Indústria do cacau fecha 2025 em ajuste, apoiada pelas exportações

Dados da AIPC mostram retração do processamento, enquanto exportações de derivados ajudam a equilibrar o desempenho do setor

Indústria brasileira de cacau operou com menor ritmo em 2025 diante da queda na moagem e no consumo interno

O setor brasileiro de cacau encerrou 2025 em um cenário de retração do processamento industrial. Dados compilados pelo SindiDados – Campos Consultores e divulgados pela Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) mostram que a moagem totalizou 195.882 toneladas no ano, queda de 14,6% em relação a 2024, quando foram processadas 229.334 toneladas.

No quarto trimestre, a redução também foi significativa. O volume moído alcançou 51.816 toneladas, recuo de 13,1% na comparação com as 59.589 toneladas do mesmo período do ano anterior.

Para a presidente-executiva da AIPC, Anna Paula Losi, o desempenho reflete a combinação entre custos elevados da matéria-prima ao longo do ano e a menor demanda por derivados de cacau, o que afetou diretamente o ritmo de processamento da indústria.

Recebimento de amêndoas tem leve recuperação

Apesar da queda na moagem, o recebimento de amêndoas apresentou avanço em 2025. O volume total recebido somou 186.137 toneladas, alta de 3,7% em relação a 2024. Ainda assim, o montante não foi suficiente para atender plenamente à demanda da indústria nacional.

No quarto trimestre, o recebimento alcançou 59.737 toneladas, crescimento de 9,7% frente ao mesmo intervalo do ano anterior, indicando maior disponibilidade de matéria-prima no encerramento de 2025.

O desempenho por estado mostrou movimentos distintos entre as principais origens. A Bahia ampliou as entregas de 106,4 mil toneladas em 2024 para 112,5 mil toneladas em 2025, alta de 5,7%, elevando sua participação de 59,3% para 60,5% do total.

O Espírito Santo praticamente dobrou o volume recebido, ao passar de 5.968 para 10.054 toneladas, enquanto Rondônia registrou crescimento de 36,4%, de 1.316 para 1.795 toneladas.

Em sentido oposto, o Pará reduziu as entregas de 65,6 mil para 61,5 mil toneladas, queda de 6,3%, com perda de participação no total nacional. Os demais estados, embora ainda representem parcela pequena, ampliaram o volume recebido de 12 para 175 toneladas.

Com isso, o avanço do recebimento em 2025 foi sustentado principalmente pela Bahia e, proporcionalmente, pelo Espírito Santo e Rondônia.

Consumo interno de derivados recua

A retração do processamento veio acompanhada de queda ainda mais acentuada na comercialização de derivados no mercado interno. O volume total vendido no Brasil passou de 177.669 toneladas em 2024 para 144.932 toneladas em 2025, recuo de 18,4%, superior à redução da moagem no período.

Todas as categorias apresentaram diminuição: liquor (-22,9%), manteiga de cacau (-23,9%), pó de cacau (-13,1%) e torta de cacau (-7,0%). O resultado evidencia a menor demanda interna e levou a indústria a operar com capacidade reduzida ao longo do ano.

Comércio exterior sustenta parte do desempenho

No comércio exterior, os dados indicam movimentos distintos. As importações de amêndoas totalizaram 42.143 toneladas em 2025, crescimento de 65,2% em relação a 2024.

No quarto trimestre, no entanto, as compras externas foram interrompidas. Segundo Anna Paula Losi, a necessidade de importação concentrou-se no primeiro semestre, diante da safra fraca de 2024 e das expectativas de oferta ainda limitada em 2025. Com a queda da demanda por derivados, as importações deixaram de ser necessárias no fim do ano.

As importações de derivados avançaram 4,0% no período, de 41.189 para 42.844 toneladas, mantendo-se concentradas em poucos fornecedores, como Estados Unidos e Países Baixos.

O maior crescimento ocorreu nas compras de cacau em pó e pasta de cacau desengordurada, cujo volume subiu 5,8%, indicando demanda mais firme por esses produtos específicos.

As exportações de derivados, por sua vez, fecharam 2025 com alta de 5,4%, totalizando 52.951 toneladas.

A Argentina permaneceu como principal destino, com 21,3 mil toneladas, seguida pelos Estados Unidos, com 9,5 mil toneladas, e pelos Países Baixos, com 5,5 mil toneladas. Chile, México, Espanha e Uruguai também mantiveram participação relevante, reforçando o peso da América do Sul nas vendas externas.

No quarto trimestre, as exportações somaram 12.965 toneladas, volume 4,5% inferior ao do mesmo período de 2024. O desempenho ao longo do ano foi impactado pela tarifa adicional imposta pelos Estados Unidos a partir de agosto, que provocou forte queda nos embarques.

A retirada da sobretaxa em novembro permitiu rápida recomposição das vendas, especialmente em dezembro, impulsionada pela manteiga de cacau.

Perspectivas do mercado internacional

A análise da consultoria StoneX aponta que o setor chega a 2026 em um ambiente de incertezas, embora com uma configuração distinta da observada no auge da escalada de preços no fim de 2024.

As cotações recuaram de patamares acima de US$ 12.000 por tonelada para cerca de US$ 5.000 ao final de 2025.

No Oeste Africano, as condições climáticas mais favoráveis desde setembro contribuíram para aliviar parte das preocupações com a oferta, enquanto a América do Sul ganhou destaque com a produção recorde do Equador.

Ainda assim, a consultoria ressalta que a demanda global segue desaquecida, o que tende a manter um viés mais baixista para os preços ao longo de 2026, com a reação do consumo sendo determinante para a sustentação do mercado no médio prazo.

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Erem Carla é jornalista com formação na Faculdade Dois de Julho, em Salvador. Ao longo da carreira, acumulou passagens por portais como Terra, Yahoo e Estadão. Tem experiência em coberturas de grandes eventos e passagens por diversas editorias, como entretenimento, saúde e política. Também trabalhou com assessoria de imprensa parlamentar e de órgãos de saúde e Justiça. *Na Itatiaia, colabora com a editoria de Indústria.

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