Quem tem o que comer nunca vai entender, de fato, o que se passa com as pessoas que estão de barriga vazia. As dores, as privações, o desespero, a fome. Quem viveu isso na pele sabe bem do que se trata. Por isso, as palavras escritas por Carolina Maria de Jesus marcam tanto desde a década de 1950. “Quando eu encontro algo no lixo que eu posso comer, eu como. Eu não tenho coragem de suicidar-me. E não posso morrer de fome.”
A fome leva a extremos. E isso não mudou, mesmo tantos anos depois. “As vezes, é um amigo próximo, é um vizinho que, aparentemente, não passa tanta necessidade, mas te pede ajuda. Esse era o caso de uma senhora que, aparentemente, chegava até bem arrumada, fazia trabalho informal e tentou suicídio devido a dificuldade financeira. A fome e a miséria estão do nosso lado, às vezes, na nossa família”, disse Cilene de Fátima Silva Santos, professora e coordenadora da Associação Renascer, que fica em Contagem, na região metropolitana.
A associação, criada há 20 anos para dar assistência para famílias com crianças portadoras de algum tipo de deficiência, acabou direcionada para uma demanda que cresceu, especialmente a partir da pandemia. O que era um reforço escolar, passou a ser garantia de alimento, e não apenas para as crianças.
“Começou, na verdade, com acompanhamentos escolares. A gente tinha o trabalho do acompanhamento escolar e percebemos que as crianças que frequentavam, tinham dificuldade de aprendizagem, elas vinham sem alimentação de casa. Foi então que a gente começou a proporcionar um lanchinho. A partir daí, as famílias dessas crianças, que eram muito carentes, começaram a nos procurar. Começamos ajudando (com o fornecimento) de legumes e cesta básica para, em média, 20 famílias. Hoje, são 380 famílias”.
Quase 400 famílias de Contagem e outras cidades da região metropolitana dependem, diretamente, dos alimentos doados para conseguir comer. “ São elas: famílias de classe baixa que não têm formação, (famílias) de um contexto totalmente conturbado, pessoas desempregadas que, com a pandemia, chegaram a passar fome”, completou Cilene de Fátima.
Fome que traz consequências importantes para adultos e, principalmente, crianças. A professora do Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem da UFMG Milene Cristine Pessoa explica esses impactos.
“A privação de alimentos pode ter consequências em todos os ciclos de vida, porque os alimentos fornecem nutrientes essenciais para o adequado funcionamento do nosso corpo. Mas, é importante destacar que nas crianças a falta de alimentos pode causar um processo de desnutrição, pode causar anemia e outras carências nutricionais. Isso pode comprometer o potencial de crescimento e desenvolvimento dessa criança, além de comprometer os aspectos cognitivos. Esse prejuízo cognitivo é mais um dos fatores que contribuem para a manutenção desse ciclo de pobreza. Então, fica cada vez mais difícil para uma criança que passa fome romper com esse círculo vicioso de pobreza e ter uma vida sem essas privações”, explicou.
E é justamente para evitar esses prejuízos que ONGs, associações, outras entidades e pessoas comuns se envolvem nessa causa de combate à fome. Esse é o desafio diário da Cilene, à frente da Associação Renascer. Para uma demanda que, infelizmente, só cresce, é preciso ter olhos atentos e coração aberto.
“Por mais que passe despercebido alguns detalhes, não tem como não se envolver. A gente se envolve emocionalmente e isso nos requer uma procura maior de parceiras. À medida que a demanda chega até a gente, a gente se obriga a correr atrás. Hoje, não tem como uma família nos procurar e sair de mãos vazias”.
Mãos vazias, nesse caso, significa também barriga vazia. Por isso, se você quiser ajudar basta ir na página do Instagram da Associação Renascer e entrar em contato. E você pode, sempre, procurar outra forma de ajudar, seja na sua rua, no seu bairro, ou em outro local. A fome não escolhe o lugar, então mantenha os olhos atentos. Se tiver alguma dúvida sobre o que está vendo, lembre-se do que escreveu Carolina Maria de Jesus: “A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a fome nos faz tremer”.
Amanhã, na última reportagem dessa série, a Itatiaia discute algumas saídas para esse cenário de aumento gigantesco da fome aqui no Brasil.