Compras no carnê mais que dobram em BH e chegam a 30% dos consumidores

Pesquisa da Fecomércio Minas aponta que falta de limite no cartão e crédito mais restrito impulsionam modalidade no comércio

O pagamento por carnê tem voltado a ganhar força no comércio de Belo Horizonte e promete movimentar a economia da capital nos próximos meses. É o que aponta um levantamento da Fecomércio Minas, que mostra crescimento significativo no uso dessa forma de parcelamento.

Segundo os dados, cerca de 30,6% dos consumidores já utilizam o carnê nas lojas que oferecem o crediário. Em janeiro de 2020, para se ter uma ideia, o percentual era de 13,7%.A economista da Fecomércio Minas, Gabriela Martins, explica que a modalidade mais do que dobrou em seis anos.

“Os dados mostram que o pagamento por carnê cresceu de forma significativa nos últimos anos. Em janeiro de 2020, a modalidade era utilizada por 13,7% dos consumidores. Em janeiro de 2026, esse percentual chegou a 30,6%. Isso representa um aumento de 16,9 pontos percentuais no período, ou seja, mais do que dobrou em seis anos”, afirma.

De acordo com a especialista, o crescimento ganhou força principalmente a partir de 2022.“Esse crescimento não foi linear, mas ganhou força principalmente a partir de 2022, acompanhando o aumento do endividamento das famílias, o aumento dos juros e a limitação de algumas famílias em conseguirem outras modalidades de crédito”, explica.

Cartão estourado impulsiona uso do carnêUm dos principais motivos para a retomada do carnê é a falta de limite no cartão de crédito, que para muitos consumidores virou praticamente uma extensão do salário.

No Hipercentro de Belo Horizonte, a equipe da reportagem conversou com consumidores que utilizam — ou evitam — esse tipo de pagamento.O autônomo Marcos Miranda de Oliveira, de 63 anos, comprou um aparelho de som parcelado no carnê.

“Sim, fiz a compra aqui no carnê. Eu acho melhor porque a gente já gera o boleto e fica esperando só as prestações para pagar”, contou.

Questionado sobre os juros da compra, ele disse que nem chegou a observar as condições.“Para falar a verdade, eu nem percebi. Eu fui logo comprando. Nem estou sabendo sobre os juros”, afirmou.

Juros afastam parte dos consumidores

Por outro lado, há quem evite essa modalidade por causa das taxas cobradas.A balconista Maristela Celeste, de 60 anos, contou que preferiu não parcelar no carnê ao comprar um guarda-roupa.“Chegaram a oferecer o carnê, mas eu não quis. O juro do carnê é altíssimo”, disse.

A técnica de enfermagem Maria Geralda, de 55 anos, também afirma que deixou de usar esse tipo de parcelamento.“Eu já comprei antigamente, mas agora não compro mais. O juro é muito alto. Quem não tem conhecimento acaba comprando e acha que está ganhando uma oportunidade”, afirmou.

Alternativa ao crédito bancário

Para a economista Gabriela Martins, o carnê voltou a ganhar espaço porque muitas famílias estão com o orçamento apertado e têm dificuldade de acessar crédito bancário.“Com o orçamento das famílias cada vez mais apertado e o acesso ao crédito bancário mais restrito, o carnê volta a ganhar espaço como uma alternativa mais simples e acessível para o consumidor”, explica.

Ela destaca que as parcelas fixas ajudam no planejamento financeiro.“Diferente do cartão de crédito, o carnê costuma ter parcelas fixas e mais previsíveis, o que ajuda no controle do gasto mensal”, diz.Segundo a economista, o modelo é muito comum no comércio local, principalmente para a compra de bens duráveis.“Muitos consumidores já estão com o limite do cartão de crédito comprometido e recorrem ao carnê para parcelar compras, especialmente no comércio local e na aquisição de bens duráveis, como geladeiras e fogões, que normalmente têm valores mais altos”, conclui.

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