Juros elevados são o principal obstáculo ao crédito para 80% da indústria, diz CNI

Levantamento indica frustração maior no crédito de longo prazo e piora nas condições oferecidas pelas instituições financeiras

Selic alta impacta investimentos e limita a competitividade da indústria brasileira

Os juros elevados seguem como o principal problema para o acesso ao crédito na indústria brasileira. Segundo a Sondagem Especial nº 98, realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) com apoio da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), 80% dos empresários industriais que relataram dificuldades para obter crédito de curto ou médio prazo apontam o custo financeiro como o maior entrave.

A Sondagem ouviu 1.789 empresas industriais, sendo 713 pequenas, 637 médias e 439 grandes. A coleta de dados ocorreu entre 1º e 12 de agosto de 2025.

Além dos juros, a exigência de garantias reais, como bens móveis ou imóveis, foi citada por 32% dos entrevistados, enquanto 17% mencionaram a falta de linhas de crédito adequadas às necessidades das empresas.

O cenário se repete na busca por crédito de longo prazo, com prazos superiores a cinco anos. Nesse caso, 71% dos empresários também indicaram os juros como principal obstáculo, seguidos pela exigência de garantias (31%) e pela ausência de linhas compatíveis com a demanda das empresas (17%).

De acordo com a analista de Políticas e Indústria da CNI, Maria Virgínia Colusso, a política monetária restritiva contribui para o encarecimento do crédito.

Segundo ela, a taxa Selic em 15% ao ano e os juros reais em torno de 10% desestimulam investimentos em ampliação da capacidade produtiva e inovação, com impacto direto sobre a competitividade da indústria.

Selic elevada reduz procura por financiamento

O levantamento mostra que a conjuntura levou muitas empresas a recuarem na busca por crédito. Entre fevereiro e julho de 2025, 54% das indústrias não tentaram contratar ou renovar crédito de longo prazo, enquanto 49% não buscaram crédito de curto ou médio prazo. Apenas 26% conseguiram contratar ou renovar crédito de curto prazo no período, percentual que cai para 17% no caso do crédito de longo prazo.

Entre as empresas que buscaram financiamento, quase um terço não obteve sucesso na contratação ou renovação de crédito de longo prazo. No crédito de curto ou médio prazo, a taxa de frustração foi de cerca de 20%.

A dificuldade varia conforme o porte da empresa. No crédito de longo prazo, 43% das médias indústrias não conseguiram acesso aos recursos, seguidas pelas pequenas (37%) e pelas grandes (27%).

Já no crédito de curto ou médio prazo, a frustração atingiu 26% das médias empresas, 21% das pequenas e 16% das grandes.

Condições de crédito pioram para parte das empresas

A pesquisa também indica deterioração nas condições de acesso ao crédito. Entre as empresas que renovaram linhas de curto ou médio prazo, 35% afirmaram que fatores como taxas de juros, número de parcelas, carência e exigência de garantias ficaram piores ou muito piores no período analisado. No crédito de longo prazo, essa percepção foi compartilhada por 33% das indústrias.

Para 47% das empresas, tanto no crédito de curto ou médio quanto no de longo prazo, as condições permaneceram semelhantes às observadas nos seis meses anteriores, sem mudanças relevantes. Já uma parcela menor relatou melhora: 14% no crédito de curto ou médio prazo e 12% no crédito de longo prazo.

Risco sacado ainda tem baixa adesão

A sondagem mostra que o risco sacado ainda é pouco conhecido ou utilizado pelas indústrias. Apenas 13% das empresas afirmaram ter contratado essa modalidade de crédito nos 12 meses anteriores à pesquisa, enquanto 5% pretendiam utilizá-la no período seguinte. Por outro lado, 54% disseram não ter contratado nem ter intenção de contratar, e 29% não souberam ou preferiram não responder.

O risco sacado é uma operação de antecipação de recebíveis que envolve fornecedor, comprador e instituição financeira.

Nessa modalidade, o fornecedor recebe o pagamento antecipado junto ao banco, enquanto o comprador assume o compromisso de quitar o valor diretamente com a instituição financeira na data de vencimento acordada, mantendo a obrigação de pagamento com o sacado.

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Erem Carla é jornalista com formação na Faculdade Dois de Julho, em Salvador. Ao longo da carreira, acumulou passagens por portais como Terra, Yahoo e Estadão. Tem experiência em coberturas de grandes eventos e passagens por diversas editorias, como entretenimento, saúde e política. Também trabalhou com assessoria de imprensa parlamentar e de órgãos de saúde e Justiça. *Na Itatiaia, colabora com a editoria de Indústria.

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