O novo tarifaço afetará a campanha presidencial?
O anúncio da Casa Branca traz de volta ao debate político a taxação de produtos brasileiros, o que coloca o Brasil entre os países com condições mais restritivas no mundo para acessar o mercado norte-americano

Desde que retornou à Casa Branca, Donald Trump adotou a taxação de importações como forma de favorecer a produção de manufaturados naquele país e reduzir o déficit da balança comercial dos EUA. O Brasil estava na mira, em princípio, por conta de barreiras aplicadas no comércio do etanol. No primeiro anúncio de Trump, em 2 de abril de 2025, os países foram atingidos pelas chamadas "tarifas recíprocas" e a alíquota reservada ao Brasil foi de 10%.
Mas, em julho, Trump elevou para 50% a tarifa aplicada a um conjunto de produtos brasileiros. Incluiu, na justificativa, elementos políticos: criticou o que chamou de “caças às bruxas” por parte do Supremo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Por isso, o primeiro tarifaço foi associado à atuação de Eduardo Bolsonaro, que buscava, nos Estados Unidos, pressionar o Congresso Nacional a aprovar a lei da Anistia, que poupasse o pai dele da condenação na trama golpista.
O Brasil reverteu esse tarifaço pela combinação de pressão judicial e negociações diplomáticas de bastidores. À época, o discurso da soberania e o desgaste que se abateu sobre a família Bolsonaro ajudaram o governo Lula a recuperar tração. O novo tarifaço aplicado agora tem origem nessa investigação contra o Brasil, iniciada em julho de 2025 pelo Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos: o Pix e o etanol foram os principais alvos, mas outros pontos da investigação citam também decisões do STF sobre big techs, a Lava Jato e até a rua 25 de Março, centro de comércio popular de São Paulo.
O Brasil, que estava na 13.ª posição no ranking dos países mais tarifados pelos Estados Unidos, agora subiu para a segunda, atrás apenas da China, segundo reportagem da BBC News com base nos dados da iniciativa Global Trade Alert. O governo Lula se preparava para cenário adverso à reversão da nova taxação. Quando concluiu a sua investigação, o governo americano marcou uma audiência com representantes do setor privado do Brasil e dos Estados Unidos.
Dela participou o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que chegou a solicitar que a taxação fosse aplicada após a eleição, porque poderia favorecer a reeleição de Lula. A intervenção foi considerada inapropriada pelos setores produtivos afetados. O governo brasileiro reiterou as críticas ao envolvimento do senador, principalmente porque o tom destoou daquele adotado pelo governo brasileiro, pautado no argumento de que a investigação americana é injusta nas críticas às práticas comerciais brasileiras.
Em nota divulgada nesta quinta-feira, 16, a Amcham Brasil assinala que, à medida que entra em vigor a partir de 22 de julho, coloca o Brasil entre os países com condições mais restritivas no mundo para acessar o mercado norte-americano, afetando mais de US$ 11 bilhões em exportações industriais e do agronegócio. “Esse tratamento contrasta com o crescente superávit comercial dos Estados Unidos com o Brasil — de US$ 41,8 bilhões em bens e serviços em 2025 — e com o baixo patamar das tarifas efetivamente aplicadas pelo Brasil aos produtos norte-americanos”, considerou a Amcham Brasil.
“O aumento das tarifas também tende a aprofundar a retração do comércio bilateral, que já registra queda de 13% no ano e levou a participação dos Estados Unidos no comércio exterior brasileiro ao menor patamar histórico.
Também poderá afetar negativamente os investimentos bilaterais, que mantêm estreita relação com o dinamismo das trocas entre os dois países”, acrescentou a Amcham, considerando positiva a definição de uma lista de produtos excluídos das sobretaxas, o que contribui para mitigar parte dos seus impactos. Ao mesmo tempo, a Amcham reivindica a criação de um mecanismo para avaliar novas exclusões para produtos, “cujas sobretaxas possam gerar impactos econômicos desproporcionais para empresas e consumidores ou que não contribuam de forma efetiva para resolver as preocupações comerciais apontadas pelos Estados Unidos”.
O tema retorna à pauta com mais troca de acusações, pela proximidade das eleições. Lula avisou que vai acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional em 2025. O governo brasileiro afirmou nunca ter deixado a mesa de negociações, declarou ter demonstrado serem descabidas as alegações contra o PIX e contra a regulação de plataformas digitais, além das acusações contra o desmatamento, que são pontos centrais da investigação.
Esses são pontos que o governo brasileiro sinaliza não ter disposição para negociar. Por seu turno, o secretário de Estado, Marco Rubio, acusou Lula, pelas redes sociais, de não ter negociado com os Estados Unidos de boa fé. Apesar do recrudescimento da troca de acusações, a diplomacia, os setores produtivos interessados, e especialistas, assim como fizeram em 2025, vão seguir atuando nos bastidores, desta vez, num contexto político mais conturbado pelas eleições.
Jornalista, doutora em Ciência Política e pesquisadora


