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“Eficiência é o que fará a diferença para o produtor de leite”, afirma chefe-geral da Embrapa 

Para isso, é preciso fazer a tecnologia chegar ao campo e vencer o desafio da escassez da mão-de-obra especializada

Elizabeth Nogueira: "é preciso vencer o desafio da escassez de mão-de-obra especializada"

Há menos de um ano como chefe geral da Embrapa Gado de Leite, a engenheira florestal, mestre e doutora em Ciência Florestal pela Universidade Federal de Viçosa e pós-doutora pela Unicamp, Elizabeth Nogueira Fernandes diz que governo, laticínios, associações e outras iniciativas precisam se unir para fazer a tecnologia chegar ao campo, avalia o aproveitamento das pesquisas desenvolvidas pela empresa por parte de quem produz e o que é prioridade dentre as de,mandas atualmente pesquisadas.

Diz que um dos principais desafios do produtor de leite, mergulhado numa crise ainda mais severa, em função da alta dos insumos e dos fertilizantes, é conseguir mão-de-obra especializada e afirma que está sobrando emprego no campo. Além disso, o produtor deve se preocupar em fazer a sucessão do seu negócio e conseguir produzir em larga escala para pagar as contas.

Mas nada é mais importante para ele se manter na atividade do que ser eficiente. “Se o produtor souber produzir bem, com boas técnicas e qualidade extrema, conseguirá permanecer por muito tempo e com dignidade em seu ofício”.

Confira os principais trechos da entrevista:

Para quem ainda não conhece, como é o trabalho da Embrapa?

 Desenvolvemos tecnologias, viabilizando soluções tecnológicas para o produtor de leite. Mas temos que entregar isso a um multiplicador que pode ser de uma associação, do próprio laticínio ou do governo (por meio da Emater, por exemplo). Capacitamos  a extensão rural para que ela chegue ao produtor. Para isso, desenvolvemos cursos, palestras, dias de campo, publicações e cartilhas. Acabamos de lançar, inclusive, o Anuário do Leite 2022, que traz as principais tendências, análises e dados recentes do mercado.

 Quais são os principais desafios enfrentados pelo pecuarista de leite atualmente?

 Muitos deles não têm escala para lutar por preços melhores e o ajuste de contas não fecha. Então temos um cenário de produtores deixando a atividade e outros altamente tecnificados.

 Então, qual seria a solução?

 Precisamos trabalhar em conjunto com a assistência técnica porque temos tecnologia para esses pequenos produtores. O problema é que elas não chegam até eles. Esse cenário tem gerado um grande custo social ao país pela constante saída de produtores da atividade. Precisamos vencer esse desafio. Assistência técnica e Governo do Estado têm que fazer um movimento conjunto com a ciência para que essas tecnologias estejam disponíveis no campo e impactem positivamente a vida do produtor. Outra dica é o pequeno produtor aderir ao associativismo ou cooperativismo. Isso irá ajudá-lo nas compras coletivas de insumos e lhe dará um maior poder de barganha junto aos laticínios.

Na sua avaliação porque está sobrando emprego no campo?

 Vivemos uma dicotomia muito grande nesse sentido. Falta emprego nas áreas urbanas e sobra no campo. Existem dois fatores importantes neste contexto. O primeiro é o próprio desempenho do setor agropecuário, que segue crescendo e investindo. Isso gera demanda por trabalhadores com diferentes níveis de qualificação. Ou seja, a necessidade de mão de obra qualificada aumentou muito. O avanço no uso de sensores, drones e outros equipamentos de alta densidade tecnológica na agricultura de precisão tem exigido muito conhecimento e treinamento para sua operacionalização. Mas também há um outro fator relacionado à migração das pessoas para as cidades. Nas últimas décadas, muitas escolas rurais foram fechadas e isso foi direcionando as pessoas para os centros urbanos. Hoje, há muita dificuldade de encontrar quem queira morar no meio rural. As pessoas até trabalham no meio rural, mas querem morar na cidade, o que é um desafio maior na produção de leite que exige proximidade da mão de obra. Além disso, é preciso investir mais nos sinais de telefonia móvel e internet rural, pois as pessoas querem se manter conectadas.

Como está a relação da pecuária leiteira com a sustentabilidade?

 A pecuária leiteira é muitas vezes cobrada por uma produção sustentável porque os animais emitem metano. Entretanto, ao considerarmos todo o processo de produção, essa emissão pelo animal pode ser reduzida ou mesmo totalmente compensada. Temos evoluído na busca de uma produção cada vez mais sustentável e um bom exemplo é o avanço genético dos animais e seus ganhos de produtividade. Os resultados do Programa de Melhoramento Genético do Girolando, por exemplo, coordenado pela Embrapa e a Associação Brasileira dos Criadores da raça, mostram que, nos últimos 20 anos, foi possível aumentar a produção por animal em 60% com redução na emissão de metano de 40% por litro de leite produzido. É preciso mostrar ao mundo que conseguimos produzir de forma sustentável, transformando capim em um produto de elevada densidade nutricional para alimentação humana.

Qual é a importância das parcerias da Embrapa Gado de Leite com o setor privado? 

A Embrapa sempre trabalhou próxima do setor produtivo. Mais recentemente, com a redução dos recursos públicos destinados à pesquisa, essa aproximação se tornou ainda mais necessária para viabilizar meios de potencializar nossa geração de soluções. Envolvemos nossos parceiros desde o início das pesquisas, dividindo os investimentos necessários e os riscos. Dessa forma, os recursos públicos são direcionados para pesquisas em áreas estratégicas para o Brasil. Acredito que esse é o segredo das parcerias: saber equilibrar os investimentos públicos e privados e suas aplicações nas diferentes linhas de pesquisa. 

Como estão as discussões envolvendo as questões ambientais?

 Na recente edição da COP26, no ano passado, mostramos ao mundo o potencial do Brasil para conciliar a produção agropecuária com a preservação ambiental e os sistemas produtivos de baixo carbono. O Plano ABC Agricultura de Baixo Carbono agora se chama ABC +  está alinhado com os objetivos de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas. Esse plano é uma ferramenta essencial para o cumprimento dos compromissos nacionais e internacionais de desenvolvimento sustentável.

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