Muita gente ainda lembra como era Belo Horizonte no Carnaval de 15 anos atrás. Mas tem muita gente que não — gente que já nasceu com a festa acontecendo e cuja primeira memória já é dentro de um bloco. Tiago Servilha, de 19 anos, é um dessa nova geração: aos 7, já estava na bateria e, hoje, já regeu blocos infantis como o Mindinho e, neste ano, esta a frente dos cortejos do Me Respeita que Eu Sou Criança, Meninada do Click e Gafieira.
“Eu nem lembro da minha infância sem o Carnaval”, contou, o estudante de matemática Computacional na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que hoje já ganha renda com as participações na festa. “Tem dia que tenho dois blocos para reger”, acrescentou.
Tiago é o terceiro entrevistado da série especial “Vida de Folião”, produzida pela Itatiaia. Publicada às quintas-feiras, a série conta histórias de pessoas que vivem o Carnaval dentro e fora da corda dos blocos de rua, acompanhando as transformações da festa ao longo do tempo e mostrando como a paixão pela folia mudou suas vidas.
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A primeira memória
Filho de foliões — um ritmista e outra da ala de dança —, ele contou da primeira lembrança que vem à cabeça ao pensar em Carnaval: “Tenho cenas no Baianas Ozadas. Eu usava uma ‘bandaninha’ na cabeça e tocava surdo — nem lembro qual, só sei que era um surdo pequenininho, de criança. Quase não fazia barulho, mas eu gostava mesmo assim, só pela brincadeira.”
Tiago conta que tocar deixou de ser apenas uma brincadeira por volta dos 11 ou 12 anos, quando ele passou a se envolver mais no projeto Queixão, que era a bateria mirim do tradicional bloco Unidos do Samba Queixinho.
Tiago tocando violão no Queixão
Criado em 2009, o Samba Queixinho tem quase a mesma idade de Tiago, já que nasceu apenas dois anos depois.
Isso tudo ao lado do pai, Rodrigo Maciel, de 49 anos, que, após passar pelo Queixão, fundou, em 2019,
Dividindo o apito
Tiago começou em um ''mini surdo’’ e avançou passando por todos os instrumentos que compõem uma bateria, como repique, caixa e tamborim. “O repique talvez seja o instrumento que eu mais me divirto tocando”, contou ele, que ainda vai estrear o timbal neste Carnaval.
Para o batuque acontecer e o bloco sair, alguém precisa ficar à frente dos ritmistas. É o que se chama de regente.
Tiago na regência do Queixão, antiga ala mirim dos Unidos do Samba Queixinho
É como ser o capitão de um time: para a música acontecer, é preciso comandar ritmo, entradas e o tempo dos instrumentos, assim como um maestro faz com uma orquestra. A comunicação acontece por meio de sinais combinados com a bateria e, claro, daquele apito que ajuda a manter todo mundo no mesmo ritmo.
“É preciso criar sinais para que todos se entendam sem precisar gritar. Essa linguagem não é totalmente universal: alguns gestos são comuns em muitos blocos, especialmente em ritmos mais tradicionais, mas outros variam bastante. Já em ritmos menos comuns, como baião, bachata ou forró, os sinais muitas vezes são inventados na hora, de um jeito que faça sentido para o grupo”, contou Tiago, que aprendeu com o pai e hoje passa adiante tanto os códigos ensinados por ele quanto os que criou ao longo do percurso.
A primeira vez a frente
Ele se lembra de 2024 como o ano em que, pela primeira vez, precisou assumir sozinho a frente de uma bateria.
“No dia anterior, meu pai me falou: ‘Ó, filho, eu não estou passando bem. Não garanto que vou conseguir amanhã, então se prepare para reger’. Respondi: ‘Ah, tá bom, então vai ser isso’. Na manhã seguinte, ele acordou e disse: ‘É, realmente eu não vou dar conta’. Ele me passou as informações técnicas necessárias… mas a falta dele foi sentida”, contou Tiago, acrescentando que contou com o apoio de familiares e amigos para que o cortejo do Mindinho saísse no bairro Santa Tereza, na Região Leste da capital mineira.
Aprender e ensinar
O regente é quem coordena, mas também quem ensina. Segundo Thiago, o trabalho começa quase sempre sem instrumentos, “usando o corpo, o qual é o primeiro instrumento. Assim, eles aprendem o grave, agudo e o papel de cada um na música”, explicou. Os ensaios com as crianças duram quase o ano inteiro, no Mindinho, por exemplo, começam em abril.
Hoje, Tiago não rege mais na bateria infantil fundada pelo pai, já que, ao fazer 18 anos, deixou a função. Ainda assim, acompanha as oficinas conduzidas pelo pai e irmão, André, de 17 aos, que assumiu o apito da bateria com crianças a partir de 4 anos, e integra a banda do bloco.
Além da festa
Para Tiago, estar na rua vai além da folia: “Não é só festa para mim… é uma emoção diferente participar e fazer parte, não só como ouvinte, mas também como produtor da festa”, afirma. Mesmo com a rotina puxada, que toma boa parte das férias, o dia do desfile compensa o esforço. “É cansativo, mas o dia do desfile compensa tudo. O Carnaval, para mim, hoje é um momento de libertação. Seja regendo ou tocando, eu me divirto muito”, conta.
Tiago a frente do bloco Gafieira
Neste ano, no Gafieira, Thiago vai dividir a regência com o pai e o irmão, além de tocar timbal. No Bora Pro Nobis, participa da bateria tocando caixa. Já nos blocos Clic, Me Respeita que Eu Sou Criança e Gafieira, Tiago assume a regência dos cortejos. No Mindinho, ele integra a banda, que levará o tema “Carnaval Sem Telas”, com a proposta de criar experiências novas fora do mundo virtual.
Já o Gafieira apresenta o “Carnaval da Saúde Mental”, em homenagem a Pedro, cofundador do bloco que morreu no ano passado. “Ele foi muito importante para a gente, para o Carnaval da nossa família, e vai ficar marcado para sempre”, disse.
Confira a agenda dos blocos
Gafieira
• Pré-Carnaval: 8/2, às 12h — Rua Nova Ponte, 22, Salgado Filho
• Cortejo oficial: 14/2, às 13h — Rua João Pinheiro, 258, Centro
Mindinho
• Pré-Carnaval: 8/2, às 10h — Rua Ibiraci, 134 (Praça do bairro Salgado Filho), Salgado Filho
• Cortejo oficial: 16/2, às 10h — Rua Mármore, 145, Santa Tereza
Me Respeita que Eu Sou Criança
• Pré-Carnaval: 7/2, às 9h30 — Escola HUB PampulhaBloco da Meninada do Clic!
• Pós-Carnaval: 21/2, às 9h30 — Rua Tupaciguara, 79, São Pedro
Bora Pro Nobis
• Cortejo: 17/2, às 9h — Praça da Bandeira