Projeto Estação reinventa a Estrada de Ferro Vitória a Minas através do olhar comunitário

Com foco na preservação cultural e no protagonismo jovem, iniciativa pretende ressignificar 905 km de ferrovia entre Minas Gerais e Espírito Santo até 2028

Operado pela Vale, o trem percorre a ferrovia Vitória-Minas em cerca de 13 horas

A centenária Estrada de Ferro Vitória a Minas está ganhando um novo propósito que vai além do transporte de cargas e passageiros. Até o ano de 2028, o Projeto Estação percorrerá 905 km da via-férrea para resgatar e eternizar as memórias das 30 comunidades que compõem esse trajeto, utilizando a fotografia e o audiovisual como ferramentas de transformação social.

Realizado pela HORUS Planejamento e Gestão, com apoio da Vale e da ANTT, o projeto foca na democratização da arte e na valorização do patrimônio imaterial. No seu primeiro ano, a iniciativa já mobilizou 80 jovens mineiros de cidades como Belo Horizonte, Itabira e João Monlevade, transformando o cotidiano ferroviário em expressões artísticas captadas por lentes de celulares.

A arte como guardiã da história

Ao todo, 240 fotografias produzidas por jovens entre 16 e 25 anos resultaram em sete instalações artísticas espalhadas por escolas, praças e estações. Essas obras reconfiguram locais comuns em galerias a céu aberto, como os muros de Barão de Cocais e o interior da Estação Ferroviária no centro de Belo Horizonte.

Para o idealizador e coordenador geral do projeto, Preto Filho, a iniciativa é um “mover único” no cenário cultural brasileiro: “A extensão férrea se tornou um ponto de conexão e de partida entre arte, território, memória e patrimônio imaterial. É uma maneira de incentivar o jovem em suas sensibilidades e dar voz às comunidades no entorno ferroviário”, explica.

Histórias reais sobre os trilhos

Diferente das produções cinematográficas de ficção, o Projeto Estação foca na “poética do real”. Personagens como o ex-maquinista Agostinho dos Santos, que dedicou quase 30 anos à ferrovia, e a ferroviária Valdete Gomes da Silva têm suas trajetórias imortalizadas.

“Eu praticamente ‘morei’ dentro dos trens. De vez em quando, eu olho de longe o trem passando e falo: saudade”, revela Seu Agostinho, evidenciando o laço afetivo que une os moradores à EFVM, que transporta mais de 8 milhões de passageiros por década.

Diversidade e futuro (2026-2028)

O impacto social do projeto também se reflete em seus números de inclusão. Das centenas de inscrições recebidas, 69% foram de mulheres e 67% de pessoas autodeclaradas negras, reforçando o compromisso com a diversidade.

Após o sucesso das exposições no Circuito Liberdade, em BH, e o lançamento da galeria virtual, os planos até 2028 são ambiciosos:

  • Expansão: visitar outras 23 comunidades ao longo do eixo Vitória-Minas.
  • Formação: continuar as oficinas teóricas e práticas para jovens locais.
  • Acesso: manter a plataforma digital como um acervo democrático da memória ferroviária nacional.

Como define o Diretor-Geral da ANTT, Guilherme Theo Sampaio, o projeto prova que a ferrovia é um “território vivo”, onde o desenvolvimento econômico deve caminhar lado a lado com a valorização das identidades locais.

Leia também

Giovanna Damião é jornalista da televisão, digital e do rádio. Desde 2020 como social media e redatora na televisão e, mais recentemente, atuando como apresentadora e repórter da editoria de cultura. Com versatilidade no jornalismo, caminha pela música, eventos, esportes e entretenimento.

Ouvindo...