Antes de Belo Horizonte se consolidar como um dos
A chamada Praia da Estação nasceu como um ato político e ajudou a reacender o Carnaval belo-horizontino, transformando também a relação dos moradores com os espaços públicos.
Neste ano, a Praia da Estação completa 16 anos de história. Mesmo com milhões de foliões nas ruas e grandes artistas nacionais nos palcos, o evento ainda carrega as marcas daquele começo espontâneo, sem recursos públicos. Para quem viveu as primeiras edições, a Praia é símbolo de resistência e transformação.
O professor de História Francisco Foureaux esteve presente desde o início. Ele é o quarto entrevistado da série especial da Itatiaia “A Vida de Folião”, que reúne histórias de pessoas que vivem o Carnaval dentro e fora da corda dos blocos de rua, acompanhando as transformações da festa ao longo do tempo e mostrando como a paixão pela folia mudou suas vidas.
Leia também:
Em qual bloco ir? Conheça a foliã veterana por trás da planilha mais famosa do Carnaval de BH A folia vista de cima: a perna de pau que mudou a forma de uma jovem viver o Carnaval de BH Do bloco mirim à regência: a criança que cresceu com o Carnaval de BH
“Eu me lembro bem de e da primeira praia foi muito legal. Não era uma multidão ainda, algumas centenas de pessoas, mas tinha uma energia muito forte, o clima era de alegria, mas também com indignação, sabe? Sensação de que tava acontecendo alguma coisa nova, uma forma política de manifestação, mas confesta e também a sensação e com muita firmeza de o objetivo de que a cidade estava sendo devolvida para quem vive nela.”
O coletivo Praia da Estação começou a se organizar em 2010, após um grupo de jovens criar um blog para questionar a forma como os espaços públicos eram ocupados em Belo Horizonte, em reação a um decreto municipal publicado no fim de 2009, durante a gestão do então prefeito Márcio Lacerda, que passou a restringir o uso da Praça da Estação para eventos públicos, especialmente manifestações culturais e políticas.
A Praia da Estação mostrou, na prática, que o espaço público é para ser vivido, ocupado e disputado. “Depois da Praia da Estação, nunca mais olhei para a praça, a rua ou o viaduto do mesmo jeito. Foi um movimento fundamental, maravilhoso, um marco inquestionável da história de Belo Horizonte.”
Para Francisco, a ideia de entrar na fonte e transformar a praça em praia mudou completamente sua relação com a cidade.
“Eu nunca tinha pensado, por exemplo, em tomar banho numa fonte. A brincadeira de que Belo Horizonte não tem praia, mas tem a Praia da Estação, mudou a minha forma de viver a cidade. Mudou meu jeito de viver e de olhar a Praça da Estação, o Viaduto de Santa Tereza, a Avenida dos Andradas, a Praça Rui Barbosa. Passei a entender aquele centro da cidade que, na minha infância e juventude, era um lugar muito esquecido.”
Dezesseis anos depois, o Carnaval é outro. Para Francisco, a principal diferença está na quantidade de foliões.
“E hoje isso ficou gigantesco, né? Neste ano, a expectativa é de cerca de 7 milhões de pessoas em Belo Horizonte. É muito bom alcançar essa escala. BH entrou de vez no mapa do Carnaval do Brasil — algo que, há 15 anos, ninguém imaginaria. Hoje, o Carnaval de Belo Horizonte é conhecido nacionalmente, e turistas de todo o país vêm para a cidade por causa da festa.”
Apesar do crescimento, ele acredita que a essência da festa continua nos blocos de rua. “Quem sustenta de verdade o Carnaval é o bloquinho de rua, ali no chão, com a bateria feita pela própria rapaziada da cidade. É o bloquinho de rua que segura o Carnaval.”
Com Minas Gerais se preparando para um dos maiores carnavais da história, Francisco garante que estará, mais uma vez, na Praia da Estação. Ele também deixa dicas para quem vem de fora e quer aproveitar a folia na capital.
“Claro que eu vou à Praia da Estação este ano e, claro, vou estar no Carnaval, nos meus blocos de coração. Para o pessoal que vem de fora: o Então Brilha chama, o Síndico tem que ir. Havaianas Usadas, para quem gosta de axé, também. Unidos do Barro Preto é forte. E tem o Tchanzinho Zona Norte.”