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Dona Marta: empreendedora completa uma década vendendo marmita popular na Praça 7

Empreendedorismo no Brasil cresce 27% em 10 anos; iniciativas como o Sebrae Delas ajudam a alavancar iniciativas em Minas

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Marta é empreendedora social há 10 anos
Marta é empreendedora social há 10 anos  • Talyssa Lima/ Itatiaia

No coração do Centro de Belo Horizonte, entre o fluxo frenético de trabalhadores e pedestres na Praça Sete, uma senhora de 70 anos tornou-se um símbolo de resistência, generosidade e empreendedorismo social. A cozinheira Marta Vieira, conhecida popularmente como a ‘Rainha do Marmitex’, completa uma década de dedicação a um projeto que vai muito além da venda de alimentos: é uma missão de vida baseada na empatia e na própria história de superação. Dona Marta abre a série de duas matérias  "O empreendedorismo feminino que cresce sem esquecer o social”.

Nos últimos 10 anos, período em que Marta vende marmitas na Praça Sete, o empreendedorismo feminino cresceu 27% no Brasil. Nascida na pequena cidade de Córrego Novo, no Vale do Rio Doce, Marta teve a primeira filha aos 14 anos e o segundo filho aos 15, após um ‘casamento de contrato’. Aos 16 anos, veio para Belo Horizonte com as duas crianças e passou a morar nas ruas, incluindo a Praça Sete. Nesse período, foi catadora de recicláveis e chegou a pegar lavagem (resto de comida jogada no lixo) para se alimentar.

"Eu não tinha nem lugar de dormir, eu dormia na calçada... a gente catava coisa do lixo até para comer, que nem eu vejo muitas pessoas fazendo isso aí, entendeu?"

Marta conseguiu moradia fixa no Aglomerado da Serra aos 19 anos. Teve ainda mais três filhos. A vivência nas ruas faz com que ela não consiga ignorar o sofrimento alheio. Mesmo quando a situação financeira aperta ou quando a saúde cobra o preço — ela enfrenta dores físicas —, o compromisso com o próximo a mantém de pé. "Quando eu vejo a pessoa mexendo no lixo ali, caçando coisas para comer, me dá tristeza aqui dentro do meu coração, porque eu passei por tudo isso, né? A regra é sempre ajudar o outro", reforça.

Foi na casa simples no Aglomerado da Serra que, há 10 anos, um dos filhos da cozinheira teve a ideia de produzir as marmitas para vender no Centro de BH. O preço popular, o tempero mineiro e o carisma de Marta logo conquistaram clientes, especialmente os mais humildes. Atualmente, Marta vende entre 50 e 60 marmitas grandes por dia, ao preço de R$ 10, com direito a um copo de suco de brinde.

Marta chora ao lembrar a trajetória e revela que a vida sofrida lhe ensinou a olhar para o próximo. "Olha, o segredo é o amor, que é o mais importante na vida da gente. As coisas aqui são difíceis. Tem vez que não tenho dinheiro nem para pagar passagem para ir embora para casa. Mas, como aqui todo mundo me conhece, a gente pega o táxi e depois paga", disse.

Para manter o valor baixo, Marta busca alternativas, comprando ingredientes em atacados e optando por carnes mais baratas, mas sem abrir mão da qualidade. "Eu procuro comprar as coisas mais baratas, né? Compro linguiça, compro um frango que é mais barato e continuo tratando meus clientes bem. Eles falam que eu sou uma mãezona, né?", relata a cozinheira.

Ansiedade, aluguel e casa abalada

A vida da "mãezona da Praça Sete" não é isenta de tragédias. Recentemente, ela enfrentou a perda de um filho (vítima de uma queda no banheiro), o que lhe desencadeou crises de ansiedade. "Eu perdi um filho tem 3 meses... eu comecei a ter ansiedade muito forte. Fiquei em casa uma semana, mas foi muito sofrimento, porque eu não podia estar aqui".

Além da margem de lucro reduzida em razão do preço popular, Marta ainda precisa arcar com o valor do aluguel de R$ 3 mil de um espaço no segundo andar de um prédio na Praça Sete, onde ela mantém um pequeno restaurante e prepara as marmitas.

Quando iniciou o projeto, Marta montava as marmitas em casa e as levava até a Praça Sete para vender. No entanto, parte da casa dela desabou e atingiu a cozinha, impossibilitando o trabalho em casa.

