor que o aborda é interpretado por Fábio Silvestre, humorista com passagem de sucesso pelo programa “A Praça É Nossa”. O tom adotado é, justamente, o da comédia, com acenos para o realismo fantástico. Entre um e outro, o filme fica no meio do caminho. Outro problema mais sério é o do roteiro, já que a história dá voltas e não sai do lugar.

Não há desenvolvimento da trama, tampouco das personagens, superficiais do início ao fim, o que desperdiça, por exemplo, o talento da atriz Maureen Miranda, relegada a escada do mencionado subenredo amoroso, essencial aos arrasa-quarteirões. E a lógica mercadológica que engessa a arte também é alvo do roteiro do filme.

A honrosa exceção à regra da superficialidade fica, em alguns momentos, para o protagonista, criador do caubói Jesus Kid, cuja pele é emprestada pelo galã Sergio Marone, incapaz de fugir da canastrice, ainda que a sua participação seja, assumidamente, caricata. Eugênio, o escritor vivido por Miklos, primeiramente esnoba a oferta da tal “imersão”, mas, ao se sentir perseguido por órgãos do governo, acaba cedendo.

É a desculpa para que o longa ganhe contornos fantasiosos, que se coadunam com as passagens que fazem referência direta a fatos e figuras da nossa realidade política atual, sempre em tom de crítica e esculhambação. Qualquer sutileza é posta totalmente de lado.

E aí desfilam sátiras ao ex-juiz Sergio Moro, ao general Villas Bôas (que há anos se locomove em cadeira de rodas por conta de uma esclerose amiotrófica), ao empresário Luciano Hang e a Fabrício Queiroz, ex-assessor da família Bolsonaro, todos identificados com a direita, quando não com a extrema-direita, alvo preferencial do longa baseado na obra de Mutarelli.

Acontece que as chacotas são tão claras e diretas que sobra pouco espaço para a reflexão, por mais que concordemos com elas. E, em alguns momentos, o discurso soa apenas pueril. Como quando o roteirista investe contra si mesmo, fazendo pouco caso da própria potência de seu trabalho, perseguido pelo atual cenário de generalato, com um cinismo que, hoje, surte pouco efeito.

A essa altura dos acontecimentos, não dá para negar que a palavra tem poder, e que, a partir dela, ações se desenrolam. O que acontece no campo da imaginação pode ficar restrito a ela. Mas, em muitas ocasiões, é a partir das palavras, – afinal de contas, o instrumento da linguagem humana, – que as pessoas são incentivadas e se sentem impulsionadas a transformar o mundo.

Para melhor ou para pior. No caso de “Jesus Kid”, ele acerta ao detectar que as mudanças mais recentes levaram o Brasil e o mundo a uma situação sombria. Mas, hoje, isso é tão nítido quanto a recusa ao absurdo que o filme propõe. O Salvador de Mutarelli recorre àquela antiga máxima, e vem armado.

Serviço

O quê. Filme “Jesus Kid”, com Paulo Miklos

Quando. A partir de 9 de junho (quinta-feira)

Onde. Centro Cultural Unimed-BH Minas (rua da Bahia, 2.244, Lourdes)

Quanto. R$ 20 (inteira) de quinta a domingo; e R$ 12 (inteira) de segunda a quarta

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