Há sete anos, Cíntia Caroline, de 39 anos, passou a ver Belo Horizonte de um jeito diferente — literalmente. Sobre uma perna de pau, ela ganha 80 centímetros extras de altura e acompanha o Carnaval por mais de dez horas, equilibrando-se a 2,30 metros do chão. Talvez você já a tenha visto por aí, com um sorriso largo no rosto, onde há batuque, os “póóóóm-póóm” graves dos trombones e muita gente feliz. As hastes de madeira tornaram-se quase parte do corpo e da própria identidade: “Existe a Cíntia antes e depois da perna de pau”, riu.
Muita gente nem imagina qual é a altura real de Cíntia — nem como tudo isso começou. Ela é a primeira entrevistada da série especial ‘Vida de Folião’, produzida pela Itatiaia. Publicada às quintas-feiras, a série vai contar histórias de pessoas que vivem o Carnaval dentro e fora da corda dos blocos de rua, acompanhando as transformações da festa ao longo do tempo e como a paixão pela folia mudou suas vidas.
O início como ‘pernalta’ — nome da pessoa que se apresenta sobre pernas de pau — da publicitária e empreendedora começou há quase uma década, quando ela morava no Rio de Janeiro, em um período em que a capital mineira ainda era quase uma cidade fantasma durante a folia.
Cíntia Caroline e a turma de pernalta. Ela conta que a experiência sobre a perna de pau não acontece de forma isolada e que o impacto vem justamente por ser uma vivência coletiva
Ela conta que se encantou desde o primeiro instante. “Quando olhei aquele bloco lotado, aquele movimento lindo, e vi duas mulheres enormes na perna de pau, com frases de revolução e feminismo estampadas no corpo, foi muito forte. Elas estavam livres, em destaque, com tapa-teta, ocupando a rua e sendo exatamente quem são.” Equilibradas lá no alto, o impacto foi imediato: “Nossa, eu quero fazer isso”, pensou na época.
As pernas de pau foram usadas como ferramenta para facilitar o trabalho no campo e também aparecem em festas populares, no circo e no teatro de rua, chegando ao Carnaval. Não demorou para Cíntia fazer a primeira oficina, e o que para muita gente poderia ser um momento de tensão, para ela, foi conexão.
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“O tempo todo, o que eu sentia era alegria! Pensei: Nossa, eu amei estar nesse lugar, como é gostoso brincar disso”, relembra Cíntia.
E, como em toda brincadeira — e na própria vida — cair faz parte, e não há como escapar disso.
Da praia para as montanhas
A pandemia de 2020 confinou todos em casa e deixou saudade do calor da multidão. Nesse período, Cíntia continuou praticando: mudou-se para o interior do estado e levou consigo as pernas de pau.
“Todo mundo ficou em casa, recolhido, e eu também. Fui morar no mato, num interiorzinho. Levei minha perna de pau, obviamente. Subi montanha, fiz trilha na perna de pau, fiz o que pude naquele ambiente, sozinha, com a perna de pau”, lembrou.
Sobre uma perna de pau, Cíntia Caroline acompanha os blocos de BH do alto
Em 2022, ao voltar a morar na capital mineira, Cíntia encontrou uma cena tímida de “pernautas”, com apenas quatro ou cinco sobre as hastes de madeira.
“Não estou falando das pessoas que sobem na perna de pau do circo ou de outros movimentos, mas de Carnaval. Hoje, existem vários grupos, inclusive alguns dos quais não participo, mas os dois que faço parte são enormes: um deve ter cerca de 100 pessoas e o outro, em torno de 50”, disse.
Lugar de presença
Para ela, estar nas alturas a coloca em um lugar especial: o da presença. Em um tempo em que quase todo mundo divide a atenção com o celular, Cíntia vive e aproveita aquele momento.
A preparação para aguentar a maratona de acompanhar um ou mais cortejos, que pode durar quase o dia todo, é rigorosa.
Cíntia chega a almoçar, religiosamente — arroz, feijão e carne —, independentemente do horário em que o bloco sai. “Eu almoço antes de sair de casa um prato de comida mesmo, para garantir força para o bloco inteiro”, revelou.
Depois que sobe, ela não sabe quando vai descer... E até para fazer xixi vai com o membro de madeira presos aos pés.
Diferentemente dos blocos da capital carioca, BH tem uma característica que muda a experiência como pernalta: “Aqui é muito morro, muito morro mesmo! É o dia inteiro subindo e descendo morro”, riu. As andanças, às vezes, deixam marcas de roxos e arranhões pela panturrilha e a coxa.
Neste ano, entre janeiro e fevereiro, o plano é integrar pelo menos 16 blocos. “Fora os que decido de última hora”, contou. Só no ‘pré-pré-Carnaval’, nas primeiras semanas de janeiro, ela já participou do Unidos Queimando a Largada, Titanic, Bloquito Secretito Del Dieguito e Praia na Estação.
Costuras que atravessam gerações
Vinda de uma família de costureiras e alfaiates, a mãe de Cíntia é quem desenha os moldes e produz os looks deslumbrantes, com muito tecido, babados e brilho. Juntas, elas viram madrugadas costurando:
“Meus primeiros carnavais já eram assim: era ela quem fazia todas as minhas roupas. E isso continua até hoje. Quase todas as roupas que uso como pernalta na perna de pau somos eu e minha mãe que fazemos — raríssimas vezes passam para outra pessoa”, disse, ao lembrar das asas gigantes de pássaro que ambas fizeram em menos de dois dias.
A 2,30 metros do chão, foliã vive o Carnaval por mais de dez horas seguidas
A relação com o Carnaval acabou se estendendo ao trabalho. “Criei minha marca ‘Costuras do Imaginário’ em 2016. É uma marca cujo foco principal é acessibilidade e inclusão, porque todos os produtos têm estampa em braille — esse é o eixo central do trabalho. Em 2022, comecei a lançar produtos voltados para o Carnaval. Esta é a minha quarta coleção carnavalesca”, disse ela que produz, também, algumas peças para amigas pernaltas.
Os figurinos fundamentais para a performance. “Toda vez que a gente está em cima da perna de pau, as crianças param, olham e ficam encantadas. Muitas vezes, elas nem entendem o que é e acham que a gente simplesmente cresceu. Já teve criança que chegou em mim e perguntou: ‘Como você cresceu tanto?’”.
Agora, ela também compartilha essa paixão por meio de oficinas, encantando quem está nos blocos e ajudando a “formar” novos gigantes que passam a ocupar as ruas da cidade. “Eu sou outra pessoa completamente”, afirma, com um sorriso que acompanha essa história desde o início.