“Minha casa caiu, o muro e o teto também. Caíram uns pedaços do teto. Nem sei se a prefeitura vai arrumar isso também. E já tem mais de 3 anos que estou nessa luta. E é assim que tô levando a vida, porque eu não tenho condições. Que nem eu falei para vocês, eu pago aluguel aqui, tenho que comprar as coisas, tenho que pagar conta de água, conta de um trem, conta de outro”, relata Marta, que sonha em poder voltar a trabalhar de casa. “Se minha casa ficar pronta, continuarei fazendo a marmita lá e trazendo para cá”.

Apesar de todas as provações, Dona Marta não pretende parar. Para ela, o trabalho é o que lhe traz bem-estar. "Quando eu chego aqui, que eu vejo as coisas que eu tô fazendo, que são boas para as pessoas, eu me sinto bem, entendeu? Eu me sinto muito bem".

Lidar com questão de estresse é outro desafio para empreendedoras • Arte IA/
Lidar com questão de estresse é outro desafio para empreendedoras • Arte IA/

Reconhecimento e admiração

O reconhecimento vem por meio de clientes fiéis e amigos, como Werley Gomes Gonçalves, de 34 anos, que a ajuda com as compras. "Todo mundo conhece ela como mãezona da Praça Sete. Todo mundo gosta dela. A comida é boa e barata", afirma Werley.

O advogado Marco Túlio Dias, de 28 anos, também é cliente. “Acho a senhora Marta um exemplo prático da mulher negra enquanto potência de uma sociedade, porque ela passou por muitas situações, ainda passa, passou recentemente pela perda de um filho, e ela tá aqui firme e forte, vendendo as marmitas dela, movimentando toda a sociedade. É a definição de que, quando a mulher negra se movimenta, toda a sociedade se movimenta junto”.

Sebrae Delas

O número de mulheres no empreendedorismo no Brasil cresceu 27% entre 2015 e 2025, um salto 16% maior que o verificado entre homens empreendedores no mesmo período. Os dados são de pesquisa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a partir de dados trimestrais da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua).

Em 2015, havia 8,2 milhões de donas de negócio no país, número que subiu para 10,4 milhões em dezembro de 2025. Entre os empreendedores, o crescimento em uma década foi de aproximadamente 11%.

Marta vende marmitas a preço popular há 10 anos • Talyssa Lima/ Arte IA
Marta vende marmitas a preço popular há 10 anos • Talyssa Lima/ Arte IA

Michelle Chalub, analista do Sebrae, ressalta que 40% dos negócios em Minas são liderados por mulheres. Nesse cenário, ela destaca o Sebrae Delas, programa criado em 2019 para apoiar o empreendedorismo feminino, seja por meio de capacitações, mentorias, orientações de negócio ou impulsionamento de redes de apoio. Quase 17 milhões de mulheres foram atendidas nos últimos 5 anos. Chalub diz, inclusive, que Dona Marta pode ser apoiada pelo projeto.

“As mulheres já avançaram muito, mas ainda temos desafios históricos e culturais que agarram um pouco esse avanço. Mesmo com tudo isso, as mulheres continuam. Na última pesquisa sobre mulheres empreendedoras, de março, 40% dos negócios em Minas Gerais são liderados por mulheres. Por mais que elas tenham muitos percalços ao longo dessa jornada, elas ainda encontram força, encontram coragem para seguir em frente no seu sonho, que muitas vezes começa por uma necessidade mesmo”, destacou.

O Sebrae Delas é baseado em três pilares:  Desenvolvimento Pessoal (foca na promoção do crescimento individual, fortalecimento da autoestima e busca pelo equilíbrio), Desenvolvimento Empresarial (apoio na gestão do negócio, desenvolvendo uma visão empreendedora); e Empreendedorismo em Rede (estimula a colaboração entre as mulheres e construir uma comunidade unida).

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Jornalista formado pela Newton Paiva. É repórter da rádio Itatiaia desde 2013, com atuação em todas editorias. Atualmente, está como editor de Cidades, Brasil e Mundo.

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), já trabalhou na Record TV e na Rede Minas. Atualmente é repórter multimídia e apresenta o Tá Sabendo no Instagram da Itatiaia.